RENATA BRÁS: O PODER E A MAGIA DE SER MÚLTIPLA
Há uma beleza particular em quem nunca aceitou ser apenas uma coisa.

Renata Brás pertence a essa rara categoria de artistas que parecem encontrar movimento justamente na mudança. Da dança à televisão, da música ao teatro, dos grandes musicais à comédia, ela construiu uma trajetória em que cada experiência não encerra um capítulo, mas abre espaço para o próximo.
Aos 50 anos, Renata chega a um novo momento da carreira com a mesma inquietação que a acompanha desde os primeiros passos em Osasco. No palco do Teatro UOL, retorna com “A Ciumenta”, personagem que transformou sentimentos tão humanos quanto insegurança, medo, ansiedade e necessidade de controle em uma experiência que faz rir, reconhecer e, em alguns momentos, olhar para dentro.
Mas talvez seja justamente fora dos rótulos que esteja a sua maior força. Enquanto encara uma nova temporada no teatro, prepara-se para viver a mãe de Gloria Estefan em “On Your Feet” e experimenta novas linguagens nas novelas verticais. Diferentes personagens, diferentes ritmos, diferentes palcos. A mesma artista.
Renata não parece interessada em chegar a um lugar definitivo. Prefere continuar em movimento. E é nessa liberdade de experimentar, amadurecer, se reinventar e permanecer curiosa que está a essência de uma mulher que fez da arte não apenas uma profissão, mas uma maneira de estar no mundo.
Para a VAM Magazine, ela fala sobre carreira, palco, maturidade, vulnerabilidade, autocuidado e sobre a coragem de continuar descobrindo quem somos, mesmo depois de tantos personagens vividos.

Renata, você está de volta aos palcos com a nova temporada do monólogo “A Ciumenta” no Teatro UOL. A peça consegue transformar a dor e as armadilhas de um ciúme doentio em uma comédia profunda e libertadora. Como é para você habitar novamente esse universo e o que o público pode esperar de diferente nessa montagem? Eu sempre procuro trazer algo novo para cada temporada, sem mudar a estrutura da peça. E existe um ingrediente que torna cada apresentação única, que é quando A Ciumenta interage com a plateia, deixando aquela situação mais próxima do improviso ao trazer uma linguagem que também flerta com o stand-up. Isso faz com que nenhum espetáculo seja exatamente igual ao outro.
Além disso, o público pode esperar muito humor, identificação e, principalmente, reflexão. Acredito que comédia também pode mexer com a gente, então você ri da personagem e, de repente, percebe que talvez esteja rindo de alguma coisa que também existe em você.
Quando escrevi a peça, minha intenção nunca foi simplesmente fazer uma mulher ciumenta virar motivo de riso. Eu queria falar sobre algo que, por trás da comédia, é muito humano: o medo de perder, a insegurança, a comparação, a necessidade de controle e, principalmente, a dificuldade de olhar para dentro.
No espetáculo, o cenário recria a atmosfera intimista de um camarim, onde a ficção se mistura com a realidade e a plateia vira parte da história. Renata, qual é a sensação de olhar nos olhos do público e improvisar a partir das reações e contradições do ciúme humano? Olhar nos olhos do público e improvisar a partir das reações de cada pessoa é uma das coisas que mais amo em A Ciumenta. E cada plateia me dá um espetáculo diferente. Um olhar, uma risada, um silêncio ou uma resposta inesperada podem mudar completamente aquele momento.
Para mim, essa troca olho no olho é impagável. A plateia não está apenas assistindo à história. Ela também faz parte dela.
O texto, escrito por você em parceria com Samira Ramalho e com supervisão da psicanalista Fabiana Guntovitch, aborda questões profundas como ansiedade, autoestima e a alma feminina. Renata, como foi o processo de equilibrar a ótica tragicômica com reflexões de saúde emocional e relacionamentos contemporâneos? Foi um processo muito gostoso, porque eu queria falar de assuntos sérios sem deixar a peça pesada. Eu sempre acreditei que a comédia pode ser uma porta de entrada para assuntos que, se você falar de uma maneira muito séria, talvez o público até se feche.
A Samira Ramalho chegou por uma indicação da atriz e autora Suzana Pires, e foi muito importante para colocar no papel todas as minhas ideias. A Fabiana Guntovitch, com o olhar da psicanálise, trouxe informações e reflexões muito interessantes. E o André Dias, que dirige o espetáculo, também contribuiu muito para deixar o texto mais contemporâneo.
