top of page

Karina Bandeira: beleza, identidade e uma carreira sem fronteiras

  • há 2 horas
  • 12 min de leitura

Conheci a Karina Bandeira pessoalmente de uma forma despretensiosa. Sem grandes expectativas, fui conhecendo aos poucos não apenas a profissional, mas também o olhar que existe por trás do trabalho dela.

Foto: Luigi Galvão
Foto: Luigi Galvão

E, quanto mais eu acompanhava sua trajetória, mais admirava a maneira como ela entende a beleza e, principalmente, como transforma essa visão em trabalho.


Foi dessa admiração que surgiu o convite para esta entrevista. Quis conhecer melhor a mulher por trás da Beauty Artist, entender de onde vieram suas referências, quais experiências ajudaram a construir sua identidade e o que ainda a move depois de tantos anos de carreira.


Uma das coisas que mais me chamou a atenção ao conhecer sua história foi justamente a ideia de uma Beauty Artist nômade. Karina fala sobre viajar a trabalho, conhecer novas culturas, pessoas e referências e levar sua arte para diferentes lugares como quem entende a profissão também como uma possibilidade de movimento e descoberta.

“Gosto da ideia de construir uma carreira que me permita conhecer novas culturas, trabalhar com diferentes pessoas e referências e, ao mesmo tempo, conciliar essas experiências profissionais com momentos em que eu também me permita viver e aproveitar cada lugar.”

Mas talvez o mais interessante esteja na forma como esse movimento não faz com que ela perca sua identidade. Pelo contrário. Existe uma assinatura no seu trabalho, construída a partir da técnica, da criatividade e, principalmente, do respeito por quem está diante dela.


Isso aparece de maneira muito bonita quando fala sobre as noivas. Para Karina, a beleza não precisa transformar uma mulher em outra pessoa. Ela precisa fazer sentido para quem ela é.

“Quase todas querem olhar no espelho e se enxergar ali, sem um personagem.”

Essa frase resume muito do que percebo em seu trabalho: beleza como expressão, e não como imposição. Uma forma de criar que também carrega escuta, sensibilidade e sororidade. Porque existe algo muito potente em trabalhar com mulheres e, ao mesmo tempo, compreender que cada uma pode desejar uma beleza diferente, mais natural, mais ousada, clássica, moderna ou simplesmente divertida.


Ao longo desta conversa, Karina Bandeira fala sobre suas origens, o primeiro trabalho profissional, os momentos que marcaram sua carreira, o universo das noivas, a construção de sua identidade como Beauty Artist, os grandes projetos que já realizou e os sonhos que ainda pretende tirar do papel.


E, talvez, entre tantos caminhos possíveis, exista justamente um que parece combinar com o momento atual de sua carreira: seguir em movimento.


ENTREVISTA


1. Antes de falar da profissional, quem é a Karina Bandeira? Onde você nasceu, cresceu e como foi sua relação com beleza, moda e imagem antes de transformar isso em profissão? Essa é uma pergunta profunda e complexa, talvez tanto quanto falar sobre beleza.

Eu nasci em São Paulo, cresci em Suzano e, há quatro anos, me mudei para a capital. Tenho 31 anos e minha relação com beleza e imagem começou muito antes de eu imaginar que isso poderia se tornar uma profissão.


Desde criança, adorava observar as mulheres da minha família se produzindo. Minha avó materna foi uma influência muito forte. Extremamente vaidosa, ela tinha uma personalidade e uma identidade muito próprias. Hoje percebo o quanto observar aquela maneira tão particular de se apresentar ao mundo influenciou a forma como passei a enxergar a beleza.

Por volta dos 10 ou 12 anos, eu já me interessava por maquiagem e sempre fui muito observadora com cores, luzes e sombras, mas, principalmente, com as pessoas. Pouco depois, comecei a acompanhar o surgimento da beleza no meio digital, e aquele universo ampliou ainda mais meu interesse por imagem.


Hoje, acho curioso perceber que a beleza já fazia parte da minha vida muito antes de se tornar profissão. E essa relação continua mudando. Depois de tantos anos trabalhando na área, entendi que o que mais me fascina não é simplesmente deixar alguém “mais bonita”, mas perceber como a imagem pode interferir na maneira como uma pessoa se enxerga, se expressa e se coloca no mundo, ou até ajudar a construir e comunicar um conceito.

No fim, aquela curiosidade que começou ainda na infância foi o começo de tudo.


2. Quando você percebeu que maquiagem e cabelo poderiam deixar de ser uma paixão e se transformar em carreira? Algumas pessoas próximas já diziam que eu levava jeito para trabalhar com beleza. Comecei vendendo maquiagem, mas acredito que a grande virada aconteceu quando participei de um desfile com amigas que estudavam moda. Foi meu primeiro contato mais próximo com aquele universo de produção e, ali, percebi o quanto aquilo me fascinava.


