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Rainhas da Noite: no The Core, a memória vira cultura

  • há 59 minutos
  • 4 min de leitura

Em uma cidade onde a noite também é território de resistência, memória e criação, o projeto Rainhas da Noite, realizado no The Core, na Vila Buarque, em São Paulo, propõe mais do que uma temporada de apresentações. A iniciativa coloca no centro do palco artistas que ajudaram a construir a história da noite LGBTQIA+ paulistana e aproxima diferentes gerações de uma mesma trajetória.

A ideia nasceu do encontro entre o território, a memória e a experiência de quem viveu essa cena. À frente do The Core, Klaus encontrou na trajetória de Kylie uma parceria fundamental para transformar a proposta em realidade. O resultado é um projeto que celebra artistas, recupera memórias e questiona o lugar que a cena dá às suas próprias referências.


Mais do que olhar para o passado, Rainhas da Noite propõe uma conversa com o presente e com o futuro: quem abriu os caminhos precisa ser reconhecido por quem hoje pode atravessá-los.

Klaus: “A memória LGBTQIA+ não pode aparecer apenas quando alguém vai embora”

Como nasceu o Rainhas da Noite e por que você sentiu que essa história precisava ser contada no The Core? O Rainhas da Noite começou, para mim, antes mesmo de existir como projeto. O livro Rainhas da Noite, do Chico Felitti, despertou um olhar mais atento para quem ajudou a construir a noite LGBTQIA+ de São Paulo e para o quanto muitas dessas trajetórias ainda são pouco conhecidas.


Quando abrimos o The Core, isso ganhou outro peso por causa do lugar em que estamos. Estamos na República, no centro de São Paulo, um território profundamente ligado à história da noite e da cultura LGBTQIA+, onde durante décadas travestis, transformistas e artistas encontraram espaço para trabalhar, criar comunidade e existir.


Estar nesse território despertou uma vontade de olhar para essa história com orgulho e honrar quem veio antes. Foi aí que essa vontade se encontrou com a trajetória da Kylie. A partir das nossas conversas, o projeto começou a ganhar forma.7


O Rainhas nasce desse encontro entre território, memória e trajetória: usar o palco que temos hoje para reconhecer e celebrar as artistas que ajudaram a construir o caminho que hoje podemos ocupar.


O que você descobriu sobre a noite LGBTQIA+ ao ouvir as histórias dessas artistas? Eu descobri que não sabia nada. (risos) E acho que essa foi uma das coisas mais importantes do processo: entender que, para fazer esse projeto com respeito, eu precisava escutar muito mais do que falar.


Foi aí que a Kylie se tornou essencial como curadora. Ela tem a vivência e a sensibilidade para saber como abordar essas artistas e criar um ambiente em que elas se sintam acolhidas, respeitadas e especiais.


Teve um momento que fez tudo fazer sentido para mim: ouvir a Marcinha do Corintho dizer que entrar no The Core lembrou ela do Corintho. Aquilo mostrou que existia ali algo maior do que uma programação. Existia memória afetiva, pertencimento e reconhecimento.


Essas artistas precisam de palco, protagonismo e valorização. O Rainhas tenta justamente isso: não apenas trazê-las de volta ao palco, mas celebrar essas trajetórias como elas merecem.


E foi também por isso que decidimos registrar tudo em um documentário. Essas histórias precisam permanecer.


O que você espera que permaneça do Rainhas da Noite depois que a temporada terminar? Eu espero que fique o registro e, principalmente, a reconexão entre gerações. Quero que pessoas mais novas conheçam essas artistas, entendam o que elas construíram e passem a consumir, valorizar e reconhecer esse trabalho.


Em setembro, teremos o Rainhas da Noite convida Showgirls, trazendo convidadas de outras gerações que estão hoje na cena. A ideia é colocar no mesmo palco quem abriu caminhos e quem está construindo os próximos capítulos dessa história.


Em outubro, voltamos às rainhas que deram origem ao projeto, porque é importante que o Rainhas possa crescer e criar novos encontros sem perder a conexão com sua origem.


E eu gostaria que o projeto deixasse uma provocação para a própria cena: a memória LGBTQIA+ não pode aparecer apenas quando alguém vai embora. Essas pessoas precisam ser celebradas, contratadas, ouvidas e reconhecidas enquanto estão aqui.


No fim, é isso que eu espero que permaneça: não só a memória de uma temporada, mas uma ponte entre gerações.

Kylie: “A arte drag continua sendo resistência”

Você atravessou diferentes gerações da noite. O que mudou para as artistas LGBTQIA+ e o que ainda precisa mudar? Vi muita coisa se modificar, até mesmo o termo "arte drag", que chamávamos de "arte transformista". Os palcos comerciais eram mais numerosos, os shows eram determinantes para o sucesso de uma casa noturna.


A cena se profissionalizou, mas não se valorizou. Os cachês continuaram baixos, não fazendo jus aos investimentos das artistas. As casas noturnas deixaram de abraçar o show e todo mundo teve que se reinventar.


A parte positiva é ocupar outros espaços, participar de novos projetos, do streaming, dos realities... A arte drag continua sendo resistência.


O que significa reencontrar no palco artistas que fazem parte da sua própria história? É um bálsamo, um rito de celebração do talento, do glamour. Hoje, posso dividir camarim e, de certa forma, oferecer oportunidade para quem eu sempre admirei.


É mágico e digno ao mesmo tempo. Me sinto fazendo algo que importa, em parceria com o The Core, ajudando a colocar luz em "rainhas" que merecem muito mais reconhecimento.


O que a nova geração precisa conhecer sobre quem veio antes dela? Para que as novas gerações possam acessar os palcos, é importante reconhecer quem pavimentou essa estrada. É preciso ter conhecimento e respeito por quem veio antes.


E todos nós precisamos entender a importância de construirmos e preservarmos a memória desse segmento.


Drink, gastronomia e cultura no centro de SP - Conheça o The Core, Rua Major Sertório, 209.

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