A personagem é exagerada, às vezes até absurda, mas os sentimentos são muito reais: ansiedade, insegurança, autoestima e medo de perder. Também acho interessante quando a pessoa está rindo e, de repente, passa a refletir sobre si mesma: “Nossa, eu já fiz isso!”.
Das Origens à Maturidade Artística
4. Com mais de três décadas de carreira, sua história começou ainda jovem na música com “A Patotinha” e se desdobrou na formação em Artes Cênicas e Dança. Renata, quando você olha para a menina que começou em Osasco e construiu essa carreira multifacetada, o que mais te dá orgulho de ter sustentado ao longo dos anos? Quando olho para aquela menina que começou em Osasco, sinto muito orgulho de ela não ter desistido. Peguei muitos trens com minha mãe e minha avó. Foram muitos testes e também muitos tropeços, porque não tinha quem me mostrasse o caminho das pedras.
Fui descobrindo a arte aos poucos: comecei na dança, depois passei pela música, pelas Artes Cênicas, pela televisão, pelo teatro, pelo cinema e, em meio a tudo isso, sempre fui me reinventando.
Acho que o que mais me orgulha é justamente ter continuado curiosa. Nunca quis ficar parada em um lugar só. Sempre tive vontade de aprender, experimentar e me desafiar.
Também me deixa muito orgulhosa poder transitar pelo popular, sem medo de ser feliz, pois às vezes o universo cult exige que você se comporte de uma determinada maneira, como se precisasse se afastar do que é simples e acessível. Mas eu não tenho medo disso, porque, de verdade, sou do povo. Gosto de me comunicar com todo mundo, de estar perto das pessoas e de valorizar diferentes formas de arte e de expressão.
5. Você coleciona trabalhos marcantes na TV — desde parcerias lendárias com Silvio Santos, Gugu e Moacyr Franco até o sucesso estrondoso de “A Ciumenta” em A Praça É Nossa por cinco anos. De que forma a vivência na televisão alimentou a sua força cênica no teatro? A televisão me ensinou muito sobre presença, ritmo e comunicação direta com o público. Trabalhar ao lado de nomes como Silvio Santos, Gugu, Moacyr Franco e Ronald Golias foi uma escola diária, tanto profissional quanto humana.
Cada programa tinha uma dinâmica diferente, e eu precisava estar sempre atenta, disponível e pronta para responder ao inesperado.
Em A Praça É Nossa, com A Ciumenta, vivi uma experiência muito especial. Foram cinco anos construindo uma personagem que conquistou o público e me permitiu explorar o humor, o improviso e a força da expressão corporal. A TV me deu agilidade, mas o teatro aprofundou ainda mais essa entrega.
No palco, não existe edição nem segunda chance. É preciso sustentar a cena do começo ao fim, ouvir o outro ator e manter uma conexão viva com a plateia. Tudo o que aprendi na televisão alimentou essa presença cênica.
6. Em 2022, você conquistou o prestigiado Prêmio Bibi Ferreira de Melhor Atriz Coadjuvante por “Brilho Eterno”. Renata, o que esse reconhecimento vindo da classe artística significou para o seu momento de consolidação no teatro cênico e nos musicais? O Prêmio Bibi Ferreira foi mais um daqueles momentos muito especiais para mim, pois veio da própria classe artística, de pessoas que conhecem a entrega, a disciplina e os desafios de estar em cena.
Receber esse reconhecimento por “Brilho Eterno” significou uma confirmação de que toda a minha carreira no teatro, nos musicais e nas Artes Cênicas estava encontrando um lugar de maturidade e consolidação.
Então valeu a pena todo o esforço de toda uma trajetória.
Versatilidade & Projetos Simultâneos
7. Renata, você vive um momento de pura ebulição criativa: além da nova temporada de “A Ciumenta”, você se prepara para viver a mãe de Gloria Estefan no musical “On Your Feet”, além da novela vertical “Casamento Instantâneo com o Chefão” no Kwai. Como você organiza sua energia e preparação para transitar por linguagens tão distintas ao mesmo tempo? Estou vivendo uma dupla jornada no teatro. Às segundas e terças, tem “A Ciumenta” no Teatro UOL. E de quinta a domingo eu estarei em cartaz no musical “On Your Feet”, que conta a história de Gloria Estefan.
Além disso, hoje, antes das respectivas estreias, estou com uma rotina de ensaio e preparo para ambos, durante toda a semana. É uma rotina puxada, mas estou muito feliz.
Mas também eu acho que minha energia vem justamente dessa vontade de fazer coisas diferentes. Sou uma artista inquieta. Gosto de diferentes expressões artísticas, pois cada linguagem me provoca de uma maneira.
