LETÍCIA MANZAN: O LUXO COMO IDENTIDADE, TÉCNICA E LEGADO
À frente da MANZAN, estilista transforma o trabalho artesanal mineiro em assinatura de uma marca de luxo brasileira, equilibra expansão e exclusividade e projeta os próximos passos de uma trajetória construída entre criação, gestão e identidade.

Entrevista de capa | Por Antonnio Italiano
A história da MANZAN começa com uma jovem que, aos 13 anos, já desenhava as próprias roupas. O que nasceu da criação autoral em Uberlândia, Minas Gerais, transformou-se em uma marca de luxo reconhecida pelo brilho, pelos bordados manuais e pela riqueza de suas técnicas artesanais.
À frente da empresa, Letícia Manzan construiu uma identidade que não depende da adesão às tendências para se afirmar. Sua visão combina repertório internacional, valorização da mão de obra mineira e uma compreensão cada vez mais estratégica dos desafios de gerir uma marca autoral em um mercado competitivo.
Com experiências no Istituto Marangoni, em Milão, e no Bunka Fashion College, em Tóquio, a estilista também ampliou sua perspectiva sobre a relação entre criação, indústria e negócio. A parceria com a Swarovski e a presença de suas criações em personalidades brasileiras e eventos internacionais marcam momentos importantes dessa trajetória.
Agora, em um período de amadurecimento da empresa e de preparação para novos projetos, Letícia fala à VAM Magazine sobre os bastidores do crescimento da MANZAN, o valor do feito à mão, os desafios da expansão e a coleção RAÍZES, desenvolvida para o Inverno 2027. Uma conversa sobre identidade, escolhas e a construção de uma marca que pretende crescer sem perder aquilo que a tornou reconhecível.
ENTREVISTA

Letícia, você começou aos 13 anos desenhando suas próprias roupas e transformou um pequeno ateliê sob medida em Uberlândia em uma das marcas de luxo mais desejadas do país. Qual foi a decisão de negócios mais estratégica e desafiadora que você tomou para transicionar de uma estilista autoral para uma gestora e empresária à frente da marca MANZAN? Acho que a decisão mais difícil foi entender que, para a MANZAN crescer, a marca não poderia depender exclusivamente de mim. Eu comecei muito nova, desenhando, criando e acompanhando absolutamente tudo. Durante muito tempo, a empresa e a estilista eram praticamente uma coisa só.
Só que chega um momento em que você entende que talento criativo não é suficiente para construir uma empresa sólida. Eu precisei aprender sobre gestão, financeiro, produção, pessoas, comercial, posicionamento e, principalmente, aprender a delegar.
Talvez essa tenha sido uma das maiores transformações da minha carreira: deixar de pensar apenas na próxima coleção e começar a pensar na empresa que eu queria construir para os próximos dez anos. Hoje continuo extremamente presente no produto e na direção criativa, porque isso é a essência da MANZAN, mas tenho cada vez mais consciência de que meu papel também é construir estrutura para que a marca cresça de maneira sustentável.
Sua marca se tornou referência nacional no segmento de moda festa e luxo, sendo facilmente reconhecida pelo uso do brilho, dos bordados manuais e das técnicas artesanais. Em um mercado global que por vezes busca o minimalismo, como você construiu o glamour autoral e exuberante como uma vantagem competitiva sustentável no mercado de alto padrão? Eu nunca tive medo do brilho. E acho que isso acabou se tornando uma assinatura muito genuína da MANZAN.
Existiram momentos em que o mercado caminhou fortemente para o minimalismo, mas eu nunca achei que deveria apagar a identidade da marca para acompanhar uma tendência. Pelo contrário. Quanto mais o mercado fica parecido, mais importante é ter uma identidade reconhecível.
Nosso trabalho com bordados, cristais, volumes e técnicas artesanais criou uma linguagem própria. A mulher consegue olhar para determinadas peças e reconhecer que existe ali um DNA MANZAN.
E luxo, para mim, está justamente nisso. Não é simplesmente colocar brilho em uma roupa. É a quantidade de horas envolvidas, o desenvolvimento do bordado, a modelagem, a construção interna da peça, a escolha dos materiais e o trabalho das mãos que fazem aquilo existir. Nossa exuberância não é excesso pelo excesso. Existe muita técnica por trás dela.
Sua bagagem inclui qualificações em grandes instituições internacionais, como o Istituto Marangoni, em Milão, e o Bunka Fashion College, em Tóquio, além de passagens por grandes marcas brasileiras. De que maneira esse repertório técnico e internacional influenciou a eficiência produtiva, a gestão da qualidade e o modelo de negócios da MANZAN no Brasil? Estudar no Istituto Marangoni, em Milão, e no Bunka Fashion College, em Tóquio, ampliou muito a minha percepção sobre moda. São culturas completamente diferentes e, justamente por isso, foram experiências muito complementares.
Milão me aproximou dessa visão da moda como indústria, marca, desejo e negócio. O Japão me trouxe uma relação muito forte com técnica, construção, precisão e respeito pelo processo.
Mas uma coisa importante para mim sempre foi voltar para o Brasil e traduzir esse repertório para a nossa realidade, e não simplesmente reproduzir um modelo europeu ou japonês aqui.
A MANZAN é profundamente brasileira. Nossa fábrica está em Uberlândia, grande parte do nosso trabalho artesanal nasce em Minas Gerais e existe uma riqueza enorme nessa mão de obra. Gosto dessa combinação: utilizar tudo o que aprendi fora para aperfeiçoar processos, qualidade e produto, mas preservar uma identidade que é absolutamente nossa.
Um dos pilares mais fortes da MANZAN é o trabalho social e artesanal realizado em Uberlândia com bordadeiras locais, unindo a força do feito à mão mineiro ao mercado global de luxo. Como você enxerga a importância do desenvolvimento e da preservação dessa mão de obra qualificada no interior do Brasil sob a ótica da responsabilidade social corporativa? Esse é um assunto que mexe muito comigo porque a MANZAN nasceu em Uberlândia e cresceu junto com muitas dessas profissionais.
Quando falamos em preservar o trabalho artesanal, estamos falando de preservar conhecimento. Bordar à mão, construir determinadas aplicações e dominar certas técnicas são saberes que levam anos para serem desenvolvidos e que muitas vezes passam de uma geração para outra.
Existe também um impacto social muito importante. Esse trabalho gera renda e cria oportunidades para mulheres que exercem uma profissão extremamente especializada.
Eu acredito que responsabilidade social precisa estar dentro do negócio, e não apenas em um discurso paralelo à empresa. Quanto mais a MANZAN cresce, maior é a nossa responsabilidade de valorizar essas pessoas, profissionalizar essa cadeia e mostrar que o feito à mão brasileiro pode ocupar o mesmo espaço de prestígio que admiramos nas grandes maisons internacionais.

