No Dia da Visibilidade Trans Isis Broken fala sobre maternidade travesti e reais apoios à cultura

Isis Broken está na capa da revista VAM Magazine e nessa entrevista fala sobre maternidade travesti com o seu filho Apolo, seu primeiro álbum com mais de 14º indicações, apoio da mídia e muito mais

Hoje, 29 de janeiro é comemorado o Dia Nacional da Visibilidade Trans no Brasil. A data tem o objetivo promover reflexões sobre a cidadania das pessoas travestis, transexuais (homens e mulheres trans) e não-binárias (que não se reconhecem nem como homens nem como mulheres).


A transfobia (aversão ou discriminação contra a população trans) é uma realidade CRUEL, que leva as pessoas trans também abandonarem os estudos, enfrentarem dificuldades de inserção no mercado de trabalho, e claro, além do próprio risco de vida diário na sociedade preconceituosa.


Há 13 anos no topo da lista, o Brasil continua sendo o país que mais mata pessoas trans em todo o mundo, de acordo com a ONG internacional Transgender Europe - TGEU, que monitora mais de 70 países. Segundo levantamento da mesma organização, a cada 10 assassinatos de pessoas trans no mundo, quatro ocorreram no Brasil.


A criadora da Bandeira do Orgulho Trans, Mônica Helms, disse em 1999: “Azul para meninos, rosa para meninas, branco para quem está em transição. E, para quem não se sente pertencente a qualquer gênero: isso significa que não importa a direção do seu voo, ele sempre estará correto”! (E ainda bem que hoje usamos todas as cores, e como quisermos).


Em 2020, 175 assassinatos de pessoas transexuais foram computados no país - é, em média, uma morte a cada dois dias motivada por discriminação pela identidade de gênero, segundo a ANTRA - Associação Nacional de Travestis e Transexuais do Brasil - que reforça que, na prática, há uma subnotificação de casos.


Implantada desde 29 de janeiro de 2004, quando travestis, mulheres e homens trans foram a Brasília lançar a campanha "Travesti e Respeito", a data busca promover a cidadania e o respeito entre as pessoas.


Importante você saber: Identidade de gênero? Orientação sexual? Sexo biológico?

A Identidade de gênero é o modo como o indivíduo se reconhece: mulher, homem, ou não binário (que não se vê como apenas uma coisa ou outra).

A orientação afetiva sexual se refere a quem você sente atração: lésbicas, gays, bissexuais e heterossexuais. O sexo biológico está ligado à biologia: cromossomos, hormônios, órgão sexual, que pode ser: vagina, pênis. Há também as pessoas intersexuais, que tem características biológicas de ambos os sexos.


A partir de todo conhecimento explanado acima, apresentamos a artista Isis Broken e sua família com muito orgulho e amor:

Isis Broken é bisneta de coiteiro de Lampião (pessoas que ajudaram os cangaceiros, dando-lhes abrigo e comida) e neta de repentista e cordelista. O sertão é seu sangue, sua terra, sua raiz, e com orgulho ela sempre traz isso para suas músicas, assim como também destaca sua vivência como travesti preta e cangaceira.


Sabemos há décadas que as oportunidades são ainda mais barradas quando falamos da comunidade LGBTQIA+, e o preconceito é diário, vide o que assistimos agora #bbb22 com a musa @linndaquebrada / e isso acontece desde sempre!


Para nos auxiliar no desenvolvimento desse diálogo, convidamos a mamãe do ano @isisbroken para ser capa da VAM Magazine, na entrevista Ísis reforça o poder feminino do cangaço, de ser artista e mãe travesti.


Ísis possui mais de 14 indicações a prêmios nacionais e internacionais, me surpreendeu e não pela qualidade pois isso eu já sabia que seria incrível, mas o que me pegou mesmo foram as sonoridades. Achei que seria uma obra mais focada no rap, mas Isis Broken foi extremamente além disso, mas sim, ainda tem muita rima, mas as bases são de diversos estilos. Temos trap, drill, pop, dub, rock, vogue, toques de afoxé, R&B, forró e ragga, tudo isso fazendo uma ótima conexão entre as músicas, nenhuma delas fica destoada ou parece perdida do disco.


