FLAVIO VERNE: O NOME POR TRÁS DO POP BRASILEIRO
De Brasília para os maiores palcos do mundo, o diretor criativo e coreógrafo revela os bastidores das superproduções da cena pop nacional, sua trajetória ao lado de grandes nomes da música e como preserva a saúde mental diante de um mercado de ritmo frenético.

Nas últimas décadas, a música pop brasileira passou por uma transformação radical em termos de estética, presença de palco e identidade visual. No centro dessa revolução está Flavio Verne, profissional que transcendeu os limites da dança para se consolidar como uma das mentes criativas mais influentes do país.
Natural do Distrito Federal, Verne construiu uma trajetória sólida na dança, unindo formação técnica, direção criativa e um olhar singular para traduzir a música em linguagem visual. À frente de projetos com nomes como Luísa Sonza, assina espetáculos e videoclipes que ganharam projeção em grandes eventos internacionais, como Rock in Rio e Coachella.
Em entrevista concedida à VAM Magazine, conduzida pelo editor Antonnio Italiano, Flavio Verne discute os bastidores do mercado de superproduções, detalha seu processo de criação colaborativa e reflete sobre a importância da pesquisa contínua e do equilíbrio pessoal em uma indústria de ritmo acelerado.
ENTREVISTA

Flavio, é impossível olhar para o audiovisual e para a cena pop brasileira hoje sem enxergar a sua assinatura. De Brasília para os maiores palcos do mundo, você redefiniu o conceito de performance. Quando você olha para a sua trajetória, em qual momento percebeu que tinha deixado de ser apenas um coreógrafo para se tornar um diretor e arquiteto da visão criativa dos maiores artistas do país? Eu cresci em uma casa de artistas, consumindo e fazendo arte desde pequeno. Depois, fiz faculdade de dança, que abrange muitas vertentes da arte e do espetáculo, como iluminação, criação de cenários, entre outras coisas.
Quando vim para São Paulo e comecei a me destacar como coreógrafo, naturalmente esse outro lado foi aparecendo. Comecei a trabalhar como diretor criativo da Pabllo e da Luísa em 2019, de uma forma muito natural. Elas perceberam que eu tinha um background para além da dança e sempre pediam minha opinião e meus feedbacks sobre videoclipes, looks, fotos… Com o tempo, isso se oficializou.
Os primeiros trabalhos em que fiz direção criativa para a Pabllo foram no álbum e na turnê do “111 — Parte 1”; para a Luísa, foram o álbum e a turnê do “Doce 22”. A partir daí, minha demanda de trabalho e estudo aumentou. Nunca parei de estudar e pesquisar, tanto dança quanto arte no geral.
Foi nesse momento que entendi que não era mais apenas coreógrafo, que eu estava ajudando a criar e traduzir a visão dos artistas em videoclipes, espetáculos e eras.
Assumir a direção artística e coreográfica exige transitar entre a dança, a moda, a iluminação e a linguagem de câmera. Como foi o processo de construir essa versatilidade estética e afirmar a sua voz autoral frente a produções gigantescas? O Brasil tem um mercado muito grande de diretores criativos que vêm do universo da moda. Eu sou um dos poucos que vêm da dança, e acho que isso muda tudo. Não acho que exista certo ou errado, mas acredito que isso traz uma visão diferente quando se trata da direção criativa de uma cantora.
Sempre gostei de começar minhas pesquisas a partir da sensação, do movimento — e aqui não estou falando necessariamente de coreografia — e da escrita do artista. Gosto de pensar no que é realmente importante para cada momento. Às vezes, a roupa não vai ser o mais importante; às vezes, a coreografia não vai ser o mais importante. Gosto de focar naquilo que o artista faz questão de que o público veja e dê importância e, a partir disso, a gente desenvolve essa ideia, brinca com ela, faz analogias, exagera ou minimiza. Vamos testando e entendendo como queremos seguir.
Acho que a versatilidade vem naturalmente porque, normalmente, trabalho para outros artistas. Precisa ter a cara de quem está me contratando. Preciso criar junto. Não costumo chegar com uma ideia pronta e fechada. Acho que esse processo de criação em conjunto, não só com o artista, mas também com o restante da equipe, é muito enriquecedor.