De nomes como Juliana Paes, Sabrina Sato e Thássia Naves ao vestido marcante criado para Ana Castela no Latin Grammy, em Miami, suas peças ganham grande destaque na mídia. Como você mensura o impacto real do vestuário em celebridades na valorização da marca, na atração de clientes e no retorno sobre o investimento? Vestir uma personalidade relevante pode gerar uma exposição que seria muito difícil comprar através de mídia tradicional. Mas eu aprendi que não adianta simplesmente vestir alguém famoso. Precisa existir coerência entre aquela pessoa, aquele momento e a marca.
Quando um vestido aparece em um red carpet importante, em uma premiação internacional ou em uma personalidade com muita relevância, existe um efeito imediato de reconhecimento. As pessoas pesquisam a marca, chegam às nossas redes sociais, entram em contato com a loja e começam a desejar aquele universo.
Mas eu não mensuro o resultado apenas pela quantidade de publicações ou curtidas. Observo repercussão de imprensa, crescimento da procura, novos clientes, vendas e, principalmente, construção de marca.
Alguns momentos não necessariamente geram uma venda no dia seguinte, mas colocam a MANZAN em um novo patamar de percepção. E esse valor de marca, no mercado de luxo, é extremamente importante.
A parceria inédita no mercado latino-americano com a Swarovski para o desenvolvimento de uma coleção integralmente em cristais marcou um momento importante. Quais são os principais desafios e aprendizados de alinhar uma marca brasileira de moda autoral aos padrões e às exigências de uma gigante internacional do luxo? A parceria com a Swarovski foi um marco muito importante para nós, principalmente pelo nível de exigência envolvido.
Trabalhar com uma empresa dessa dimensão exige padrão, consistência, planejamento e uma atenção enorme a todos os detalhes. E isso é muito positivo porque faz com que a empresa também eleve seus processos internos.
Ao mesmo tempo, foi muito especial perceber que uma marca brasileira, construída no interior de Minas Gerais, poderia desenvolver um trabalho autoral com cristais e dialogar com uma empresa dessa dimensão internacional.
Para mim, esse reconhecimento reforçou algo em que sempre acreditei: não precisamos abrir mão da nossa origem para sermos globais. Na verdade, nossa origem pode ser justamente aquilo que nos diferencia.
A MANZAN se consolidou nos segmentos de sob medida e prêt-à-porter de luxo. Como você equilibra o desafio de escalar o negócio mantendo a exclusividade, o nível de detalhe e a essência artesanal que exigem processos manuais intensos? Esse talvez seja um dos maiores desafios da MANZAN hoje. Eu não quero construir uma marca de volume a qualquer custo. Quero construir uma marca relevante, desejada e longeva. E isso significa entender muito bem o que pode ser escalado e o que precisa continuar sendo exclusivo.
O prêt-à-porter nos permite crescer, chegar a mais clientes e desenvolver uma operação comercial mais previsível. Ao mesmo tempo, o sob medida e as peças de maior complexidade mantêm esse laboratório criativo e artesanal que faz parte da nossa essência.
Também estamos trabalhando muito na organização da produção, na padronização de processos, no desenvolvimento da equipe e no planejamento das coleções. Escalar não significa industrializar tudo. Para mim, significa criar eficiência onde ela é possível para proteger justamente aquilo que não pode ser massificado.
Letícia, a consumidora do mercado de luxo evoluiu bastante nos últimos anos. Hoje, o que essa mulher contemporânea busca na moda festa além do apelo estético? Como a MANZAN tem se adaptado às novas demandas de comportamento de consumo e conveniência do mercado de luxo? A mulher contemporânea quer se sentir especial, mas também quer praticidade.
Hoje ela viaja, trabalha, empreende, tem família, participa de muitos eventos e tem acesso instantâneo a marcas do mundo inteiro. Ela continua desejando exclusividade e beleza, mas está muito mais exigente em relação a atendimento, prazo, conforto e experiência.
Na moda festa, isso ficou muito evidente. Não basta o vestido ser maravilhoso parado. Ele precisa funcionar no corpo, fotografar bem, permitir que essa mulher se movimente e, principalmente, fazer com que ela se sinta segura e especial.
A personalização também ganhou ainda mais valor. A cliente quer sentir que aquela experiência foi pensada para ela. E isso sempre esteve muito presente na MANZAN.

