Artigo de Opinião: Perder ou perder-se?
- 2 de abr.
- 3 min de leitura
Elizabeth Bishop nos oferece um convite que, à primeira vista, soa quase ofensivo: perder. Em “A arte de perder”, ela afirma, com uma serenidade desconcertante, que perder “não é nenhum mistério” e, mais ainda, que “não é nada sério”. Há algo de provocativo nessa ideia. Afinal, quem vive uma perda sabe que ela raramente se apresenta como simples.
Fui apresentado a esse poema pela minha diretora de teatro, Bia Szvat. Naquele momento de leitura, o texto me causou certo desconforto. Havia algo ali que não se acomodava facilmente. A proposta de aprender a perder, de quase ensaiar a perda, pareceu estranha, quase inaceitável. Como transformar em arte aquilo que, em geral, nos desorganiza?
Causa estranhamento, sim. E talvez seja justamente aí que o poema começa a operar.
Recentemente, vivi uma perda que não teve nada de abstrata. Um assalto na Rua Cardeal Arcoverde me deixou sem meu notebook, cadernos, mochila, diários e textos manuscritos. Não eram apenas objetos. Eram extensões de memória, rastros de pensamento, tentativas de dar forma ao que ainda estava em elaboração. Havia ali ideias em estado bruto, textos inacabados, registros de processos que não existem em nenhum outro lugar. Perder isso não foi um exercício estético. Foi um corte.
E, ainda assim, o poema insiste:
“A arte de perder não é nenhum mistério.”
Bishop parece nos conduzir por uma pedagogia da perda. Começa com pequenas ausências — uma chave, um tempo desperdiçado — e, gradualmente, amplia o campo: lugares, nomes, cidades, até chegar a algo da ordem de um império. Há, nesse movimento, uma espécie de treino, como se perder fosse uma habilidade a ser cultivada. Como se houvesse, na repetição das pequenas perdas, uma preparação silenciosa para aquelas que não escolhemos.
Mas que habilidade é essa?
Talvez não seja a de banalizar a perda, mas a de suportá-la sem que ela nos destrua por completo. Há uma diferença sutil, mas decisiva, entre perder algo e perder-se nisso. Entre deixar ir e se desorganizar inteiramente diante do que se foi.
No meu caso, o que se perdeu não foi apenas material. Foi também a sensação de continuidade. Aqueles cadernos guardavam versões de mim que agora não posso mais acessar diretamente. Ideias que talvez não voltem, frases que só existiam naquele momento, naquela forma. Há algo de irrecuperável nisso. E é aqui que a proposta de Bishop começa a ganhar outra camada.
Porque perder, no sentido mais radical, nos confronta com um limite: o de que nem tudo pode ser retido, postado, guardado, arquivado ou preservado. Há sempre um resto. Há sempre algo que não pode ser salvo.
Mas existe também um outro movimento possível, mais arriscado: o de perder-se. Não no sentido de dissolução ou desamparo, mas de entrega. Perder-se como quem aceita que não controla tudo, que não domina os caminhos, que não garante a permanência das pessoas e das coisas. Há, nisso, uma abertura que não é confortável, mas pode ser transformadora.
Se perder algo é, muitas vezes, imposto pela realidade, perder-se pode ser um gesto. Um deslocamento. Uma forma de sair da ilusão de domínio e se colocar em relação com o que não se controla. Não como resignação, mas como reconhecimento de limite.
Talvez a “arte” de que Bishop fala não seja a de tornar a perda indiferente, mas a de criar um espaço onde ela possa existir sem nos paralisar. Um espaço em que a ausência não seja apenas falta, mas também condição para uma nova forma de presença.
Perder um notebook, cadernos, textos, é perder registros. Mas não necessariamente o movimento que os produziu. Esse, de algum modo, persiste. E talvez seja nele que algo pode ser retomado — não como repetição do que foi, mas como reinvenção.
Estamos no início de abril. Há algo simbólico nisso. Como se o calendário, silenciosamente, abrisse uma nova página. Não no sentido ingênuo de recomeçar do zero, como se nada tivesse acontecido, mas no sentido mais difícil de começar de novo carregando o que não está mais aqui.
Uma página em branco pode ser vertigem. Pode ser falta. Pode ser ausência do que foi perdido. Mas também pode ser possibilidade. Um espaço ainda não preenchido, onde algo pode voltar a se escrever, ainda que de outro modo.
Talvez perder também seja isso: ser colocado diante de uma página que não escolhemos abrir.
E, ainda assim, escrever.
No fim, o poema não elimina o peso da perda. Ele simplesmente encontra outros sentidos. E nos deixa com uma pergunta incômoda, mas necessária: diante do que se perde, vamos apenas tentar recuperar ou somos capazes, em alguma medida, de nos perder também, para encontrar outra forma de seguir?

Diógenes Carvalho: Pós-doutor em Direito e em Psicologia; Doutor em Psicologia; Mestre em Direito; Diploma de Direito Europeu; Psicanalista em formação; Professor universitário; Advogado e ator.



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