A sua parceria com a Luísa Sonza entregou momentos históricos para o pop nacional, desde as coreografias que pararam o país até os grandes palcos. Como é o processo criativo entre vocês para transformar um álbum ou uma nova era musical em uma experiência ao vivo avassaladora? A Luísa é uma artista muito completa e sensível, e as minhas ideias complementam as ideias dela. Normalmente, ela me explica o que quer fazer, o que tem vontade e para onde quer ir. A partir disso, começamos a pesquisar, a jogar ideias um para o outro e vamos criando o que achamos que faz sentido.
Depois, trazemos o restante da equipe criativa: stylist, maquiadores, fotógrafos, dançarinos, direção de arte, banda… E, juntos, vamos finalizando essas ideias.
Acredito muito em um trabalho colaborativo com todo mundo, sempre respeitando as ideias iniciais que a Luísa teve, porque, no final, é o trabalho dela que vai ser apresentado.
Você já comandou palcos com alcance e pressão globais, como o Coachella ao lado da Pabllo Vittar e a apoteótica apresentação no Palco Mundo do Rock in Rio com a Luísa. Qual é a sensação de estar nos bastidores de um festival desse porte segundos antes do show começar? O que acontece ali que o público nem imagina? Para mim, é sempre uma adrenalina muito grande. Normalmente, tenho uma comunicação com a Luísa, a banda, o ballet e a técnica, e outra comunicação com as equipes de vídeo e iluminação.
Nesses momentos antes de começar o show, sempre dou um check em todos os setores para ver se está todo mundo pronto, se está tudo certo, dou aquela última conferida…
A sensação é de estar prestes a descer uma montanha-russa, porque, uma vez que o show começa, não tem mais o que fazer. Só vamos parar quando ele terminar — e precisa dar tudo certo.
Nos videoclipes, de clássicos que moldaram a cena até superproduções hiper detalhadas, a precisão precisa ser milimétrica para a câmera. Como você equilibra a exatidão técnica que o set exige com a entrega visceral e emocional dos bailarinos e do artista? Acho importante sempre deixar espaço para algo visceral e emocional que possa acontecer no momento. Afinal de contas, arte também é sobre essa catarse que acontece nessas situações. E aí, do lado de cá, como equipe, precisamos conseguir reorganizar horários e cronogramas a favor disso.
Acho que a mágica, muitas vezes, está justamente nesses momentos que não estavam previstos e em que algo lindo acontece. O restante a gente reorganiza e recalcula para conseguir fazer o que foi planejado.
Lembro que, na gravação de “Campo de Morango”, tínhamos uma coreografia inteira em volta da cama e acabamos usando muito mais o improviso da Luísa com as dançarinas, porque ficou muito melhor e fez muito mais sentido naquele momento.
Criar virais que o país inteiro dança, coordenar dezenas de bailarinos e viver no ritmo frenético de turnês e sets exige uma entrega monumental. Como é o Flávio quando as luzes dos refletores se apagam, as câmeras param e a música silencia? O que você faz para recarregar a sua energia pessoal? Às vezes, gosto de fazer coisas que não me lembrem o trabalho: receber meus amigos em casa, jogar videogame, assistir a um filme…
Mas também sinto muita necessidade de continuar estudando, fazendo aulas ou algum curso. Quando o trabalho está muito intenso, preciso focar no meu corpo: natação, treinos de ballet clássico, corrida… São coisas que fazem a minha mente se desligar um pouco.
Como cresci dançando, entendi que, para descansar e estar bem, preciso estar em movimento de alguma maneira. E, na maioria das vezes, isso também passa por estudar e aprender algo.
Em um mercado que consome tendências numa velocidade acelerada, de onde você tira repertório emocional e intelectual para não se esvaziar e manter a sua saúde mental preservada no topo? Acho que, primeiro de tudo, fazendo muita terapia e buscando consumir coisas que estão fora da internet. Adoro ir ao teatro, assistir a espetáculos, visitar exposições, assistir ao trabalho de amigos que admiro. Quando estou fora do país, gosto de assistir a bandas que não conheço. Tudo isso offline.