Com elas, vieram minhas primeiras oportunidades e assinaturas de beleza. Começamos a criar editoriais juntas e costumo dizer que ali aconteceu um dos meus primeiros cursos, mesmo sem diploma. Aprendi sobre moda, referências, conceito e sobre como a beleza também ajuda a contar uma história.


Ao mesmo tempo, comecei a maquiar aos finais de semana em um salão da minha cidade, onde tive outro grande aprendizado, dessa vez voltado ao universo social e de noivas. Aprendi muito observando Carlos Bittencourt, dono do salão, maquiador e cabeleireiro, trabalhar. Considero esses dois ambientes meus primeiros grandes cursos práticos.


Também tive a sorte de ter pessoas que incentivavam e valorizavam muito o que eu fazia.

Enquanto cursava Gestão Empresarial, fui adquirindo técnica e me aprofundando cada vez mais em beleza. Nesse período, tive meu primeiro certificado como maquiadora e começaram a surgir trabalhos para revistas de shoppings e shootings, que muitas vezes aconteciam justamente durante o horário das minhas aulas.

Até que chegou um momento em que precisei escolher. Tive medo de me dedicar inteiramente à beleza, mas também não queria perder as oportunidades que estavam surgindo. Então, escolhi arriscar e seguir aquilo que, aos poucos, já estava deixando de ser apenas uma paixão para se tornar a minha profissão.


3. Como foi o seu primeiro trabalho profissional? Você se lembra da sensação de perceber que aquilo poderia ser o seu caminho? Meu primeiro trabalho profissional foi em um desfile de moda em Suzano, minha cidade natal. Foi há quase 12 anos, em setembro de 2014. Era minha primeira vez em um ambiente de produção grande, com vários modelos e uma equipe repleta de maquiadores e penteadistas.


Foi um evento que tomou o dia todo: foram cerca de 16 horas de trabalho. Lembro ainda da sensação que tive ali, de vivenciar aquele universo caótico, de olhar para toda aquela movimentação e agitação do backstage de produção e de me sentir verdadeiramente parte daquele movimento.


A diária “infinita” me rendeu cem ou cento e cinquenta reais, mas fiquei extremamente feliz simplesmente por fazer parte daquilo. Terminei o dia exausta, mas também realizada.


Construção da identidade profissional

4. Ao longo desses anos, quais foram os trabalhos ou momentos que você considera fundamentais para a construção da sua carreira? Um dos primeiros grandes marcos foi quando abri meu próprio estúdio de noivas, na parte de cima da casa dos meus pais. Ele foi projetado com os recursos que eu tinha naquele momento, algumas economias e a mão de obra do meu pai, que, nas horas vagas, virou pedreiro e marceneiro do projeto. Foi uma construção muito nossa e representou um passo importante de profissionalização para mim.


Curiosamente, alguns dos trabalhos que considero mais marcantes aconteceram recentemente, mas gosto de pensar que são resultado de tudo o que foi construído ao longo desses anos. Um deles foi assumir a Direção Artística e o Head Makeup da beleza do balé da Karol G em sua apresentação na NFL. Fui responsável por estruturar e montar a equipe de beleza, escolhendo os profissionais que estariam comigo em uma operação que envolveu mais de 100 bailarinas e bailarinos. Assumir a direção de um projeto dessa dimensão e, principalmente, a responsabilidade por uma equipe que eu mesma construí foi um marco muito importante para mim.


Outro foi decidir ir sozinha e por conta própria ao Festival de Cannes, em 2026, para trabalhar e apresentar meu trabalho fora do Brasil. Mais do que os trabalhos que realizei lá, aquela decisão representou a coragem de me colocar em um território completamente novo e descobrir até onde a minha profissão poderia me levar.


5. Em que momento você percebeu que tinha desenvolvido uma identidade própria como Beauty Artist? Não sei se existiu um momento específico. Acho que minha identidade foi sendo construída ao longo do caminho e continua em construção.

Tenho muitas referências e diferentes formas de enxergar o belo. Gosto de entender o que cada trabalho pede e, a partir disso, colocar a minha interpretação. No universo de casamentos, por exemplo, já reconheço uma linguagem mais estabelecida no meu trabalho. Gosto de ousadia, mas equilibrada com leveza e sempre respeitando a identidade de quem estou produzindo.

Talvez minha assinatura esteja justamente nisso: buscar uma boa execução, mas com sensibilidade e espaço para continuar experimentando como artista.


