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Há palavras que só existem no silêncio

  • há 21 horas
  • 3 min de leitura

Eu sempre achei que conhecia o silêncio. Simples. Rápido. E quanta força.


Um domingo em que nenhum dos dois abre a boca. A quietude depois de uma discussão. O perdão que não vem, o beijo que não acontece, o sexo que não rola, a gargalhada que poderia desmontar a tensão, mas não aparece.


Durante muito tempo, aprendi a traduzir esses tipos de silêncios como desinteresse ou recusa.


Como se toda ausência de palavras escondesse uma palavra pior. Talvez porque eu sempre tenha preferido uma voz dizendo aquilo que não quero ouvir.


Há alguma dignidade nas cordas vocais em funcionamento: elas articulam argumentos, expõem queixas, tropeçam, exageram, voltam atrás, repetem. Eu gosto muito da musicalidade da voz! Imagino que quem fala ainda está, de alguma maneira, tentando construir uma ponte.


Já o silêncio sempre me pareceu a antessala de coisa ruim. Quando nada é dito, nada fica combinado. E a minha imaginação, essa funcionária que insiste em nunca tirar férias, imediatamente assume o expediente em tempo integral.


Talvez por isso estou estranhando tanto descobrir uma pessoa que pode fazer ao contrário. Alguém que, estando comigo, pede silêncio. Não pede distância. Silêncio.


Para alguém acostumado a interpretar a ausência de palavras como ausência de afeto, isso é quase aprender uma língua nova.


É uma experiência inédita para mim: alguém para quem dividir o silêncio não significa interromper a relação. Confesso que é bem complicado, pois quero perguntar se está tudo bem. Dois minutos depois, se tem certeza. Mais cinco e já estou procurando o que aconteceu.


Porque meu repertório afetivo aprendeu que, quando o outro se cala, alguma coisa precisa ser descoberta. O silêncio sempre carregou uma espécie adivinhação e quase nunca a resposta era boa.


Eu nunca tinha pensado no silêncio como uma forma de intimidade. Talvez porque intimidade, para mim, sempre tenha sido verbos: conversar, contar, perguntar, responder, explicar, confessar, rir, discutir, fazer as pazes.


Agora descubro que intimidade também pode ser advérbio: quietamente. Duas pessoas no mesmo lugar, cada uma dentro de si, sem que isso signifique estar longe da outra.


Há uma confiança imensa em não precisar produzir assunto para justificar uma companhia.


Em poder pegar um livro, fechar os olhos, mexer no celular, estar na cozinha sozinho ou simplesmente existir ao lado de alguém.


Não sei fazer isso muito bem. Às vezes, no meio do silêncio, minhas antigas traduções voltam: alguma coisa aconteceu, talvez não queira mais estar aqui.


Então olho para o lado, e ainda está tudo por perto. Assim, começo a desconfiar de que amadurecer afetivamente talvez seja também aprender que nem todo silêncio anuncia algo tosco. Alguns são intervalos. Alguns são a pausa necessária entre palavras para que aquilo que estamos vivendo consiga respirar.


O único silêncio que realmente perturba continua sendo aquele que fala. Aquele em que não bate à porta, nenhuma mensagem chega, nenhum gesto acontece e, mesmo assim, entendemos perfeitamente o recado. Esse eu conheço. O que eu não conhecia até então era esse outro: o silêncio de alguém que permanece. E talvez exista uma intimidade nisso, descobrir que, com certas pessoas, ficar em silêncio não significa que acabou o que havia para dizer.


Agora começo a perceber que a palavra também me limita: quando eu escolho uma para dizer o que eu sinto, deixo tantas outras possibilidades de fora e, pior, revela contradições que talvez eu preferisse manter protegidas até de mim mesmo.


No silêncio, ao contrário, ainda cabe tudo aquilo que não conseguimos nomear. Talvez seja por isso que ele pareça tão seguro. Estou aprendendo que algumas pessoas se protegem nas palavras e outras se protegem delas mesmas.


E que amar alguém exija também respeitar esse lugar onde o outro ainda não quer, não pode ou simplesmente não consegue se explicar. Há palavras que só conseguem existir quando ninguém abre a boca.

Diógenes Carvalho é Pós-Doutor em Psicologia e Direito. Doutor em Psicologia. Mestre em Direito. Pós-graduado em Psicanálise Clínica. Possui Diploma de Direito Europeu. Psicanalista em formação pelo Instituto Sedes Sapientiae. Professor Associado da Faculdade de Direito da Universidade Federal de Goiás. Advogado e Ator. Inquieto, curioso e questionador, acredita no mergulho transformador da análise e no amor. Por aqui, fala sobre vida real, desafios da existência humana e o contemporâneo.

1 comentário


Raquel Custodio
Raquel Custodio
há 9 horas

O silêncio é maravilhoso...🙂🙂

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