O que é o amor?
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Essa pergunta tem me ocorrido com uma frequência particular. Ela costuma aparecer ao final das minhas apresentações de Inventário Amoroso, quando saio do palco ainda capturado pelas histórias, pelos afetos e pelas perguntas que o espetáculo mobiliza.
E tem aparecido também fora do teatro, talvez com ainda mais força, na história de amor que estou tendo a oportunidade de construir.
Há algo curioso em representar afetos no palco e, ao mesmo tempo, experimentar, na vida, aquilo que nenhuma dramaturgia consegue antecipar completamente. Nos dois lugares, volto à mesma pergunta: afinal, do que estamos falando quando dizemos que amamos?
Responder não é fácil. O amor é um fenômeno complexo, provavelmente mais nomeado do que compreendido. A filosofia tenta pensá-lo há séculos. A psicologia investiga vínculos, apego e relações. A psicanálise introduziu uma complicação definitiva nessa conversa ao mostrar que não amamos apenas aquilo que sabemos sobre o outro.
Amamos também a partir de nossas faltas, fantasias, identificações, idealizações e desejos inconscientes. A história, por sua vez, mostra que até as formas de amar são atravessadas pelo tempo e pela cultura. Talvez seja justamente por tudo isso que qualquer definição definitiva pareça insuficiente.
Da minha experiência, tenho pensado o amor como um sentimento que nasce necessariamente da relação com o outro. E aqui encontro uma diferença importante em relação ao sexo. O desejo sexual nasce também do corpo e pode encontrar satisfação no próprio corpo, na fantasia, na lembrança ou na imaginação.
Para desejar, nem sempre precisamos verdadeiramente encontrar alguém. O outro pode até existir como personagem de uma cena construída por nós mesmos. O amor, entretanto, parece exigir algo mais trabalhoso: a presença de um outro que resista à nossa fantasia.
É justamente aí que a psicanálise torna a pergunta sobre o amor muito mais interessante. Porque o outro que amamos nunca é apenas o outro real.
Há nele também algo que colocamos, esperamos, supomos e imaginamos. Nossas escolhas amorosas carregam marcas da nossa própria história e dos primeiros objetos de amor.
Gosto muito de brincar com a palavra des(envolver) quando penso no amor erótico.
Amar alguém é envolver-se, evidentemente. É permitir que aquela pessoa ocupe lugares em nossa vida, faça parte das nossas rotinas e decisões, conheça nossas fragilidades e tenha acesso a regiões que normalmente mantemos protegidas. Mas amar também exige desenvolver-se, e desenvolvimento implica transformação.
Nenhuma relação amorosa relevante nos deixa exatamente no mesmo lugar subjetivo em que estávamos antes dela.
Des(envolver), então, contém uma aparente contradição que me parece preciosa. É preciso envolver-se para construir intimidade, mas também desfazer alguns envolvimentos imaginários para conseguir enxergar quem está conosco. Des(envolver) a fantasia de completude.
Des(envolver) a expectativa de que o outro adivinhe nossos desejos. Des(envolver), inclusive, certas versões de nós mesmos que já não conseguem permanecer intactas depois de um encontro importante.
É nesse sentido que tenho para mim que amor é uma atitude, tanto diante da vida quanto diante das pessoas. O sentimento importa, claro, mas ele sozinho é instável demais para sustentar uma relação.
O segredo do amor pode estar na capacidade de criar e de sustentar certo tipo de vínculo, isto é, de investimento no objeto, de torná-lo significativo. Quando o vínculo é de amor, o objeto se torna parte de nossas experiências de prazer, alegria e felicidade!
A atitude está no investimento, ou seja, no cuidado, na disponibilidade, na prioridade, no interesse, no sexo olho no olho, na capacidade de reparar aquilo que ferimos e na disposição de permanecer numa conversa quando seria mais confortável simplesmente fugir dela. Mas está também na possibilidade de frustrar e ser frustrado sem concluir imediatamente que o amor acabou. Amar não elimina o conflito, porque duas subjetividades não conseguem compartilhar intimidade sem produzir diferenças. A questão talvez seja o que fazemos com essas diferenças.
Há ainda uma dimensão narcísica do amor da qual não adianta fugir. Queremos ser escolhidos.
Queremos ocupar um lugar especial no desejo de alguém. Queremos reconhecimento, prioridade, confirmação. Há prazer em perceber que somos importantes para a pessoa que se tornou importante para nós. O problema não está nisso.
O problema começa quando o amor passa a exigir do outro a tarefa impossível de sustentar nossa autoestima, reparar todas as nossas faltas e confirmar incessantemente que somos desejáveis. Nesse ponto, corremos o risco de deixar de amar uma pessoa para amar apenas aquilo que ela devolve de nós mesmos.
Hoje, eu tenho menos interesse em descobrir uma definição universal para o amor e mais curiosidade em perceber o que uma relação amorosa é capaz de produzir em quem a vive.
Há encontros que apenas confirmam quem já éramos. Outros nos deslocam. Fazem aparecer medos que desconhecíamos, desejos que não sabíamos nomear, ciúmes que julgávamos superados, delicadezas das quais não nos imaginávamos capazes e uma vontade inesperada de construir alguma coisa para além da satisfação imediata.
E, olhando para a história que estou vivendo agora, começo a suspeitar de uma resposta provisória para aquela pergunta inicial. O amor não é encontrar no outro aquilo que estava faltando em nós. Isso seria exigir demais de alguém. Amor é quando o desejo de investir em alguém encontra, do outro lado, o desejo de investir em nós.
Por isso, gosto tanto de pensar no amor como des(envolver). Porque amar é envolver-se profundamente com alguém e, ao mesmo tempo, desenvolver a capacidade de escolher investir nesse encontro e descobrir-se igualmente escolhido.
No fim das contas, talvez eu continue sem saber exatamente o que é o amor. Mas, entre aquilo que experimento no palco e aquilo que tenho tido a oportunidade de construir na vida, uma coisa me parece cada vez mais clara: o amor sempre será uma atitude.

Diógenes Carvalho é ator, advogado, professor universitário e pesquisador. Autor de vários livros. Psicanalista em formação. Inquieto, curioso e questionador, acredita no mergulho transformador da análise e no amor. Por aqui fala sobre vida real, desafios da existência humana e o contemporâneo.



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