O amor é um acidente
- 6 de ago.
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Vivemos uma época em que o amor se tornou um projeto. Planejamos, filtramos, avaliamos, comparamos, descartamos. Criamos critérios, listas de compatibilidade e aplicativos que prometem reduzir a imprevisibilidade dos encontros. Nunca tivemos tantas possibilidades de conhecer pessoas. Paradoxalmente, nunca foi tão difícil encontrar alguém com quem seja possível construir uma história.
Talvez porque o amor nunca tenha sido um projeto. O amor é, antes de tudo, um acidente. Um acidente de percurso.
É comum atravessarmos inúmeras paixões ao longo da vida. A paixão é abundante. Ela nasce da novidade, da projeção, da fantasia e da intensidade do encontro. O amor, ao contrário, é uma raridade. Não porque seja impossível, mas porque depende de uma combinação improvável de circunstâncias que raramente acontecem ao mesmo tempo.
Sempre me espanto quando vejo duas pessoas "darem certo", com todas as aspas que essa expressão merece. Não porque acredite em almas gêmeas ou em relações perfeitas, mas porque sei o quanto é improvável que dois universos consigam encontrar um ritmo comum e permaneçam nele por tempo suficiente para construir intimidade.
Antes mesmo de amar, já existe uma sucessão de improbabilidades. Encontrar alguém por quem exista atração verdadeira. Descobrir um cheiro que acolhe, um beijo que encaixa e uma presença real. Depois, perceber que essa pessoa compartilha valores semelhantes aos seus, possui traços de personalidade compatíveis, imagina um futuro minimamente parecido com o seu e, ainda assim, está emocionalmente disponível para viver uma relação. Tudo isso acontecendo ao mesmo tempo é extraordinariamente raro.
Existe uma frase que se tornou quase um mantra da nossa época. "Ninguém quer nada com nada." Confesso que ela nunca me convenceu. Parece mais um lugar-comum repetido tantas vezes que passou a soar como verdade. O que me impressiona não é a suposta incapacidade das pessoas de amar. O que me impressiona é justamente o contrário. É quando, em meio a tantas possibilidades, duas pessoas realmente se encontram.
Os encontros que fazemos ao longo da vida, tanto no campo do amor quanto no das amizades, nunca são acontecimentos banais. Não são intercambiáveis. Não são apenas pessoas que passaram pelo nosso caminho. São encontros. Há algo de profundamente raro no instante em que alguém deixa de ser apenas mais uma pessoa no mundo e passa a ocupar um lugar que ninguém mais ocupa. Talvez seja justamente essa raridade que nos faça esquecer que o amor nunca foi um fenômeno comum.
Costumamos dizer que hoje os relacionamentos estão mais difíceis. Tenho dúvidas se essa afirmação é verdadeira. Talvez eles nunca tenham sido fáceis.
O que mudou não foi a dificuldade de amar. Mudou a possibilidade de escolher.
Nossas avós e bisavós viviam em uma sociedade que oferecia poucas alternativas. Casava-se cedo e permanecia-se junto quase sempre, muitas vezes por necessidade econômica, pressão social ou ausência de caminhos possíveis. O casamento sobrevivia, mas nem sempre porque o amor sobrevivia.
Hoje temos liberdade. Podemos terminar, recomeçar e reconstruir. Essa é uma conquista civilizatória inegável. Mas toda liberdade traz um custo psicológico.
Saímos da lógica da escassez para a lógica da abundância. A abundância produz um fenômeno curioso. A sensação permanente de que talvez exista alguém um pouco melhor esperando na próxima conversa, no próximo aplicativo ou no próximo encontro.
Talvez o amor nunca tenha obedecido à lógica do mercado. Mas nós passamos a nos relacionar como consumidores. Avaliamos, comparamos, testamos, descartamos e mantemos possibilidades em aberto, o que é uma grande tristeza para os relacionamentos atuais. A abundância de escolhas nos deu liberdade, mas também nos roubou um pouco da capacidade de apostar em alguém.
Vivemos sob a impressão de que toda escolha encerra uma perda irreparável. Permanecer com uma pessoa passou a significar abrir mão de infinitas versões imaginárias de felicidade. Talvez seja exatamente o contrário.
Construir intimidade exige interromper a busca incessante. Exige permanecer quando a novidade desaparece. Exige aceitar que nenhuma pessoa reunirá todas as qualidades desejadas e que nenhuma relação será capaz de eliminar todas as nossas faltas.
Talvez o amor comece exatamente aí. No instante em que deixamos de administrar possibilidades para começar a habitar uma realidade. Ou, dito de outra forma, quando deixamos de procurar a melhor opção e começamos a construir uma história.
Existe uma fantasia contemporânea de que o amor deve funcionar como uma ponte para a felicidade individual. Essa expectativa é pesada demais para qualquer relacionamento suportar.
O amor não elimina a solidão humana. Ele apenas a torna compartilhável.
Talvez seja justamente por isso que ele seja tão raro. Não porque existam poucas pessoas interessantes no mundo, mas porque são poucas as vezes em que duas pessoas conseguem transformar um encontro improvável em uma decisão cotidiana de permanecer.
No fim, continuo acreditando que o amor é um acidente. Não porque aconteça por acaso, mas porque ele escapa a qualquer planejamento. Podemos criar perfis, manter vários contatos do Tinder ativo na agenda do celular, aperfeiçoar algoritmos e conhecer centenas de pessoas nas redes sociais. Ainda assim, quando acontece, o encontro conserva algo de inexplicável. Talvez por isso eu continue me espantando quando duas pessoas dão certo. Não porque seja uma espécie de milagre, mas porque, entre bilhões de vidas possíveis, elas conseguem transformar um acaso em destino.

Diógenes Carvalho é ator, advogado, professor universitário e pesquisador. Autor de vários livros e psicanalista em formação. Inquieto, curioso e questionador, acredita no mergulho transformador da análise e no amor. Por aqui, fala sobre vida real, desafios da existência humana e o contemporâneo.



O amor é algo que simplesmente acontece, geralmente acompanhado de desejo e paixão, e não temos controle sobre esse sentimento.
Dei a sorte do meu acaso, virar destino.😍