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THE CORE: O novo endereço que está redefinindo a forma de viver o centro de São Paulo

  • 23 de jul.
  • 9 min de leitura

Atualizado: 24 de jul.

Em uma cidade movida por encontros, o The Core surge como um novo destino onde gastronomia, cultura, empreendedorismo e diversidade compartilham o mesmo endereço.

O centro de São Paulo atravessa um dos momentos mais interessantes de sua história recente. Entre edifícios históricos, galerias, cafés, restaurantes e novos empreendimentos criativos, a região volta a ocupar o protagonismo na cidade, atraindo um público que busca experiências autênticas e uma nova forma de viver São Paulo.


É nesse cenário que nasce o The Core. Muito mais do que um bar ou restaurante, o espaço reúne gastronomia, coquetelaria, música, moda, arte e encontros em um ambiente pensado para estimular conexões entre pessoas, ideias e diferentes expressões criativas. Um projeto que traduz o espírito de uma cidade em constante transformação.

Para a VAM Magazine, apresentar lugares que movimentam a cultura contemporânea faz parte da missão editorial. Por isso, propomos uma entrevista exclusiva com os idealizadores Klaus Anibal e Enrico Paschoal, explorando a história por trás do The Core, sua visão sobre empreendedorismo, representatividade, diversidade e o papel que novos espaços exercem na revitalização do centro paulistano.


Mais do que apresentar um novo endereço, esta será uma oportunidade de contar a história de quem está ajudando a construir o futuro da cidade.


Entrevista:

  1. | Para Klaus Anibal

Empreender no Brasil já é um desafio. Empreender sendo um empresário gay e criando um espaço que celebra diversidade, cultura e gastronomia traz camadas extras. Em algum momento você sentiu que precisou provar mais do que os outros para que o projeto fosse levado a sério? Sim, em diversos momentos. Quando uma pessoa LGBTQIA+ apresenta um projeto ligado à diversidade, muitas vezes ele é tratado como algo de nicho ou que só pessoas da comunidade pudessem adentrar aquele espaço. Acaba sendo lido como se não pudesse ser, ao mesmo tempo, culturalmente relevante, financeiramente sustentável e profissionalmente estruturado.


Percebi que precisávamos chegar às conversas com tudo muito bem fundamentado: conceito, operação, números, posicionamento e propósito. Mas também entendi que não deveríamos suavizar quem somos para sermos levados a sério. A diversidade não é um detalhe no The Core; ela está na origem do projeto, na equipe, na programação e na forma como recebemos as pessoas. Talvez tenhamos precisado provar mais, mas escolhemos transformar essa pressão como parte de quem somos.


  1. | Para Klaus Anibal

O The Core nasce na Vila Buarque, ao lado da República, um território que há décadas faz parte da história da comunidade LGBTQIA+ em São Paulo. O que essa localização representa para você? Existe a intenção de dialogar com essa memória enquanto constroem um novo capítulo para a região? A localização não foi uma escolha neutra. Estamos em uma região que carrega muitas histórias da comunidade LGBTQIA+, da vida noturna, da arte, da moda, da resistência e dos encontros que transformaram São Paulo.


Para mim, estar aqui significa reconhecer que não estamos começando do zero. Existem pessoas, artistas, espaços e movimentos que abriram caminhos antes de nós. Por isso, acreditamos que orgulho também é honrar quem veio antes.


O projeto Rainhas da Noite nasce justamente desse desejo: valorizar o legado das transformistas e artistas LGBTQIA+ que fizeram — e continuam fazendo — parte da história cultural do centro de São Paulo. Ao reunir diferentes gerações no palco, queremos preservar essa memória, reconhecer trajetórias e, ao mesmo tempo, criar oportunidades para que novas histórias aconteçam.

Desejamos que o futuro do centro seja feito com respeito à sua memória e às pessoas que sempre deram vida a ele.


  1. | Para Klaus Anibal

Hoje muitas marcas utilizam o discurso da diversidade em campanhas publicitárias. Como fazer para que a inclusão deixe de ser apenas um discurso e se torne uma prática real dentro de um negócio? Diversidade real aparece nas decisões e na essência; e não apenas na comunicação ou discurso. Ela precisa estar presente em quem é contratado, quem ocupa posições de liderança, quem recebe oportunidades, quem participa das decisões e como a empresa reage quando surgem conflitos ou situações de preconceito.


Também exige estrutura. Não basta contratar pessoas diversas se o ambiente não estiver preparado para acolhê-las, desenvolvê-las e garantir que tenham perspectivas reais de crescimento. É necessário rever processos, linguagem, benefícios, treinamento, políticas internas e até a maneira como o negócio define profissionalismo.


No The Core, buscamos construir uma equipe diversa e criar um ambiente no qual pessoas historicamente excluídas possam trabalhar, se desenvolver e ocupar espaços de protagonismo.


