Nicky Abe dentro e fora das cabines
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Entre música, moda e cultura da noite, a DJ construiu uma trajetória que reflete as transformações da cena eletrônica brasileira e vive uma nova fase com projetos autorais como Caso Sério e Febre.

A música eletrônica nunca foi apenas sobre apertar o play. Antes da primeira batida, existe uma escolha, uma pesquisa, uma memória e uma intenção. Cada DJ constrói, de alguma forma, uma narrativa: alguns contam histórias através de gêneros, outros através de referências, estética ou pela maneira como enxergam a pista. Nicky Abe pertence a uma geração que ampliou o significado de ser DJ.
Em um cenário onde a música eletrônica deixou definitivamente os clubes underground para ocupar grandes eventos, campanhas de moda e espaços culturais, Nicky construiu uma trajetória baseada na combinação entre repertório, identidade e presença. Sua carreira não foi construída apenas pelos lugares onde tocou, mas pela forma como transformou a cabine em uma extensão do seu olhar artístico.
A relação com a música sempre esteve ligada à descoberta. Mais do que seguir tendências, Nicky desenvolveu uma pesquisa própria, transitando por diferentes vertentes como house, disco, funky e referências que atravessam décadas da cultura pop. O resultado é uma assinatura que busca equilibrar memória e novidade, criando sets que conversam com diferentes públicos sem perder personalidade.
Essa construção também ultrapassou o universo sonoro. Ao longo dos anos, moda, imagem e comportamento passaram a fazer parte naturalmente da sua expressão artística. Em uma época em que DJs também se tornaram figuras importantes dentro da cultura visual, Nicky entende que a experiência começa antes da música tocar: está na estética, no ambiente e na conexão criada com quem está do outro lado da cabine.
Sua trajetória inclui apresentações em clubes, festivais, eventos ligados à moda e grandes experiências de entretenimento, incluindo o Baile do BB, encontro que reúne música, criatividade e cultura brasileira. Cada palco trouxe uma nova leitura sobre seu próprio trabalho e ajudou a consolidar uma artista que não se limita a um único espaço.
Agora, Nicky vive um momento de expansão.
Além das apresentações, ela passa a assumir também um papel de curadora e criadora de experiências com projetos próprios. A Caso Sério, no The Core, nasce como uma extensão do seu universo musical, explorando a relação entre pista, estética e comportamento. Já a Febre, nova festa no Club Jerome, representa outro capítulo dessa busca por criar encontros que tenham identidade própria dentro da noite paulistana.
Mais do que acompanhar as mudanças da música eletrônica, Nicky participa delas. Sua trajetória reflete uma transformação maior: a do DJ que deixa de ser apenas quem conduz uma pista para se tornar também um criador de atmosfera, conceito e cultura. Em entrevista à VAM, Nicky Abe fala sobre evolução artística, referências musicais, moda, os desafios de construir uma identidade em uma cena em constante movimento e o futuro de uma carreira que continua se reinventando.
Segue a entrevista com as respostas incorporadas às perguntas do arquivo enviado. Baseado no conteúdo da entrevista.
Entrevista | Nicky Abe

