Bloco Ilariê: a memória da Xuxa que ganhou as ruas de São Paulo
- 30 de jul.
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O criador do bloco fala sobre Xuxa, nostalgia e o legado de uma geração.

Antes de existir o Bloco Ilariê, existia uma criança encantada pelo universo da Xuxa. Diego Rodrigues cresceu acompanhando a Rainha dos Baixinhos e transformou uma memória afetiva da infância em um dos movimentos mais especiais do Carnaval paulistano.
O que começou como uma brincadeira entre amigos ganhou novas proporções e se tornou uma celebração da cultura pop brasileira, reunindo diferentes gerações, performances, música, diversidade e símbolos que atravessaram décadas, como a famosa Nave da Xuxa.
Conhecido também como Dieguita, Diego uniu sua trajetória como relações públicas ao universo artístico para criar uma experiência que vai além da nostalgia. Em um momento simbólico, marcado pela despedida de Xuxa dos grandes palcos com o “Último Voo da Nave”, ele fala sobre infância, legado, desafios e a responsabilidade de manter viva uma das maiores referências da televisão brasileira.
Entrevista

Antes de existir o Bloco Ilariê existia uma criança apaixonada pela Xuxa. Qual é a primeira lembrança que você guarda dela e quando percebeu que essa conexão faria parte da sua história? Tenho algumas lembranças muito especiais da minha infância com a Xuxa. Uma delas é que aprendi a ver as horas no relógio por causa do Xou da Xuxa. Outra foi uma nave que construí com a caixa de uma geladeira, com bocas desenhadas de canetinha e fumaça feita com incenso. Eu tinha apenas quatro anos.
Sempre fui muito encantado por esse universo feliz, inclusivo e colorido que ela criou. Acho que, de alguma forma, sempre quis ser um condutor dessa mesma alegria e dessas boas energias. Ela sempre esteve presente nos meus pensamentos, mas eu jamais imaginei que essa paixão me levaria tão longe.
O que começou como uma homenagem se transformou em um dos blocos mais reconhecidos de São Paulo. Em que momento você percebeu que o Ilariê tinha se tornado algo maior do que uma celebração pessoal? Tudo começou como uma homenagem e uma brincadeira de Carnaval. Em 2018, me fantasiei de Xuxa pela primeira vez, ao lado de uma Paquita, e recebi um carinho que eu nunca imaginei.
De lá até 2023, nossa turma foi crescendo, até chegarmos a cerca de 70 integrantes. Em 2024, essa brincadeira se transformou oficialmente no Bloco Ilariê. Foi quando percebi que o projeto tinha deixado de ser apenas um encontro entre amigos para ganhar vida própria.
A Xuxa marcou gerações inteiras. Diego, como é ver pessoas que cresceram com ela levando seus filhos para viver essa mesma experiência através do bloco? Essa é uma das partes mais bonitas de todo esse movimento nostálgico.
As crianças dos anos 80 e 90 tiveram o privilégio de viver a última infância totalmente analógica. Poder apresentar esse universo aos filhos, não apenas por vídeos e músicas, mas por meio de uma experiência real, é um dos maiores propósitos do Ilariê.
Sinto que as crianças de hoje têm muito entretenimento, mas poucas figuras de carne e osso transmitindo valores por meio da diversão. Poder proporcionar isso é muito especial.

A Nave da Xuxa é um dos grandes símbolos do Ilariê. O que significa para você trazer novamente esse imaginário para as ruas de São Paulo? A Nave sempre foi o grande portal desse universo. Era ela que trazia a nossa rainha todas as manhãs.
Trazer esse símbolo para as ruas sempre foi um sonho de infância. Democratizar a Nave e permitir que pessoas que nunca puderam viver essa experiência de perto possam se emocionar é algo maravilhoso.
Vejo muitos adultos chorando quando a encontram, e fico feliz por ser um dos responsáveis por proporcionar esse momento.
O Dieguita mistura performance, humor, moda e referências da cultura pop. Como nasceu essa persona e como ela convive com o Diego relações públicas e criador do projeto? A Dieguita nasceu de uma brincadeira de Carnaval, completamente sem pretensão. Mas o universo parece ter conspirado para que ela crescesse.
Ela reúne várias facetas minhas: o relações-públicas, o diretor artístico, o stylist e o comunicador. São lados que sempre existiram, mas que ainda não tinham encontrado um espaço para florescer.
Talvez o maior desafio seja justamente mostrar ao mercado que uma pessoa pode ser muitas coisas ao mesmo tempo. Depois dos 40 anos, percebi que já não fazia sentido limitar quem eu sou. Tenho me permitido explorar todas as minhas versões.

