Instagram não é um álbum. É um vínculo.
- 24 de jul.
- 3 min de leitura
Há uma pergunta que parece banal, mas diz muito sobre a forma como amamos hoje: dá para seguir o ex no Instagram?
A resposta mais honesta talvez seja: depende do que ainda segue dentro de você.
As redes sociais criaram uma situação inédita na história dos relacionamentos. Antigamente, terminar significava enfrentar a ausência. Hoje, termina-se o namoro, mas permanece o acesso. O ex continua aparecendo nos stories, nas fotos “tagueadas” e de amigos em comum, nas lembranças do algoritmo e, principalmente, na possibilidade permanente de uma consulta silenciosa.
É curioso como transformamos o amor em um arquivo que nunca é realmente fechado. O Instagram aboliu boa parte da experiência da perda. Não é preciso mais imaginar como a outra pessoa está; basta deslizar o dedo para descobrir.
Freud dizia que o luto exige um trabalho psíquico delicado: retirar, pouco a pouco, o investimento afetivo depositado em alguém que deixou de ocupar aquele lugar na nossa vida. Não se trata de apagar a história, mas de permitir que ela deixe de organizar o presente.
Talvez seja justamente isso que mais incomode nas redes sociais. Elas dificultam esse trabalho. O vínculo permanece disponível vinte e quatro por dia, esperando apenas uma curtida ou uma crise no relacionamento atual.
Um texto que circulou recentemente nas redes diz algo muito interessante: “O problema é que, toda vez que você deixa o passado na sua timeline, você ressuscita o que começava a morrer. Está stalkeando o que não morreu em você.”
A frase é forte porque desloca o foco. O problema raramente é o perfil do outro. O problema costuma ser aquilo que ainda buscamos nele. Qual o motivo de manter contato com as redes do passado se elas não fazem mais nenhum sentido? Alimentar curtidas e fazer comentários para ser percebido por quem não faz nenhuma questão de te perceber.
Há quem diga que seguir o ex é sinal de maturidade. Outros defendem que bloquear é imaturidade. Mas talvez nenhuma dessas conclusões faça sentido.
Bloquear nem sempre é vingança. Muitas vezes é higiene emocional, autoestima, confiança no futuro e respeito ao seu presente .
E seguir nem sempre é evolução. Às vezes, é apenas uma maneira elegante de não aceitar que algumas histórias precisam terminar também no mundo virtual.
Isso não significa que todo ex precise desaparecer. Existem relações que realmente se transformam em amizade, mas depois de um grande hiato e quando o vínculo foi elaborado, ou seja, quando não há mais nada mesmo. O problema começa quando a amizade serve apenas como nome socialmente aceitável para uma despedida que nunca acontece.
Mais delicada ainda é a situação quando um novo relacionamento entra em cena.
Casais frequentemente discutem sobre curtidas, comentários, seguidores e mensagens privadas. A conversa costuma girar em torno do ciúme, mas talvez a pergunta mais importante seja outra: quanto espaço o passado ainda ocupa dentro do presente?
Não se trata de controlar o celular de ninguém nem de impor listas de quem pode ou não pode ser seguido. Relações saudáveis não nascem da vigilância.
Mas também é ingênuo fingir que o ambiente digital é neutro.Toda escolha comunica.
Continuar acompanhando diariamente a vida de alguém que já foi seu amor não é apenas um gesto tecnológico. É uma forma de administrar afetos. E quem está ao nosso lado tem o direito de querer entender qual lugar ocupa diante desses vínculos que insistem em permanecer on-line.
O Instagram tornou-se um enorme museu das nossas versões anteriores. Ex-namorados, antigas paixões, pessoas que quase foram, “paqueras”, conversas interrompidas e fotos que não apagamos.
Mas museus existem para serem visitados ocasionalmente, não para morar dentro deles.
Talvez amar alguém hoje também signifique isso: ter coragem de atualizar não apenas o status do relacionamento, mas o próprio coração.
Porque existe uma diferença enorme entre guardar uma história e continuar vivendo nela, mesmo que virtualmente.
E, às vezes, o gesto mais amoroso que fazemos (por nós mesmos e por quem escolhemos amar agora) não é apertar o botão de “seguir”.
É finalmente aceitar o significado do botão de “seguir em frente”. Que isso sirva de aprendizado para muita gente por aí. Avante!

Sobre o autor
Diógenes Carvalho é Pós-Doutor em Psicologia e Direito, Doutor em Psicologia, Mestre em Direito, Pós-graduado em Psicanálise Clínica. Possui Diploma de Direito Europeu e é psicanalista em formação pelo Instituto Sedes Sapientiae. Professor universitário, advogado e ator. Um pesquisador inquieto, que acredita no poder transformador da análise, do autoconhecimento e do amor. Na VAM Magazine, escreve sobre a vida contemporânea, os desafios da existência humana e os caminhos possíveis para o autoconhecimento.



Li dentro da sala dos professores, abriu um super debate.
Muito bom.