6. O mercado de beleza mudou muito desde o início da sua trajetória. O que você precisou aprender, desaprender ou reinventar para acompanhar essas transformações? Atravessei quase 12 anos de um mercado que vendeu inúmeras ideias sobre o que seria uma maquiagem ou um cabelo “corretos”. E talvez uma das coisas mais importantes que venho desaprendendo seja justamente a ideia de que beleza é correção.


Continuo valorizando muito a técnica, mas hoje entendo que ela é uma ferramenta, não uma regra. Nem tudo precisa ser corrigido, escondido ou transformado para ser considerado belo. Tenho aprendido a olhar mais para o que aquela pessoa ou imagem quer comunicar.


Talvez minha maior reinvenção tenha sido essa: continuar evoluindo tecnicamente enquanto questiono algumas das certezas que a própria beleza me ensinou.


7. Você já trabalhou em campanhas, produções de moda e com marcas importantes. Existe algum trabalho ou parceria que tenha sido especialmente marcante para você? Os trabalhos que mais me marcam são aqueles em que encontro espaço para criar. Tive muita liberdade criativa trabalhando com a RebLab, uma marca brasileira de moda autoral que tem a expressão e a experimentação muito presentes em sua identidade, e também em algumas produções com Vanessa Lopes. Além disso, produções de clientes para o Baile da Vogue e o Halloween da Sephora me permitiram explorar um lado mais conceitual da beleza.

No social, inúmeros trabalhos também me marcaram, mas de outra forma. A criação acontece respeitando a individualidade de cada cliente e interpretando quem está na minha frente. Acho que transitar entre esses universos é uma das coisas que mais gosto na minha profissão.

8. Quais marcas de beleza ou moda você admira pela estética, posicionamento ou maneira de enxergar a beleza? E com quais delas você ainda gostaria de trabalhar? Tenho referências por motivos muito diferentes. A Vogue é uma delas, principalmente porque a beleza ali não aparece isolada. Ela faz parte da construção de uma imagem, junto de moda, fotografia, direção, cabelo, maquiagem, casting e conceito.


Também admiro muito Bianca Andrade pela forma como construiu seu posicionamento e se tornou uma marca para além dos produtos. A Chanel me encanta pela história, pelo legado e pela identidade que construiu ao longo do tempo. E, falando especificamente de maquiagem, a Kryolan é minha marca preferida, principalmente pelo olhar profissional e pelas possibilidades que os produtos me dão como artista.


Profissionalmente, tenho muita vontade de trabalhar nas grandes Fashion Weeks. Atrai-me justamente a possibilidade de estar em contato com diferentes marcas, direções e propostas criativas, construindo uma beleza que muda a cada coleção. É um território que ainda quero explorar muito.


9. Ao longo da carreira, você também teve contato com pessoas conhecidas e personalidades. Existe algum encontro ou trabalho com uma pessoa famosa que tenha ficado especialmente na sua memória? Eu não gosto de generalizar, porque, por trás de cada pessoa, existe uma dinâmica diferente. O que o público nem sempre percebe é o quanto existe de trabalho nos bastidores.

Acredito que parte do nosso papel seja entender o ambiente, respeitar o espaço de cada pessoa e saber quando falar, quando ouvir e quando simplesmente fazer o nosso trabalho, seja ela uma pessoa exposta ou não.


Beleza para um momento único

10. As noivas ocupam um espaço importante no seu trabalho. O que mudou na maneira como as mulheres enxergam a beleza no casamento? Hoje elas chegam buscando uma transformação ou uma versão mais sofisticada delas mesmas? Percebo uma grande mudança. Hoje, muitas noivas querem se reconhecer na beleza que escolhem para o casamento. Nem todas as minhas clientes buscam uma estética mais natural, e acho importante fazer essa distinção. É possível ser leve ou ousada, clássica ou moderna, e ainda assim se reconhecer. Quase todas querem olhar no espelho e se enxergar ali, sem um personagem.


Acredito que a beleza da noiva deve representar quem ela é naquele momento. E gosto de pensar que, quando ela olhar essas fotos no futuro, além de lembrar como estava, consiga se lembrar de como se sentia.

11. Existe uma responsabilidade diferente em preparar uma mulher para um dos dias mais fotografados e importantes da vida dela? Como você equilibra tendência, personalidade e atemporalidade? Hoje penso muito em como aquela beleza será vista daqui a muitos anos, afinal, são registros que vão acompanhar essa mulher pelo resto da vida. Mas, para mim, atemporalidade não significa necessariamente uma beleza clássica ou natural.


A partir das referências e do gosto pessoal de cada cliente, busco entender o que ela considera belo e, dentro das tendências e referências que fazem parte do meu repertório, identifico aquilo que conversa com ela. A tendência entra como inspiração, nunca como regra.


