A outra Noronha: aos 523 anos, o arquipélago revela paisagens que poucos já viram
Projeto de Fabi Fregonesi e Raphael Gatti transforma 16 pontos de mergulho em panorâmicas inéditas e amplia o olhar sobre uma das paisagens naturais mais conhecidas do Brasil

Fernando de Noronha completa 523 anos nesta segunda feira, 10 de agosto. Conhecida pelas praias, pelas águas transparentes e pela biodiversidade, a ilha que se tornou um dos destinos mais emblemáticos do Brasil ainda guarda uma paisagem que permanece inacessível para grande parte dos visitantes.
Ela está debaixo d’água.
É nesse território que a fotógrafa subaquática Fabi Fregonesi e o mergulhador e fotógrafo Raphael Gatti concentraram uma expedição de três semanas. O resultado é o projeto Panorâmicas de Noronha, que percorreu 16 pontos de mergulho do arquipélago e registrou ambientes submersos por meio de uma técnica que amplia radicalmente o campo de visão.
Em vez de uma única fotografia, as imagens são formadas pela união de múltiplas capturas. Dependendo do local, são utilizadas de três a mais de 24 fotografias para construir uma única panorâmica.
A técnica permite apresentar formações rochosas, paredões e naufrágios em uma escala que dificilmente caberia em um enquadramento convencional.
Entre os pontos registrados estão Pedras Secas I e II, Cabeço da Sapata, Trinta Réis e a Corveta V 17.
“Esse projeto nasce de uma inquietação: a sensação de que o que a gente vê no mergulho em Noronha raramente é possível ser traduzido em imagem. A panorâmica foi a forma que encontramos de respeitar a escala do oceano e registrar esse território como ele realmente é: grandioso, complexo, vivo e impossível de ser reduzido a um único enquadramento”, afirma Fabi Fregonesi.

