A coisa mais romântica que fiz ultimamente
Por Diógenes Carvalho

Durante muito tempo, acreditei que deveria haver algo de extraordinário na ideia de amar alguém. Talvez porque, quando somos mais jovens, confundimos intensidade com profundidade. Acreditamos que um amor verdadeiro precisa nos tirar do chão, acelerar o coração, desorganizar a vida. E, se não houver alguma turbulência, desconfiamos de que esteja faltando alguma coisa. Hoje, quase aos cinquenta anos, descubro que a coisa mais romântica que fiz ultimamente foi permanecer.
Permanecer parece pouco numa época em que tudo nos convida a partir. As relações tornaram-se, em alguma medida, experiências de consumo. Escolhemos, experimentamos, comparamos e, diante da primeira frustração, somos tentados a procurar outra possibilidade. Há sempre alguém a poucos cliques de distância, no feed do Instagram, uma promessa de maior compatibilidade, a fantasia de que, em algum lugar, possa existir uma pessoa com quem jamais precisaremos negociar nossas diferenças. Mas o amor, quando deixa de ser apenas uma promessa, exige algo que não costumamos associar ao romantismo: trabalho.
E não me refiro ao esforço de suportar o insuportável ou de insistir em relações que nos diminuem. Permanecer não é tolerar a indiferença nem a ausência de reciprocidade. Falo de outra coisa: do trabalho silencioso de olhar para si mesmo e reconhecer que nem tudo aquilo que nos incomoda no outro teve origem nele.
Algumas das nossas dificuldades de amar são antigas. Chegaram antes daquela pessoa. Fazem parte da nossa história, dos nossos medos, das nossas defesas e das estratégias que aprendemos a adotar para não sofrer. A maturidade amorosa começa quando deixamos de perguntar apenas o que o outro precisa mudar para nos fazer felizes e passamos a indagar o que podemos transformar em nós mesmos para que a relação seja melhor.
Tenho feito esse exercício. Nem todos os dias com a mesma competência, tampouco com a serenidade que gostaria de ter. Continuo carregando contradições, impaciências e certas inseguranças que a idade não foi capaz de eliminar. Mas tenho procurado compreender quais atitudes minhas aproximam e quais podem afastar; quais palavras constroem e quais ferem; quais silêncios acolhem e quais apenas punem.
Existe uma beleza imensa em uma relação que não precisa ser uma batalha diária. Em poder discordar sem ameaçar a continuidade da história. Em saber que um dia difícil não significa o fim de tudo. Em descobrir, principalmente, que a intimidade também se constrói na previsibilidade dos pequenos gestos.
Tenho uma paixão cada vez maior pela estabilidade. E acho curioso utilizar a palavra “paixão” para falar dela, porque fomos ensinados a acreditar que ambas ocupam lugares opostos. A primeira seria o território do inesperado, do risco, do solavanco. Já a segunda pertenceria ao universo das coisas acomodadas, previsíveis e pouco interessantes.
Presença, hoje, tornou-se uma palavra importante para mim. Estar presente não significa apenas dividir uma casa, uma cama ou os compromissos de uma agenda. Significa oferecer atenção. Cuidar do cotidiano sem esperar que cada gesto seja reconhecido como um sacrifício. O amor adulto, penso eu, é mais atento. Ele aparece na delicadeza de uma conversa difícil, na decisão de não utilizar como arma, numa discussão, uma fragilidade revelada em confiança, no esforço para compreender.
Isso não significa desistir do encantamento. Ao contrário. Talvez seja a oportunidade de descobrir um fascínio mais sofisticado: aquele que sobrevive ao conhecimento. Apaixonar-se por alguém que ainda não conhecemos ou não se mostra inteiramente pode ser relativamente fácil. Há espaço suficiente para projetarmos nossos desejos, nossas expectativas e tudo aquilo que gostaríamos de encontrar.
Desafiador mesmo é continuar escolhendo alguém depois que a fantasia encontra a lucidez. Depois que conhecemos os dias ruins e as imperfeições inevitáveis. É nesse momento que o amor deixa de ser apenas aquilo que sentimos e passa a ser também aquilo que fazemos.
Quase aos cinquenta anos, já não me interessa tanto um amor que me prometa o extraordinário todos os dias. Interessa-me um vínculo que torne o cotidiano um lugar bom de habitar. Quero a alegria de dividir uma notícia banal. Quero, também, continuar desejando, admirando, descobrindo. Mas desejo, sobretudo, que a vida a dois não seja uma fonte constante de inquietação. Não procuro uma relação sem conflitos. Pelo contrário: busco uma convivência na qual eles não destruam o dia a dia.
Há algo de muito romântico em duas pessoas que, conhecendo as dificuldades da convivência, continuam dispostas a cuidar uma da outra. Não por hábito ou resignação, mas porque encontram sentido na vida que estão construindo juntas.
Durante muito tempo, talvez eu tenha pensado no amor como um acontecimento. Algo que chega, nos atravessa e transforma a paisagem. Hoje entendo que não basta encontrar alguém com quem queremos viver momentos extraordinários; é preciso descobrir se somos capazes de compartilhar as segundas-feiras.
Existe uma espécie de coragem nisso tudo. Não quero romantizar a permanência a qualquer custo. Há partidas necessárias, e algumas delas são os maiores gestos de amor-próprio que podemos realizar. Mas, quando existem respeito, desejo, reciprocidade e disposição para crescer, ficar também pode ser uma escolha incrível.
O amor da maturidade não é menor do que o da juventude. É apenas menos barulhento, menos preocupado em provar sua existência e mais interessado em vivê-la. Ainda gosto muito das surpresas que chegam à minha portaria, das viagens, das flores compradas na Doutor Arnaldo (dadas e recebidas), dos beijos demorados e das declarações inesperadas no WhatsApp. Não abandonei o romantismo. Apenas passei a reconhecê-lo em lugares onde antes não procurava. Hoje, ele está também na paciência, na rotina, na companhia, na capacidade de fazer as pazes.
E, se me perguntarem qual foi a coisa mais romântica que fiz ultimamente, talvez minha resposta pareça simples demais para os tempos em que vivemos. Eu permaneci, mas não do mesmo jeito. Fiquei disposto a rever minhas certezas, a cuidar do que existe entre nós e a compreender que o amor não se sustenta apenas na intensidade dos sentimentos, mas também na delicadeza das escolhas cotidianas. Talvez essa seja, afinal, uma das formas mais bonitas de dizer “eu te amo”: não prometer uma eternidade sobre a qual não temos controle, mas escolher, todos os dias, construir um presente no qual o outro também deseje permanecer.
Diógenes Carvalho é colunista da VAM Magazine, advogado, professor universitário, ator e psicanalista em formação. Pós-doutor em Direito e Psicologia. Doutor em Psicologia, mestre em Direito e possui Diploma de Direito Europeu.



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