top of page

CRÔNICA | A nostalgia do frio

  • há 2 horas
  • 2 min de leitura

Por Gerson Ruoso Junior


Talvez o frio seja uma das formas mais silenciosas de memória. Para quem nasce no Sul, ele não é apenas uma estação: é paisagem, família, comida, infância e uma sensação de pertencimento que permanece mesmo depois da partida.


Comecei a pensar neste texto depois de procurar se já existia algo chamado “A nostalgia do frio”. Encontrei outras coisas. Entre elas, estudos sobre A descoberta do frio, de Oswaldo de Camargo, obra que transformou o frio em uma poderosa metáfora. Uma dissertação da PUC-SP fala em uma “poética do frio” relacionada à memória e à reconstrução de um passado histórico.


Em outro estudo, a obra é analisada justamente pela relação entre frio, memória e trauma coletivo.


Foi essa ideia de frio como memória que me fez pensar em outro tipo de frio: aquele que conhecemos porque nascemos dentro dele.

Quem nasce no Sul aprende cedo que o inverno organiza a vida. Está no vento que corta o rosto, na geada sobre os campos, na neblina das manhãs, nas árvores quase sem folhas e nas casas aquecidas enquanto lá fora tudo parece mais silencioso.


Está também na comida. No café passado, no pão quente, no pinhão, na bergamota, na sopa, no vinho. Na cozinha cheia e na família reunida em torno da mesa. No cobertor sobre o sofá e naquela vontade de ficar em casa quando o vento aumenta.


Talvez seja por isso que o frio produza tanta nostalgia.

Porque, quando lembramos dele, não lembramos apenas da temperatura. Lembramos de quem estava conosco.


De uma infância em uma cidade pequena. De uma manhã antes da escola. De alguém dizendo para levar um casaco. De uma avó na cozinha. De um domingo em família. De uma paisagem que parecia comum e que só descobrimos ser extraordinária depois que fomos embora.


Quem nasce no frio pode passar anos reclamando dele. Até que um dia mora longe e percebe que sente falta justamente daquilo.

Do vento.

Da geada.

Do céu cinza.

Da casa aquecida.

Da comida feita devagar.

Talvez a nostalgia do frio seja, no fundo, uma nostalgia de pertencimento.


Uma saudade de um lugar onde o corpo reconhece a temperatura e a memória reconhece todo o resto.

Porque algumas paisagens não ficam para trás quando partimos. Elas continuam dentro da gente.

E talvez seja por isso que exista um amor tão grande pelo frio para quem nasceu no Sul: não é apenas saudade do inverno. É saudade de uma vida que tinha outra temperatura.


Comentários


bottom of page