A mensagem da Xuxa sempre esteve ligada à liberdade, inclusão e amor. Você acredita que o Bloco Ilariê também se tornou um espaço de pertencimento e acolhimento? Com toda certeza.
Esses são justamente os pilares do Bloco Ilariê. Trago muito da minha experiência como relações-públicas: quanto mais diversidade, melhor.
Temos um corpo de baile formado por pessoas de diferentes raças, gêneros, idades e biotipos. Tenho muito orgulho de ver essa convivência acontecer com tanto respeito.
Dali nascem amizades, negócios, romances, conexões profundas e uma verdadeira força-tarefa capaz de enfrentar qualquer desafio.
Qual foi o momento mais marcante que você viveu junto ao Bloco Ilariê? O momento mais marcante foi no Dia das Crianças de 2024, quando levamos a Nave para a comunidade Sonhar e Viver, no Campo Limpo, em São Paulo.
Ver aquela nave no meio da comunidade, cercada por crianças e famílias, foi emocionante. Foi um dos momentos mais representativos da história do Bloco Ilariê e nos rendeu imagens que nunca vou esquecer.

A despedida de Xuxa dos grandes palcos emocionou muitos brasileiros. Qual foi sua reação ao receber a notícia do “Último Voo da Nave”? Foi um misto de emoções.
Ao mesmo tempo em que pensei “vamos viver uma turnê histórica”, também senti que seria a despedida de uma infância que a gente nunca quer deixar para trás.
O convite para participar da cobertura oficial dos bastidores veio depois, e até hoje custa acreditar que estou fazendo parte desse momento tão importante da história da Xuxa.
Para você, que criou um projeto inspirado diretamente nela, o que representa acompanhar esse encerramento de ciclo? Fico muito feliz por ela.
Eu sabia o quanto essa turnê era um sonho e como ela queria presentear os fãs com esse reencontro. Imaginava que seria um grande sucesso, mas nunca pensei que a repercussão seria tão enorme. Ela merece viver tudo isso.
Como alguém que construiu um projeto inspirado nela, acompanhar esse encerramento é também entender a dimensão do legado que ela deixa para tantas gerações. É emocionante fazer parte desse capítulo.
Por trás da magia existe uma grande estrutura. Diego, qual foi o maior desafio para manter o Bloco Ilariê vivo? São muitos desafios.
Por incrível que pareça, o Carnaval de rua ainda não recebe o reconhecimento que merece de muitas marcas, que acabam se afastando da maior festa popular do Brasil em vez de apoiá-la.
Também enfrentamos muita burocracia junto à Prefeitura. São Paulo quer carregar o título de maior Carnaval do país, mas ainda oferece pouco suporte aos blocos.
É preciso muita resiliência para manter um projeto como esse vivo.

Se pudesse estar diante da Xuxa hoje e resumir em uma frase tudo o que ela representa na sua trajetória, qual seria essa mensagem?Eu agradeceria pela infância maravilhosa que ela me proporcionou, pelos valores que ajudou a construir em mim e pelo carinho com que sempre me tratou.
Quando paro para pensar, ainda custa acreditar no caminho que aquele Dieguinho percorreu até chegar aqui.
Quando as pessoas lembrarem do Diego, da Dieguita e do Bloco Ilariê no futuro, qual sentimento você gostaria que permanecesse? Acho que muita gente enxerga apenas a parte bonita da história, mas existe muito trabalho e muitos desafios por trás de tudo isso.
Já enfrentei preconceitos por causa da nostalgia, da arte drag e do próprio projeto. Mesmo assim, espero que, quando lembrarem de mim, da Dieguita e do Bloco Ilariê, lembrem que tudo foi feito por amor e pelo desejo sincero de espalhar boas energias.




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