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O olhar que nos inventa: sobre o afeto e a existência na obra de Caique Baron

  • há 3 dias
  • 3 min de leitura

Há livros que se leem. Outros nos leem de volta. A narrativa de Caique Baron pertence a essa segunda categoria. Ela não apenas conta uma história, mas atravessa o leitor com delicadeza, como quem toca uma ferida sem pressa de fechá-la. Porque, no fundo, existir é um trabalho delicado.


Da infância que tenta entender Deus ao adulto que tenta entender o mundo, o livro costura narrativa e poesia para sustentar uma intuição simples e vertiginosa. Todos carregamos perguntas grandes demais para o tamanho do corpo. E talvez seja justamente isso que nos torna humanos.


A história começa com um gesto mínimo. Um menino aprende a prender a respiração debaixo d’água. Esse mergulho inaugural, quase banal, transforma-se em metáfora central da obra. Quando o menino submerge, o autor nos convida a fazer o mesmo, a suspender o ar, o tempo e, por um instante, a certeza. As bolhas sobem e, com elas, emergem cenas familiares. Mães imperfeitas, avós atentas, tias que tascam beijos na bochecha, fragmentos de uma infância povoada por afetos, além de uma curiosidade que se abre para a astronomia e para o mistério.


Mas o gesto do menino não é apenas um aprendizado físico. É um apelo. Ao tentar mostrar sua conquista para a mãe e para a avó, ele revela algo mais profundo: o desejo de ser visto. É nesse ponto que o livro encontra seu eixo e, ao mesmo tempo, o tema desta reflexão: o olhar do outro como condição de existência.


Só existimos no olhar do outro. Essa afirmação atravessa o texto como uma espécie de fio invisível. O olhar do outro nos constitui, nos confirma, mas também nos critica e, por vezes, nos destitui. Não se trata apenas de um olhar físico, mas daquilo que se instala em nós como interiorização desse olhar, uma câmera silenciosa que continua operando mesmo na ausência de quem nos viu.


Surge então uma série de perguntas inevitáveis. Onde está focada essa câmera? O que, de fato, o outro vê? Até que ponto somos aquilo que nos enxergam? Como escapar disso ou, melhor, como conviver com isso quando outras vozes também aparecem, olhares invisíveis e imaginários que nos habitam?


Talvez a resposta não esteja em escolher entre ser ou escapar do olhar, mas em sustentar a tensão entre ambos. Em uma conversa recente na sacada de casa, entre taças de vinho e a vista da Igreja do Calvário, surgiu uma formulação que parece ecoar o espírito do livro. É impossível ser apenas o que o outro diz que somos. Mas também é impossível não ser atravessado por isso. Vivemos nesse intervalo.


A psicanálise ajuda a nomear parte dessa complexidade. O amor não é puro; ele contém o ódio. O olhar do outro não é garantidamente amoroso. Ele pode acolher e ferir. Pode nos dar lugar e nos retirar dele. É nesse movimento que nos constituímos.


Existe ainda o problema da linguagem. Não temos uma gramática suficiente para dizer como se ama e como se odeia. Sempre faltarão palavras para o que é vivido. No contemporâneo, isso se agrava. Há uma sensação de conhecer rápido demais o outro, de chegar às pessoas já carregados de determinismos, crenças e pontos de partida sobre os comportamentos. Ao mesmo tempo, há uma decepção igualmente rápida. Surge, ainda, a dúvida constante de que poderia existir algo melhor do que aquilo que está sendo vivido. Isso produz uma espécie de exaustão que vai na contramão da possibilidade de amar de verdade.

Amar é um trabalho. Um trabalho muito difícil.


Exige ver o outro em sua essência e, ao mesmo tempo, elaborar o luto de algo que nunca existiu plenamente, como a imagem idealizada que a paixão faz parecer real. Esse processo não acontece fora do tempo. O amor precisa de tempo cronológico, de duração, de convivência, de diálogo e de repetição. Precisa atravessar o cotidiano para se sustentar nos olhares. Não há atalho possível para o amor.


Ao final, permanece a imagem do menino mergulhando. Segurar a respiração, entrar em contato com o silêncio e depois retornar. Retornar sempre para o outro. Talvez seja isso existir: um movimento contínuo entre o dentro e o fora, entre o olhar do outro e aquilo que em nós se deixa capturar por ele.


Caique Baron nos lembra que viver é sustentar essa complexidade. E que, apesar de tudo, ainda há algo de profundamente humano em continuar querendo e tentando ser visto, sem deixar de se perguntar quem se é.

Diógenes Carvalho é ator, advogado, professor universitário e pesquisador. Autor de vários livros e psicanalista em formação. Inquieto, curioso e questionador, acredita no mergulho transformador da análise e no amor. Por aqui fala sobre vida real, desafios da existência humana e o contemporâneo.

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