Quer conhecer ainda mais a artista Sergipana? Leia a entrevista completa

VAM: A arte de cantar se manifestou em sua vida de que forma Isis? E quando?

Desde criança tive uma grande influencia musical do meu avô que era repentista, eu sempre sentava com ele pra ouvir discos, conversar sobre moda de viola, ele me ensinou alguns acordes de viola… Já na adolescência eu tive contato por meio dos meus tios que sempre tiveram banda, e eu sempre acabava dando uma palhinha voz e violão, nesse momento minha família percebeu que eu tinha um dom, foi quando eu mostrei minhas composições e todo mundo falou “caramba, isso é muito bom”


VAM: Na sua infância e adolescência como foi o processo da sua descoberta? Me conte um pouco sobre o apoio da família?

A travestilidade não vem com uma descoberta, pq eu sempre fui, acho que vem com um afloramento e entendimento do que aquele corpo tem de potência travesti. Desde que eu tinha 3 anos minha mãe disse que já sabia que eu era uma mulher, então ninguém levou um choque não, todes me abraçaram e disseram que iriam passar por essa comigo, não é fácil né, lógico! Mas se sua família pelo menos está disposta a isso, já é o primeiro passo


VAM: Eu percebi que você fala bastante do seu avô nas redes sociais, não é? Inclusive, a música Ararinha da Viola é referência ao nome artístico dele. Vocês tinham uma relação muito próxima, não é? Ele acompanhou todo seu processo artístico?

Sim, Ararinha da Viola era o seu nome artístico, ele era violeiro, repentista e cordelista, ele faleceu muito antes de me lançar como RAPentista, mas eu já tinha mostrado a ele alguns repentes e poesias, lembro que na noite anterior dele se hospitalizar fui a última pessoa a ouvir uma poesia dele, aquilo foi tão forte e me atravessou de uma forma tão especial, queria que ele estivesse vivo ainda pra ver e ouvir a neta, mas sei que ele tá ouvindo sim, em algum lugar ele deve ouvir e se orgulhar muito!


VAM: Isis, “Bruxa Cangaceira”, o seu primeiro álbum foi indicado a mais de 14 prêmios nacionais e internacional. Me conte como foi o processo de composição dessa obra com referencias tradicionalistas regionais e também, do trap, pop, rock, vogue, axé, forró e muito mais? Qual o maior obstáculo que enfrentou?

Os processos de composições são tão diversos, tenho uma música chamada “Vogue do Inferno” que compus inspirado no cordel “A Chegada de Lampião no Inferno”, daí pensei, como seria a chegada de uma travesti cangaceira no inferno? E foi assim que nasceu, acho que ela é a minha favorita do álbum. Artistas independentes sempre enfrentam a barreira financeira né? Estamos criando sempre na precariedade, principalmente se você for uma travesti preta e nordestina, o trabalho será ainda mais precário, e não quero mais romantizar o fazer coisas incríveis e ter 14 indicações e dizer “Tô muito feliz de tá ganhando esse prêmio, porque eu só tinha mil reais pra fazer um clipe”, não podemos mais aceitar isso, eu recuso por completo essa precariedade.


VAM: No mundo da música e dos videoclipes, você bate no peito com orgulho (e com razão), que você tinha mil e quinhentos reais para a produção do seu clipe. Quem da mídia ou do cenário proporcionou apoio a você?

Ninguém da mídia me apoiou (risos), tudo que fiz foi a duras penas, como falei anteriormente, massa que eu consegui fazer um clipe com mil e quinhentos arô, mas porque eu não tenho dez mil arô pra produzir? Meu primeiro clipe ganhou prêmio de Melhor Videoclipe Nacional pelo Festival de Cinema de Vitória, cadê os grandes produtores pagando um clipe pra gata? Potência minha arte tem, só falta investimento financeiro, eu venho do menor estado do país! Ninguém tem noção do que é produzir audiovisual em Sergipe, as vezes eu vejo a galera do Sudeste reclamando, me dá vontade de rir, na moral.


