top of page

Sobre Criar

há 11 minutos
2 min de leitura

Há um momento no processo criativo em que a vontade parece deixar de mandar sozinha. O artista começa com uma intenção, mas no meio do caminho algo responde, resiste, desvia, e o resultado final raramente é aquele que havia sido planejado no início. Esse desencontro entre o que se pretende fazer e o que de fato se faz é o ponto de partida deste texto, e diferentes pensadores, cada um a partir de um campo distinto, já tentaram entender por que ele acontece.


Fayga Ostrower dizia que criar é, antes de mais nada, um ato de ordenar o caos, não eliminá-lo, mas dar-lhe direção sem matar sua força. O artista não domina a matéria: negocia com ela. A tinta escorre onde quer, a palavra puxa outra palavra que não estava prevista, o som encontra uma dissonância que se impõe.


Bruno Munari levava essa ideia ao extremo do método. Para ele, a criatividade não é dom nem inspiração súbita, é problema e solução, tentativa e erro, um raciocínio que se organiza tanto quanto se abandona. Munari desconfiava do gênio isolado e preferia o processo, o rascunho, a mão que erra e corrige. Criar, nesse sentido, é menos revelação do que investigação.


Bergson lança a pergunta mais incômoda de todas: será que decidimos o que criar, ou apenas percebemos, com atraso, o que a duração já estava criando em nós? Para ele, o tempo não é uma sucessão de instantes separados, é fluxo contínuo, memória viva que se acumula e se transforma a cada momento. O processo criativo não obedece à lógica do "primeiro penso, depois faço". Ele obedece a um tempo mais espesso, onde pensar e fazer já são a mesma coisa.


A neurociência tem uma palavra parecida para isso: o estado de fluxo, aquele momento em que o córtex pré-frontal, responsável pelo julgamento e pela autocensura, reduz sua atividade, e o corpo passa a agir com uma fluidez que a mente consciente não conseguiria planejar sozinha. É por isso que tantos artistas descrevem o instante da criação como algo que aconteceu através deles, não como algo que decidiram fazer. Talvez decidir seja sempre uma explicação que vem depois, a mente contando uma história de controle sobre algo que o corpo e o tempo já haviam resolvido sozinhos.

Créditos: @closerproject
Créditos: @closerproject

Fabiana Queiroga

Artista visual e pesquisadora baseada em São Paulo. Desenvolve uma prática que articula pintura, escultura, instalação e objeto, investigando as relações entre corpo, matéria e paisagem como campos de presença, permanência e transformação. Seu processo opera por procedimentos de coleta, repetição, desgaste e sobreposição, construindo obras que tensionam, delicadeza e ameaça, silêncio e excesso. Espinhos, raízes, resíduos e superfícies fragmentadas comparecem como extensões de uma pesquisa sobre território, pertencimento e memória compreendida não como arquivo fixo, mas como fenômeno instável inscrito na matéria e na experiência sensível. Formada em Artes Visuais pela UFG, com pós-graduação em Arte Contemporânea e pesquisa em filosofia, expôs no Brasil, Argentina, Portugal, Chile e Estados Unidos, com participações nas Bienais de Santiago e Lisboa

Comentários


bottom of page