  1. | Para Enrico Paschoal

O The Core reúne gastronomia, bar, moda, música e arte. Qual foi o insight para criar um espaço multidisciplinar, quando o mercado costuma apostar em conceitos cada vez mais específicos? O The Core nasceu do encontro entre trajetórias que já existiam. A Synchron, minha marca de roupas, existe há mais de dez anos, e eu sempre trabalhei no universo da moda, participando de projetos ligados à São Paulo Fashion Week, ao Rio de Janeiro e a diferentes produções e eventos do setor.


Ao mesmo tempo, o Klaus vivia um momento em que queria deixar o mundo corporativo e empreender em algo com propósito. A diversidade sempre foi uma das maiores paixões dele e também esteve presente em toda a sua trajetória profissional.


A gastronomia também já fazia parte da minha história familiar. Minha família está à frente do Georgia Café há cerca de dez anos, com unidades no Guarujá e em Santos. Então percebemos que não precisávamos escolher entre moda, gastronomia, música, arte ou diversidade. Poderíamos reunir todas essas experiências, referências e paixões em um mesmo projeto.


O insight do The Core veio justamente daí: criar um espaço onde esses universos pudessem conviver de forma natural. Um jantar pode terminar em uma apresentação, uma exposição pode gerar uma conversa, uma festa pode revelar um novo artista e a moda pode fazer parte de toda a experiência.

Mais do que criar um espaço multidisciplinar, queríamos construir algo que representasse verdadeiramente quem somos e tudo o que vivemos até aqui.


  1. | Para ambos

Vocês acreditam que São Paulo vive um novo momento de valorização do centro da cidade? Qual é o papel de empreendimentos independentes nesse movimento de revitalização? Klaus: Sim, acho que existe uma redescoberta do centro e um novo interesse pela região. Mas gosto de tomar cuidado com a palavra "revitalização", porque o centro nunca esteve sem vida. Sempre teve moradores, trabalhadores, comerciantes, artistas e muitas comunidades construindo histórias aqui todos os dias.


O que vemos agora é uma nova atenção e mais investimento. E os negócios independentes têm um papel muito importante nisso, porque conseguem criar uma relação mais próxima com o bairro, gerar empregos, movimentar a economia local e trazer novos públicos. Mas tudo precisa ser feito com responsabilidade e respeito por quem já estava aqui.


Enrico: O centro tem uma liberdade criativa muito especial. É uma região em que arquitetura, cultura, pessoas e histórias muito diferentes convivem, e isso abre espaço para projetos mais autorais e menos engessados.


Os empreendimentos independentes também ajudam a manter as ruas ocupadas e a criar conexões entre negócios, artistas, moradores e produtores culturais. Mas essa valorização precisa vir acompanhada de escuta, para que o novo não apague a memória nem afaste quem sempre fez parte da região.

  1. | Para Enrico Paschoal

O público LGBTQIA+ sempre esteve entre os grandes impulsionadores da economia criativa. Você acredita que essa comunidade continua sendo protagonista das transformações culturais e urbanas da cidade? Com certeza. A comunidade LGBTQIA+ sempre esteve muito presente na moda, na música, na arte. Muitas coisas que depois viram tendência começaram dentro da nossa própria comunidade.


Eu vejo isso há muitos anos com a Synchron e com o meu trabalho na moda. Já participei de projetos, eventos e produções importantes, mas também conheço bem os desafios de manter um negócio autoral e seguir criando em um mercado tão competitivo.


O Klaus está começando agora essa trajetória como empreendedor, depois de muitos anos no mundo corporativo, e traz uma experiência muito forte com diversidade, liderança e inclusão.

Acho que a nossa troca funciona justamente por isso: eu venho com uma vivência maior no empreendedorismo e na moda, e ele traz esse olhar de gestão, propósito e transformação social.


Para mim, o próximo passo é a comunidade ocupar cada vez mais os espaços de decisão. Não só estar no palco, nas campanhas ou criando tendências, mas também ser dona do negócio, produzir, contratar, liderar e decidir.


O The Core nasce muito desse desejo: criar um espaço em que a comunidade LGBTQIA+ não seja apenas convidada, mas faça parte da construção.


  1. | Para Enrico Paschoal

Criar um espaço acolhedor significa receber públicos muito diferentes. Como equilibrar identidade, diversidade e autenticidade sem perder a essência do The Core? Acolher públicos diferentes não significa tentar agradar a todos ou eliminar a personalidade do espaço. Pelo contrário: acredito que as pessoas se sentem mais confortáveis quando percebem que existe uma identidade verdadeira e coerente.


A essência do The Core está na liberdade, na criatividade, no cuidado e na convivência entre diferenças. Esses valores orientam desde a estética até a programação e a forma como a equipe recebe cada pessoa.


Não queremos ser um espaço genérico. Queremos ter uma identidade forte, mas suficientemente aberta para que diferentes públicos se reconheçam nela.


  1. | Para Klaus Anibal

Empreender exige coragem, mas também muitas renúncias. Qual foi a decisão mais difícil durante a construção do The Core? A decisão mais difícil foi escolher seguir adiante mesmo sem ter todas as garantias. O The Core nasceu em um momento de transição profissional e pessoal, o que tornou cada escolha ainda mais intensa.