VAM: Broken, com quem gostaria de trabalhar e porquê? Teremos novas parcerias em 2022? Algum spoiler?

Eu gostaria de trabalhar com Bixarte, acho que essa gata tem muito a oferecer, ela é poesia pura, acho que faz uma boa ponte com meu trabalho. Tem algumas coisas se formando, mas não posso falar muito! Tem feat com uma banda do underground italiano, e nossa, cês vão pirar! E tem algumas coisas aqui no Brasil também, mas vamo esperar pra não estragar a surpresa!


VAM: Ainda dentro de Ararinha da Viola, a direção do clipe foi feita a distância. Queria que você me contasse como foram as gravações em meio a pandemia, com a direção à distância. Como funcionou?

A equipe foi bem reduzida, todes testados, seguindo todos os protocolos, foi uma produção bem intensa, o diretor de arte e figurinista, Carlos Estranho, ficou hospedado em minha casa por três semanas, pra não correr risco de sermos infectados, então a produção foi extremamente manual, eu coloquei a mão em exatamente tudo. Já com a Letícia Pires, diretora, fizemos várias ligações de vídeo, ela me pedia pra gravar minha falas e mandar pra ela, antes de gravar a gente fazia chamada de vídeo pra mostrar o que estava no entorno, mostrar o figurino, maquiagem, cabelo… foi tudo tão intenso, mergulhamos mesmo na criação daquele clipe

VAM: Qual sua maior conquista na vida pessoal e na carreira? Como foi ganhar na categoria do melhor filme sergipano com 10º indicações?

Na minha vida pessoal foi meu filho, Apolo, meu sol, meu grande astro de calor e amor, minha missão aqui na terra. Na minha carreira foi quando ganhei meu primeiro prêmio, um MVF concorrendo com Criolo, foi muito emocionante! Eu já ganhei tanto prêmio que fico até perdida (risos). Ganhar melhor clipe sergipano pra mim é a validação e recompensa de tudo que criei até agora, muito feliz por isso.


VAM: Um sonho ou desejo que você ainda pretende realizar?

Um sonho é um desejo que pretendo realizar? Uma tour por todo o Brasil, e lógico uma tour na gringa! Quero ganhar em Euro, e fazer a reparação delas!



VAM: A pandemia veio para mudar tudo. Tudo virou do avesso e fomos obrigados a nos adaptar. Como sua rotina foi alterada nos últimos tempos com o nascimento de Apolo? Como foi esse momento na sua vida?

Foi bem difícil isso, Apolo nasceu dia 9 de dezembro, e no dia 15 eu tinha uma premiação e no dia 19 eu tinha show na Mamba Negra, uma das festas mais importantes do underground aqui em São Paulo, imagine ter que deixar meu filhe com dias de nascido apenas com o pai, foi terrível pra mim, além disso fiquei com medo de expor ele a alguma doença, mas no final tudo deu certo e estamos bem, tem que ter muito jogo de cintura pra poder sincronizar tudo, mas o papai ajuda muito nessa balança.


VAM: Conta um segredo para os seus milhares de fãs: você é uma mulher romântica que vive intensamente o amor? Como foi que conheceu Lorenzo? Conte essa história de amor para mim!

Não sou romântica (risos), ou sou? Acho sim, as vezes não, eu sou geminiana, eu tenho várias mulheres dentro de mim, o que meu marido não pode reclamar é de monotonia, a gente ama muito um ao outro, é um laço eterno. A gente se conheceu pela internet, chamei ele pra um feat no meu álbum, porque queria um boy trans pra uma love song, ele topou, ficamos conversando, até que comprei uma passagem pra ele só de ida pra Sergipe, e agora somos casados e temos um filho (risos). Amo muito esse chato, nosso relacionamento é como qualquer outro, mas nossa família transcentrada tem muito amor sim!


