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Os felizes

há 15 minutos
4 min de leitura

Por Diógenes Carvalho | VAM Magazine

Tenho observado os felizes. Não aqueles que fazem questão de anunciar a própria felicidade nas redes sociais, nem os que parecem levar uma vida extraordinária, dessas que despertam inveja nos outros. Falo de gente comum, que atravessa os dias desfrutando de uma alegria genuína, leve, quase despretensiosa. E uma coisa tem me chamado a atenção: entre as pessoas verdadeiramente felizes que conheço, nenhuma leva uma vida perfeita.


Nenhuma é muito rica ou famosa, nem desfruta de saúde impecável. Tampouco possui uma família sem problemas, um passado sem sofrimento ou um futuro livre de preocupações. Todas enfrentam dissabores de toda ordem, experimentam perdas, frustrações e as inevitáveis contrariedades da existência. Ainda assim, parecem ter encontrado uma maneira mais bonita de estar no mundo.


Ontem conheci Dona Luísa, uma senhorinha de 69 anos, nascida no Sumaré, em São Paulo, que me contou, com alegria contagiante, o quanto é feliz.


Acorda todos os dias às 4h30 para enfrentar as conduções até o trabalho, em Alphaville. Falava da rotina sem qualquer sinal de martírio, contando o quanto se sente útil e como aquele emprego ainda poderá lhe proporcionar a realização de um sonho: comprar uma casinha própria para se mudar para Goiânia.


Dona Luísa é toda serelepe, daquelas pessoas que a gente conhece e imediatamente tem vontade de conhecer mais. Cabelo curtinho, sorriso no rosto, uma cervejinha na mão e sempre disposta a um bom papo. Não havia nela qualquer tentativa de impressionar. Ela simplesmente parecia feliz ao dar mil conselhos aos mais jovens. E isso, em tempos de tanta gente empenhada em demonstrar felicidade, me pareceu de uma beleza extraordinária.


Tenho observado também que as pessoas mais felizes costumam ser generosas. Oferecem ajuda antes que alguém precise pedir, ficam inquietas diante da dor do outro, percebem necessidades que muita gente sequer consegue enxergar. Doam seu tempo, suas horas de vida e dividem o que têm, mesmo quando é pouco. Não estou falando de pessoas ingênuas ou incapazes de reconhecer a maldade do mundo. Pelo contrário, muitas delas conhecem profundamente a dor, mas não fizeram do sofrimento uma justificativa para se tornarem indiferentes. Há nelas uma espécie de disponibilidade afetiva que me encanta.


Quando penso na possibilidade de envelhecer feliz, lembro imediatamente da minha mãe, Dona Eni. Aos 83 anos, ela não dispensa um bom batom vermelho e continua ativa, alegre e cheia de vontade de viver. Tenho a sensação de que está cada dia mais animada para fazer aquilo que a vida não lhe permitiu nos tempos em que as obrigações eram muitas.


Minha mãe tem uma implicância declarada com gente mal-humorada. Costuma dizer que traumas, ressentimentos e mágoas adoecem qualquer um.

Evidentemente, não se trata de negar a dor ou exigir que as pessoas simplesmente esqueçam aquilo que sofreram. Mas existe uma diferença enorme entre reconhecer uma ferida e fazer dela a própria identidade. Dona Eni parece saber disso. E talvez seu batom vermelho e suas roupas de “onça” sejam também uma forma de dizer ao mundo que ainda há muito a experimentar, mesmo depois de oito décadas de vida.


Não quero romantizar as dificuldades de ninguém. A pobreza cansa, o trabalho exaure, a doença dói e as injustiças não se tornam menores porque alguém consegue sorrir. Seria cruel transformar a felicidade em mais uma obrigação individual, como se bastasse uma atitude positiva para superar as desigualdades e os sofrimentos humanos. Mas também me parece um desperdício imaginar que só podemos experimentar alegria quando tudo estiver no lugar.


A vida raramente nos oferece essa organização tão desejada. Sempre haverá alguma pendência, uma notícia ruim, uma preocupação com alguém que amamos ou alguma coisa no trabalho que gostaríamos que fosse diferente. Talvez a grande descoberta dos felizes seja justamente não permitir que essas ausências ocupem todos os espaços de sua existência.


Desde que conheci Dona Luísa, ontem, tenho pensado nisso e resolvi escrever aqui na VAM sobre a sua disposição para acordar antes do sol, o sonho de uma casinha em Goiânia, o prazer de conversar e a alegria com que descrevia uma vida que muitos considerariam difícil demais. Penso também na Dona Eni, no seu batom vermelho, no seu cabelo impecável, na alegria com que atende aos telefonemas e na sua recusa em entregar os dias ao mau humor.


São mulheres de gerações diferentes que parecem compartilhar alguma sabedoria sobre a passagem do tempo. Não sei se existe um segredo para envelhecer feliz, mas começo a desconfiar de que ele tenha menos a ver com aquilo que acumulamos e mais com aquilo que conseguimos preservar dentro de nós. A curiosidade, o desejo, a capacidade de rir, de se importar com alguém, de fazer planos e de continuar encontrando motivos para levantar-se da cama.


Talvez os felizes não sejam aqueles que receberam mais da vida, mas aqueles que, apesar de tudo o que a vida lhes tirou, ainda encontram alguma coisa bonita para oferecer. E isso me parece uma maneira muito digna de envelhecer e, principalmente, de viver.


Diógenes Carvalho é colunista VAM MAGAZINE, advogado, professor universitário, ator e psicanalista em formação. Pós-doutor em Direito e Psicologia. Doutor em Psicologia. Mestre em Direito e possui Diploma de Direito Europeu.

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