12. Hoje se fala cada vez mais sobre beleza como uma forma de autocuidado e bem-estar. Na sua experiência, quanto uma maquiagem pode transformar não apenas a aparência, mas também a maneira como uma mulher se sente? Eu vejo isso acontecer na minha cadeira há muitos anos. Uma produção pode revelar algo que já estava ali, mas também pode transformar. Já vi clientes chegarem de um jeito e, ao longo da produção, mudarem a postura, o humor, a segurança e até a forma de se expressar.


E acho muito interessante acompanhar essa mudança acontecendo na minha frente. Às vezes, é algo sutil; outras vezes, é muito evidente. Por isso, para mim, o resultado de uma produção nunca está só no antes e depois da imagem, mas também no que acontece com aquela pessoa durante o processo.


13. Você trabalha com mulheres em diferentes momentos e contextos. O que percebe que elas mais procuram quando sentam na sua cadeira: beleza, confiança, praticidade, autoestima ou simplesmente a sensação de se cuidar? Depende muito. Algumas procuram transformação, outras acolhimento e outras simplesmente querem se sentir ainda mais lindas para uma ocasião. E acho importante normalizar isso também.


Nem sempre existe uma grande questão por trás. Às vezes, a gente simplesmente quer se produzir, experimentar uma imagem diferente ou se divertir com a beleza. Não acho que uma mulher precise justificar o desejo pela beleza o tempo inteiro.


15 ANOS - Um momento de celebração

14. Você está chegando aos 12 anos de carreira e preparando uma celebração para marcar esse momento. O que essa data representa para você pessoal e profissionalmente? Quase 13 anos representam muita construção, mas, curiosamente, quando penso na minha carreira hoje, olho muito mais para frente do que para trás. Ainda existem muitas coisas que quero conquistar e, principalmente, aprender, tanto como Beauty Artist quanto como empreendedora.


Estou em constante evolução como profissional e como pessoa, e isso também tem expandido minha visão de mundo. Hoje me permito explorar novas ideias, novos territórios e projetos que definitivamente não quero deixar somente no papel.


15. Se pudesse voltar ao primeiro ano da sua carreira e conversar com aquela Karina que estava começando, o que você diria a ela? “Voa, voa, borboletinha.” Hahahaha.


Parece brincadeira, mas é algo que continuo dizendo para mim mesma sempre que sinto medo diante de alguma coisa nova. Acho que diria para aquela Karina confiar um pouco mais, se permitir experimentar e ir mesmo com medo. No fim, foi assim que muitas das coisas mais importantes da minha trajetória aconteceram.


O que ainda vem pela frente

16. Depois de 12 anos construindo uma trajetória na beleza, quais são os sonhos que ainda não saíram do papel? Tenho dois projetos autorais que estou estudando com muito carinho. Um deles é um livro relacionado à beleza, um desejo que já me acompanha há algum tempo, e o outro é um projeto especial para celebrar meus 15 anos de carreira.


Ainda estou entendendo os caminhos e as possibilidades de cada um, então prefiro não contar muitos detalhes enquanto estão em desenvolvimento. Mas são ideias que quero amadurecer e, no momento certo, tirar do papel.


17. Existe algum território que você gostaria de explorar mais: moda, cinema, televisão, campanhas internacionais, beleza, educação ou novos projetos? Eu gosto muito de viajar e, principalmente, de viajar a trabalho. Quero explorar cada vez mais essa possibilidade de levar meu trabalho para diferentes lugares, quase como uma Beauty Artist nômade.


Gosto da ideia de construir uma carreira que me permita conhecer novas culturas, trabalhar com diferentes pessoas e referências e, ao mesmo tempo, conciliar essas experiências profissionais com momentos em que eu também me permita viver e aproveitar cada lugar.


18. Para terminar: quando uma mulher se olha no espelho depois de um trabalho seu, o que você gostaria que ela enxergasse além da maquiagem? Depende muito da proposta e do que estamos construindo naquele trabalho. Nem sempre espero que ela enxergue algo interno ou pessoal. Em uma noiva, por exemplo, quero que aquela beleza converse com quem ela é e que ela se sinta representada. Já em uma produção artística ou de Halloween, posso querer justamente que ela olhe no espelho e enxergue um personagem.


Acho que essa é uma das coisas mais interessantes da minha profissão: maquiagem e cabelo também são formas de arte e podem cumprir papéis completamente diferentes. Às vezes, revelam; às vezes, transformam; às vezes, contam uma história.


Para mim, o mais importante é que exista intenção por trás do que estamos criando. A beleza não precisa significar a mesma coisa todas as vezes e nem precisa ser perfeita. Ela só precisa fazer sentido dentro daquela criação.


Comentários


bottom of page