A inteligência artificial e a digitalização estão transformando o varejo, o design e o marketing de moda em ritmo acelerado. Na sua visão, como a tecnologia pode coexistir com a moda autoral e o trabalho 100% feito à mão? Você já utiliza ou pretende utilizar tecnologias digitais na gestão ou no processo criativo da MANZAN? Eu sou completamente a favor da tecnologia quando ela potencializa o ser humano em vez de tentar substituir aquilo que ele tem de único.
Já incorporamos ferramentas digitais em diferentes partes do nosso dia a dia, inclusive na organização, pesquisa, comunicação, planejamento e processo criativo. A inteligência artificial pode acelerar pesquisas, ajudar na visualização de ideias, organizar informações e tornar uma empresa muito mais eficiente.
Mas uma imagem criada digitalmente não substitui uma modelista interpretando um desenho, uma costureira construindo um vestido ou uma bordadeira posicionando milhares de cristais manualmente.
Eu acho muito interessante justamente esse encontro. Quanto mais tecnologia existir, talvez mais valioso se torne aquilo que realmente foi feito por mãos humanas.
Para mim, o futuro da MANZAN não é escolher entre tecnologia e artesanato. É utilizar cada vez mais tecnologia nos bastidores para termos ainda mais capacidade de preservar o artesanal no produto.
Com o mercado de moda de luxo em constante evolução, o planejamento estratégico torna-se fundamental. Quais são as principais metas de expansão, os novos projetos e as coleções estratégicas que a MANZAN está preparando para estruturar a marca rumo a 2027? Estamos vivendo um momento muito importante de amadurecimento da empresa. Estamos prestes a completar 12 anos de MANZAN, e eu sinto que estamos entrando em um novo ciclo.
Nossa prioridade é estruturar ainda mais a operação, fortalecer São Paulo, ampliar o prêt-à-porter e o atacado de maneira estratégica e continuar levando a MANZAN para novos mercados, sem perder a exclusividade.
Também estamos trabalhando em projetos especiais, novas parcerias e nas próximas coleções. Para o Inverno 2027, estamos desenvolvendo RAÍZES, uma coleção que tem um significado muito especial para mim porque fala justamente sobre origem, identidade, trabalho artesanal e sobre olhar para tudo aquilo que nos trouxe até aqui para decidir para onde queremos ir.
Eu quero que a MANZAN cresça, mas meu objetivo nunca foi simplesmente ter uma marca maior. Quero construir uma marca cada vez mais forte, reconhecível, consistente e preparada para durar.
Depois de quase 12 anos, talvez essa seja a minha maior clareza como empresária: crescer é importante, mas construir legado é ainda mais.




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