Além disso, voltar a fazer um musical está sendo muito especial. Meu último espetáculo do gênero foi em 2018, com “Hebe, o Musical”, onde interpretei Nair Bello. Poder reencontrar esse palco está sendo uma delícia, ainda mais com uma história latina, com uma energia muito forte e que conversa diretamente comigo.
Eu adoro Gloria Estefan e estou realmente muito animada com esse trabalho.
Além disso, ainda tem as novelas verticais que eu tenho feito e que são uma novidade para mim. Estou conhecendo essa linguagem, fazendo e aprendendo na prática.
Sabe, é isso que me mantém viva artisticamente: não ter medo do novo e continuar me permitindo experimentar.
8. No cinema e na TV, você já transitou por gêneros que vão de grandes musicais (Hairspray, Grease, Hebe) a comédias populares e novelas. Como a sua formação como bailarina e diretora de movimento influenciou a criação física dos seus personagens ao longo da carreira? Para mim, o movimento também conta uma história. Antes mesmo da personagem falar, o corpo já pode revelar quem ele é.
A dança foi minha primeira formação e até hoje ela está muito presente no meu trabalho. Eu penso muito nessa partitura de movimentos na construção do corpo, como o jeito de andar, de olhar e de ocupar um espaço.
Às vezes, antes mesmo de falar, a personagem já está dizendo alguma coisa pelo corpo. Acho que ser bailarina me deu essa percepção.
Cada personagem tem um ritmo, uma energia e uma maneira própria de se movimentar.
Autocuidado
9. Aos 50 anos, você irradia uma presença marcante e faz questão de falar abertamente em suas redes sobre maturidade, menopausa, autoconhecimento e amor-próprio. Renata, qual é o segredo para abraçar a sua melhor versão sem medo das cobranças estéticas e da indústria? Acho que o segredo é parar de brigar com o tempo. Quero viver plenamente e ser a melhor versão dos meus 50.
Eu assumo a minha idade com orgulho e felicidade, pois me sinto bem, segura e, muitas vezes, gosto mais de mim hoje do que antes. Em alguns momentos, até me sinto mais bonita, só o colágeno que está indo, né? Mas a gente compra (risos).
O importante é que aprendi a me enxergar com mais carinho e a valorizar a mulher que me tornei. Continuo vaidosa, cuido mais da saúde e sei da importância que a musculação tem, não pra ficar sarada, mas sim pra ter qualidade de vida pra viver bem.
Não quero esconder a minha idade. Quero viver o presente, aproveitar essa fase e celebrar o privilégio de estar bem, seguir bem e vivenciar tudo o que a vida tem a me oferecer.
10. Para encerrar com chave de ouro nosso editorial da Revista VAM: Renata, o que a arte e o palco te ensinaram sobre a vida que nenhuma outra experiência seria capaz de ensinar? A arte e o palco me ensinaram que a vida é feita de presença, entrega e verdade.
No palco, não existe espaço para viver pela metade, pois é preciso estar inteira, ouvir o outro, lidar com o inesperado e confiar no processo.
Aprendi também que a vulnerabilidade não é uma fraqueza. Quando nos permitimos sentir e mostrar quem somos, criamos uma conexão verdadeira com as pessoas.
A arte me ensinou a olhar o mundo com mais sensibilidade, a respeitar diferentes histórias e a entender que cada pessoa carrega suas próprias batalhas, sonhos e silêncios.
O palco ainda me ensinou a lidar com o medo. Ele nunca desaparece completamente, mas pode se transformar em presença, energia e coragem.
Aprendi que não é preciso esperar estar pronta para dar o próximo passo, pois muitas vezes é caminhando que podemos descobrir a nossa força.
E, talvez, a maior lição seja entender que tudo passa, como o aplauso, o silêncio, o sucesso e o erro. Mas o que permanece é a experiência, o aprendizado e a marca que deixamos nas pessoas.
A arte me ensinou a viver com mais verdade, a recomeçar quantas vezes forem necessárias e a celebrar cada capítulo da minha história.
Afinal, no fim, a vida também é um grande palco e o mais bonito é ter coragem de interpretar o nosso próprio papel.
Fotógrafa: @nandafarias_fotografia
Styling: @__eliasmenezes Entrevista: @antonnio.italiano
Beleza: @edu_sachhiero
Filmaker: @produtorafernandabergamo
Produção: Márcia Rodrigues
Assessoria: @rubricacomunicacao / @eduardomate



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