Foi necessário abrir mão da previsibilidade, investir recursos, assumir riscos e aceitar que um projeto dessa dimensão afetaria nossa rotina, nossas relações e nosso tempo.


Também tivemos de tomar decisões difíceis sobre prioridades, orçamento e operação, muitas vezes escolhendo o que era essencial para preservar o propósito do projeto.


Empreender é conviver diariamente com a responsabilidade de transformar uma ideia em algo sustentável, não apenas para nós, mas para toda a equipe que passa a depender daquele negócio.


  1. | Para Enrico Paschoal

O The Core aproxima a gastronomia, moda, música e arte. Como você acredita que essa convivência entre diferentes universos pode gerar novas oportunidades para artistas, empreendedores e para quem frequenta o espaço? Quando diferentes universos dividem o mesmo espaço, surgem conexões que dificilmente aconteceriam dentro de circuitos isolados. Um artista pode conhecer um produtor, uma marca pode encontrar um novo colaborador, um músico pode ser apresentado a um público que inicialmente veio para jantar.


Essa convivência também ajuda a reduzir barreiras. Muitas pessoas não entram espontaneamente em uma galeria, em um desfile ou em um evento específico, mas podem ter o primeiro contato com essas linguagens de maneira mais natural dentro do The Core.


Queremos que o espaço funcione como um ponto de encontro e também como uma vitrine: um lugar onde novos projetos possam ser testados, talentos possam ser descobertos e colaborações possam nascer.


  1. | Para ambos

Se vocês tivessem que definir o The Core em apenas uma palavra, qual seria? E por que ela representa a essência do projeto? Encontro.

Klaus: Porque o The Core surgiu do encontro entre pessoas, histórias, talentos e desejos diferentes. É no encontro que as oportunidades aparecem, que preconceitos podem ser desconstruídos e que uma comunidade começa a se formar.


Enrico: Também porque todas as linguagens que fazem parte do projeto se encontram ali: moda, gastronomia, música, arte e design. O The Core não existe apenas como um lugar físico, mas como um ponto de conexão entre universos.


  1. | Para Klaus Anibal

Muitos jovens LGBTQIA+ sonham em empreender, mas ainda enfrentam insegurança, preconceito e falta de referências. Que conselho você daria para quem deseja construir um negócio sem abrir mão da própria identidade? Eu diria para não esperar se sentir completamente pronto, porque eu mesmo não me sentia.


Depois de muitos anos no mundo corporativo, decidir empreender foi também aceitar que eu teria que aprender muita coisa do zero, lidar com inseguranças e entender que nem todas as respostas viriam antes de começar.


Para mim, o mais importante foi ter clareza sobre o que eu queria construir e, principalmente, sobre o porquê. O The Core não nasceu apenas da vontade de abrir um negócio, mas do desejo de criar um espaço com propósito, onde a diversidade não fosse uma campanha, mas parte da equipe, da programação e das decisões.


Também acho importante entender que você não precisa apagar quem é para ser levado a sério. Durante muito tempo, pessoas LGBTQIA+ aprenderam que precisavam se adaptar, falar menos, aparecer menos ou esconder partes de si para caber em determinados espaços.


Empreender também pode ser o contrário disso: pode ser a oportunidade de construir um espaço que tenha a sua identidade, os seus valores e a sua visão de mundo. Claro que isso precisa vir acompanhado de preparo, responsabilidade e muito trabalho, mas a sua história não é uma fraqueza. Ela pode ser justamente o que torna o seu negócio diferente e verdadeiro.


  1. | Para ambos

Daqui a dez anos, quando olharem para trás, o que fará vocês dizerem que o The Core cumpriu sua missão? Qual legado esperam deixar para a cidade de São Paulo? Klaus: Vou sentir que cumprimos nossa missão se o The Core tiver transformado concretamente a vida das pessoas. Se integrantes da nossa equipe tiverem crescido, estudado, assumido posições de liderança ou construído seus próprios projetos. Se os artistas tiverem encontrado ali uma primeira oportunidade.

Se pessoas LGBTQIA+ estiverem se sentindo seguras, respeitadas e capazes de imaginar novos futuros para si.

Quero que o legado seja maior do que um estabelecimento bem-sucedido. Quero que seja uma demonstração de que diversidade, excelência, impacto social e sustentabilidade financeira podem existir juntas.


Enrico: Para mim, o legado estará nas memórias e nas conexões construídas. Quero que as pessoas se lembrem de apresentações que as emocionaram, de artistas que conheceram ali, de amizades que começaram em uma mesa e de projetos que nasceram de um encontro inesperado.


Daqui a dez anos, espero que o The Core seja reconhecido como parte da história cultural do centro de São Paulo: um espaço que respeitou o passado, participou ativamente do presente e ajudou a imaginar um futuro mais criativo, diverso e acolhedor para a cidade.


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