Nicky, sua trajetória começou muito conectada ao universo pop e, com o tempo, encontrou na música eletrônica um novo espaço de expressão. O que essa transição revelou sobre a sua própria identidade artística? A transição do pop para a música eletrônica me revelou que estou em constante mutação como artista. Também me mostrou que posso ser uma DJ que transita por diferentes cenas e públicos. Com o tempo, nossos gostos vão sendo lapidados e, consequentemente, novas versões de nós mesmos vêm à tona.
Antes de existir a Nicky Abe das pistas, existia uma relação muito forte com música, referências visuais e cultura pop. Quais elementos dessa fase continuam presentes na artista que você é hoje? Muitos elementos. Eu nasci em 1990 e minha infância foi muito influenciada pelas Spice Girls, por exemplo. Eu tinha cinco ou seis anos e já consumia aquele pop sofisticado que elas faziam. Isso moldou muito do meu gosto musical. Além disso, a estética dos anos 1990 e 2000 continua presente em muitos dos meus looks.
Em uma cena onde muitos DJs são definidos apenas pelo gênero musical que tocam, você criou uma assinatura que envolve som, estética e presença. Quando percebeu que estava construindo algo maior do que apenas um set? Percebi quando comecei a tocar montada. Antes eu era apenas um menino na cabine e morria de vergonha de olhar para a pista. Com a montação, comecei a me sentir muito vista e muitas oportunidades profissionais passaram a surgir. Foi ali que entendi que aquilo era algo muito maior.
Música, pesquisa e referências
Você já comentou que a pesquisa musical é uma parte essencial do seu processo criativo. O que você procura encontrar quando mergulha em novas músicas? Uma memória, uma emoção, uma energia específica? Espero encontrar músicas que realmente goste. Às vezes pesquiso por uma vibe, outras por remixes de músicas específicas, por energia ou para resgatar memórias. Também penso em como aquela faixa vai funcionar na festa onde vou tocar. Mas, acima de tudo, preciso gostar da música e acreditar que ela vai funcionar na pista.
Suas referências passam por nomes como Sade, Jamiroquai, Jungle, Spice Girls, Michael Jackson, Mariah Carey, Marina Lima e Fernanda Abreu. O que existe em comum entre artistas de universos tão diferentes que conecta com a sua linguagem?
Bom gosto! (risos). Esses artistas têm uma energia que adoro. Acho todos muito chiques, solares, animados. Existe uma vibração em comum entre eles que conversa muito com a minha forma de enxergar música.
Quando você entra em uma cabine, pensa mais como uma DJ construindo uma sequência musical ou como uma artista criando uma experiência para quem está diante dela? Quando entro na cabine penso que preciso trocar energia com aquelas pessoas. Então começo a minha "feitiçaria musical" para fazer todo mundo dançar e cantar. Gosto de contar uma história através do set, despertar emoções, criar expectativa e sentir que toda aquela vibração está voltando para mim.

Imagem, moda e identidade
Sua estética sempre chamou atenção e se tornou uma extensão da sua música. Em que momento você entendeu que a imagem também fazia parte da narrativa artística? Entendi isso muito cedo. Quando um artista sobe ao palco, tudo passa a ser uma forma de expressão: a música, o look, a luz, os movimentos. Sempre fui muito tímida e, quando comecei a ganhar mais exposição, senti que precisava trabalhar isso em mim. A imagem precisa estar conectada com tudo.
A música eletrônica tem uma relação histórica com liberdade, expressão e transformação. De que maneira a sua própria identidade influenciou a forma como você ocupa esse espaço? Sempre fui da noite. Antes de trabalhar nela, eu já a vivia como público. Tenho muitos quilômetros rodados em clubes e festas. A liberdade desses espaços e as transformações que acontecem neles sempre fizeram parte da minha vida de maneira muito natural.
Existe uma diferença entre escolher uma música para tocar e escolher uma imagem, uma roupa ou uma estética para representar uma fase artística? Existe, sim. As intenções são diferentes. A imagem e a estética que construo têm muito a ver com os meus processos internos, com quem sou e como quero ser vista. Já a escolha da música depende do momento, da pista, da boate e da intenção de fazer aquele público ferver.
A pista e os novos projetos
Você acompanhou diferentes momentos da noite brasileira e hoje também cria experiências através de projetos próprios. O que busca entregar em uma festa que vai além do line-up? A regra é entregar uma ótima experiência.
A Caso Sério, no The Core, e a Febre, no Club Jerome, mostram um novo lado da sua trajetória: o de criar conceitos e atmosferas. Que tipo de universo você quer construir através dessas festas? Um universo de música boa, pessoas conectadas, encontros significativos e muita energia clubber.
Toda carreira passa por diferentes versões de um mesmo artista. Quem é a Nicky Abe que está surgindo agora? É uma Nicky Abe mais madura, mas ainda com muitos sonhos e objetivos. Estou focada em ser cada vez mais eu, em estar alinhada com aquilo em que acredito e com o que faz sentido para mim. E o que tiver que acontecer, vai acontecer. Vai dar tudo certo.