Acho que é uma maneira de me reconectar comigo mesmo, com a minha curiosidade e de ficar um pouco fora da loucura que é a internet.
Para mim, também é muito importante ter uma rotina regrada, com horários, treinos e atividade física. Demorei para entender o quanto isso faz bem para a minha saúde mental e para a ansiedade. Quando você está fazendo uma atividade física, precisa focar no momento presente. Não tem como ficar elaborando ou pensando no que está acontecendo no Instagram.
Isso dá um descanso para a mente. Você entende que a vida também está acontecendo fora das redes sociais.
O pop e a arte performática no Brasil exigem um rigor técnico e físico absurdo, mas ainda enfrentam preconceito de setores mais conservadores da crítica. Qual é a sua filosofia sobre o movimento, o corpo e o poder do entretenimento como ferramenta de transformação cultural? Acho que o pop no Brasil, ao mesmo tempo em que enfrenta um fortíssimo elitismo cultural, também consegue furar bolhas e dialogar com a massa. Essa sempre foi a minha paixão pela música pop: a maneira como ela entra na casa das pessoas, traz diferentes perspectivas, instiga conversas, inspira, dá voz…
Odeio o discurso de que música pop é rasa. Existe música rasa em todos os gêneros. Acho que a diferença está em como você coloca camadas no trabalho, no quanto isso consegue atingir as pessoas e no quão relacionável e acessível esse trabalho consegue ser.
Ser acessível não significa ser raso. É preciso olhar com mais atenção. Ao meu ver, essa é a grande sacada que muitas artistas pop têm: fazer um trabalho acessível, mas que consegue comunicar, inspirar e trazer conversas para a mesa.
Nem todo mundo no país tem o mesmo acesso à cultura. Então, é muito legal que artistas como a Luísa coloquem em seus shows um momento de bossa nova e, depois, um momento de pop/funk, ou um bailarino fazendo um solo de dança contemporânea. É uma maneira de levar outros movimentos artísticos para um show que vai atingir um grande público, que talvez ainda não tenha tido contato com esse tipo de música ou de dança, por exemplo.
Para onde os seus olhos apontam hoje quando você busca inspiração? Quais são as suas maiores referências visuais e artísticas atualmente, seja na moda, no cinema, na arquitetura ou no comportamento contemporâneo? Sempre gosto de começar voltando a trabalhos que sempre me inspiraram, para abrir a minha mente. O trabalho e os espetáculos do Eddy Wilson, grande coreógrafo brasileiro de jazz contemporâneo, ou da Dana Foglia, coreógrafa americana, são algumas dessas referências.
Também gosto muito do cinema dos anos 80 e 90, da fotografia e dos roteiros menos acelerados. Acho que, quando quero buscar inspiração, primeiro mergulho em mim, nas minhas primeiras referências, para depois começar a pesquisar o que tem de novo acontecendo.
Por mais que eu trabalhe em uma indústria, sempre me lembro de que sou um artista. E, para esse trabalho funcionar, preciso estar conectado com a minha essência.
Como capa da VAM Magazine e uma das mentes que moldam a nossa cultura visual, para onde você enxerga que o mercado de direção criativa e performance está caminhando no Brasil? O que ainda falta você realizar? Acho que o mercado brasileiro tem crescido muito e muito rápido. Precisamos sair de um olhar ainda muito voltado para o Sudeste e começar a abrir caminhos para olhares que abranjam o Brasil como um todo. Acho que isso já vem acontecendo, ainda que a passos pequenos.
Hoje em dia, realizei tudo o que o Flávio criança, lá de Taguatinga Sul/Areal, ousou sonhar. Minha vontade agora é criar cada vez mais, misturar minhas ideias com outros olhares, trabalhar com outros coreógrafos e criativos, colaborar com mais diretores criativos, trocar vivências e ideias e nunca deixar de ser curioso com a vida e com a arte.
Fotografia: Sarah Sanfins



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