Fotografar debaixo d’água
A escolha da técnica não foi apenas estética. A fotografia subaquática apresenta uma dificuldade particular: quanto maior a distância entre a câmera e o objeto, maior é a quantidade de água entre a lente e a cena. Isso interfere diretamente na nitidez, no contraste e na quantidade de detalhes captados.
Para preservar essas características, os fotógrafos trabalham próximos às formações e produzem uma sequência de imagens que posteriormente é unificada em uma única composição.
O processo exige planejamento antes mesmo de entrar na água. Durante os mergulhos, Fabi e Raphael precisam definir os enquadramentos, os movimentos e o tempo disponível para cada registro.
“O desenvolvimento do projeto demandou uma estruturação importante, além de muito tempo de estudo para aperfeiçoamento da técnica. Além disso, trabalhar juntos em algo tão inovador trouxe um nível de troca muito intenso”, conta Raphael Gatti.
“No mergulho, muitas decisões são silenciosas, no olhar e no tempo de espera. Existe uma sintonia que vai além da técnica, e isso aparece no resultado final.”
A Corveta V 17
Um dos registros mais complexos do projeto foi realizado a aproximadamente 62 metros de profundidade.
Trata se da Corveta Ipiranga, conhecida como V 17, um navio de guerra que naufragou em 1983 depois de colidir com o Cabeço da Sapata. Hoje, o local é um dos pontos de interesse para mergulhadores experientes que visitam Fernando de Noronha.
A embarcação foi fotografada a partir da união de três imagens. O resultado apresenta uma visão mais ampla do naufrágio e permite perceber sua estrutura dentro do ambiente submerso.
Um mergulhador aparece na composição para criar uma referência visual de escala.
“Muita gente usa o recurso de ter um elemento humano nas fotos. No entanto, no nosso projeto, entendemos que, se não usássemos um mergulhador para compor a imagem, a escala do local se perderia e as pessoas não conseguiriam ter noção do tamanho real daquele ambiente”, explica Fabi.
O registro também exigiu uma operação precisa.
O mergulho completo durou cerca de 65 minutos, incluindo descida, permanência no fundo, fotografias e subida. Desse período, apenas aproximadamente 15 a 17 minutos foram destinados efetivamente ao registro do naufrágio, respeitando os protocolos de segurança necessários para aquela profundidade.
“Tivemos cerca de 15 a 17 minutos efetivos para fotografar o naufrágio em si. Todo o restante do mergulho foi dedicado à subida, respeitando rigorosamente os protocolos de segurança exigidos para uma profundidade como essa. Por isso, o planejamento prévio foi essencial. A gente já entrou na água sabendo exatamente o que precisava fazer”, afirma Fabi.
“Não existia margem para erro. A segurança vinha sempre em primeiro lugar, obviamente, mas isso também exigia muita precisão. Precisávamos ser extremamente assertivos nas imagens que queríamos capturar”, completa Raphael.
A paisagem que o cartão postal não mostra
Fernando de Noronha é reconhecida mundialmente pela paisagem que pode ser vista da superfície. O projeto propõe justamente mudar esse ponto de vista.
Ao unir diferentes fotografias, Fabi e Raphael apresentam o fundo do mar como uma paisagem completa, e não apenas como cenário para fotografias de animais, corais ou naufrágios.
A diferença está na escala.
As imagens permitem compreender a dimensão das formações submersas e a relação entre os diferentes elementos que compõem esses ambientes. O mergulhador, muitas vezes utilizado como referência, ajuda a revelar o tamanho real de um território que, sem essa comparação, poderia parecer muito menor.
A iniciativa também ganha importância diante do papel ambiental do arquipélago. Fernando de Noronha é reconhecida como Patrimônio Mundial da UNESCO e integra a rede internacional de Hope Spots, áreas consideradas importantes para a conservação dos oceanos.
Para Fabi, a fotografia pode funcionar como uma ponte entre o público e ambientes que normalmente permanecem distantes.
“Quando a gente mostra a escala e a beleza desses ambientes, a relação muda. Não é uma foto retratando apenas uma pequena parte de um ponto de mergulho, mas se torna um território grandioso que precisa ser preservado.”
“Eu sempre falo que a fotografia tem o poder de aproximar e gerar cuidado. Esse é também um dos nossos objetivos: encantar e, através do encantamento, convidar as pessoas a serem parte ativa no cuidado com esses paraísos”, completa.
Realizado de forma independente e sem patrocínio específico, Panorâmicas de Noronha contou com apoio operacional da operadora de mergulho Águas Claras, responsável pela logística das saídas durante a expedição.
Depois de três semanas de trabalho e 16 pontos de mergulho registrados, os fotógrafos consideram que o projeto representa apenas uma primeira etapa.
“A gente saiu de Noronha com a sensação de que esse é só o começo. Ainda existe muito a ser revelado debaixo d’água”, afirma Raphael.
Fabi Fregonesi
Fotógrafa subaquática brasileira, Fabi Fregonesi passou duas décadas trabalhando na publicidade antes de transformar a fotografia em uma nova trajetória profissional, aproximando arte, natureza e conscientização ambiental.
Foi a primeira brasileira a chegar ao pódio do Underwater Photographer of the Year, conquistando o terceiro lugar na categoria Wrecks, dedicada a naufrágios, entre mais de 6.500 imagens inscritas.
Em dois anos, acumulou mais de 30 prêmios internacionais, incluindo reconhecimentos no One Eyeland Award e no Sony World Photography Awards.
Raphael Gatti
Fotógrafo subaquático e mergulhador há mais de 15 anos, Raphael Gatti tem trabalhos publicados em revistas especializadas em mergulho.
Entusiasta de tecnologia, dedica seu trabalho à pesquisa de equipamentos, processos de pós produção e novas técnicas capazes de ampliar as possibilidades da fotografia subaquática.
Seu trabalho é marcado pelo estudo contínuo de novas ferramentas e pela busca de formas diferentes de registrar e apresentar os ambientes marinhos.



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