VAM: Se você tivesse a oportunidade de mudar o mundo, o que você mudaria?

Posso mudar de mundo? Acho mais confiável.



VAM: Sabemos que o Brasil é um dos países que mais mata pessoas trans no MUNDO. Como você percebe a mídia em relação as mulheres trans e travestis? E vamos falar de patrocinadores também, muitas portas se fecham ou abrem?

Então, acho que a grande mídia não se importa muito não, nas décadas passadas estávamos falando muito de LGBCIS, e está tudo correto, mas as travestis, pessoas trans, tranvestigeneres eram postas de lado, e ainda somos muito.

Acredito que nessa nova década vamos falar mais de gênero, como já está acontecendo no BBB22 com LINN Da Quebrada, é colocar a travesti no centro, em um lugar central, isso é muito importante. Qual é a grande travesti que existe na mídia? Não tem nenhuma! Ter LINN lá é importante para que tenhamos corpos como o nosso lá. Mas será que tem mais espaço para outras nós? E isso é uma grande questão!

Tem que ter LINN, tem que ter Isis Broken, MC Xuxu, e tantos outros nomes trans que estão ai. Eu acho que aos poucos a gente vai galgando esse caminho, aos poucos. E espero que as marcas entendam as nossas potencias, vejam a gente como uma potencia e enxerguem o nossos corpos com uma potencia. Porque a gente sabe que o corpo travesti é extremamente potente, porque é um corpo extremamente rejeitado, assassinado.

Então porque existe essa grande grande potência de magnitude mundial, planetária. Porque nos matam? Somos o pais que mais mata.


VAM: Como você autodescreveria a maternidade travesti? Quer ter mais filhos?

Vejo como mais uma subpotência dos nossos corpos. Durante muitos anos, durantes todos esses anos de existência de corpos trans e travestis, se negou o ato de procriar, de reverberar a nossa existência, e eu penso que isso seja a maior força da maternidade e descrição.

Pensa: Mãe travesti progenitora, pensa.. Toda vez que falo sobre a maternidade, preciso falar que sou progenitora, eu tenho que falar, que ele vem de mim.

Existe um julgamento coletivo de que a gente não pode ser mãe, porque a maternidade é "feita" apenas para mulheres cis gêneras, não é?

É lógico que quando podemos nos demonstrar como existentes na sociedade, vão tentar nos apagar a nossa identidade, e nós estamos ai, e vamos continuar fortalecendo outras pessoas trans buscarem seus sonhos. Ontem, recebi uma mensagem sobre isso, nos tornamos uma forma de referência nas redes, muita gente se inspira na nossa história, pois são muitas barreiras, muitos cuidados para que todo esse amor floresça.

Como a gente cria possibilidades? Criando corpos, criando narrativas. Podemos criar uma família, podemos ser amadas.

Sobre ter filho, então eu super quero rsrsrs, vamos esperar o Apolo crescer um pouquinho, e vamos vendo a gente vai ensinando e aprendendo a amar, cuidar e educar. Seria nossa, incrível! Sou apaixonada por ele.


VAM: Qual a sua mensagem de força e representatividade? A minha mensagem vem com vivência, eu acho que tudo na nossa caminhada vem com vivencia.

A minha vida, a minha existência é a vivencia de tudo que quero representar, e influenciar como comunidade, sociedade, e ai quando a gente estiver se abraçando bem gostoso nesse carrossel, todes, a gente vai poder falar mais sobre felicidade, respeito, amor, entender como essas todas coisas nos mutilam, mesmo o amor, e talvez a gente esteja presas que precisamos de um.

A gente está sempre precisando de algo a mais na nossa vida e isso se torna preocupante. Então a minha mensagem é insista, invista, caia, erre, volte tudo do começo, mas nunca de o braço a torcer. Não deixa eles ganharem!

Essa é a grande questão, se levante, e se estiver no chão, a gente está aqui para apoiar, estou sempre aberta ao público, a novas amigas.

Um beijo dessa Bruxa Cangaceira que vocês amam!