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A coragem de aparecer inteiro

  • há 1 dia
  • 3 min de leitura

Atualizado: há 6 horas

Talvez amar seja justamente isso: o difícil e bonito movimento de sair um pouco de si mesmo para prestar um tantinho de atenção no outro. Descobrir como o outro recebe amor. Como ele se sente amado. É quase um jogo de adivinhação, cheio de pistas espalhadas em pequenas coisas: um silêncio, um toque, um “chegou bem?”, um “bom trabalho, meu bem”, uma videochamada do nada.

Tem gente que ama dando presentes. Tem gente que ama por ações. Tem quem precise do toque, do sexo, dos elogios, da atenção e da presença. E talvez a maior intimidade não esteja em aprender como o outro gosta de amar, mas em conseguir comunicar aquilo que temos de menos bonito: o ciúme, a raiva, a frustração, o medo de não ser suficiente.


A psicanálise talvez ajude a entender um pouco disso quando mostra que amar nunca é um encontro perfeitamente limpo entre duas pessoas inteiras. A gente ama também com as faltas, com as fantasias, com aquilo que deseja no outro e nem sempre consegue nomear.


O desejo é estranho porque nunca se satisfaz completamente. Ele se move, escapa, inventa novas perguntas. E talvez seja justamente por isso que o amor precise ser mais do que paixão ou admiração. Amar também é querer sinceramente o bem do outro, mesmo quando o encanto dá lugar ao cotidiano. É suportar os dias comuns, os humores ruins, as repetições, os silêncios, as pequenas diferenças que podem até ser um charme, mas que também exigem trabalho emocional.


E, no meio disso tudo, existem pequenas delicadezas que sustentam o desejo sem precisar de grandes espetáculos: uma marmita feita com cuidado, uma “boa sorte” antes de uma reunião importante, um café esperando na mesa. Talvez o amor adulto more muito mais nessas formas discretas de presença do que nas promessas grandiosas que aprendemos a romantizar.


Eu, por exemplo, pareço um homem blasé, como dizem por aí. Meio incompreensível ou misterioso. Mas quem me conhece na essência sabe que sou exatamente o contrário. Quando percebo, já contei minha vida inteira para a primeira pessoa que me deu um pouco de atenção. Já estou rindo alto porque não consegui me controlar e fiquei feliz demais. Já escrevi um texto sobre essa minha atual paixão e publiquei numa revista. E então desaparece o personagem do homem misterioso que insistem em projetar em mim.


E, sinceramente? Hoje desconfio muito desse tipo de mistério. Como conseguem existir pessoas que nunca têm nada a dizer, a doer, a aconselhar, a cantar errado, como eu, a dançar, a morrer de rir, a fofocar, a detalhar, a exagerar (gosto muito dos exageros), a sonhar, a dividir, a acrescentar? Durante muito tempo, achei que isso fosse charme, elegância emocional, autocontrole. Até descobrir que talvez a coisa seja muito mais simples: nada. Não se passa nada de tão profundo assim dentro desses homens misteriosos tão desejados. Nem dessas mulheres silenciosas que parecem guardar um universo inteiro atrás dos olhos. Às vezes, não é mistério, discrição ou profundidade. Às vezes, é apenas ausência.


E talvez por isso eu continue insistindo tanto na presença do encontro. No encontro com o outro, comigo mesmo e com o amor. Porque amar, para mim, nunca foi parecer interessante aos outros. Sempre foi ter coragem de aparecer inteiro.


Tenho investido num tipo de encontro que restitui o brincar, sem o pejorativo do jogo, que é chato e cansativo. Tenho tido a oportunidade de experimentar relações mais bem-humoradas, como se fossem brincadeira mesmo. Assim como uma criança brinca e sabe que não está delirando, mas participa de uma brincadeira seriamente, como dizia Freud.


O oposto do brincar não é o que é sério, mas sim o que é real. A criança investe uma quantidade imensa de afeto e emoção em seus jogos, tratando-os com total seriedade, mesmo sabendo separar perfeitamente o seu mundo imaginário da realidade concreta. Talvez o tal “leve” que todo mundo busca no amor e na vida seja justamente isso: resgatar o brincar com humor, com afeto, com presença. No amor, no trabalho e nos vínculos.


E, para chegar nesse nível de sofisticação, é preciso muito trabalho emocional. Eu já desisti do tudo ou nada nas relações, do “é ou não é”, desse binarismo chato. O amor me parece muito mais um campo criativo, refinado e vivo. E talvez a maior sorte seja encontrar alguém disposto a brincar junto, porque ninguém faz uma boa brincadeira sozinho.


Diógenes Carvalho é ator, advogado, professor universitário e pesquisador. Autor de vários livros e psicanalista em formação. Inquieto, curioso e questionador, acredita no mergulho transformador da análise e no amor. Por aqui, fala sobre vida real, desafios da existência humana e o contemporâneo.

 
 
 

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