Antes de entender
Atualizado: há 10 horas
Há um instante, sempre anterior à palavra, em que a obra já nos tocou. O quadro, o poema, a nota musical antes de significarem qualquer coisa, já produziram um deslocamento: a pele se arrepia, o peito aperta, algo em nós se inclina. Só depois vem a interpretação, a análise, o nome que damos ao que sentimos. Mas o corpo já sabia.
Emanuele Coccia nos lembra que viver é, antes de tudo, estar imerso não há sujeito que observe o mundo de fora, há apenas corpos que se misturam a ele, que respiram o mesmo ar, que trocam substância com tudo o que tocam. A arte, nessa chave, não é objeto a ser decifrado à distância: é atmosfera que nos atravessa. Quando olhamos uma pintura, não é apenas o olho que a recebe é o organismo inteiro que se reorganiza brevemente diante dela.
A neurociência confirma, à sua maneira, o que a filosofia da imanência já intuía: a experiência estética não começa no córtex que interpreta símbolos, começa no sistema nervoso que reage a padrões, cores, ritmos, antes de qualquer juízo consciente. O frisson diante de uma música, aquele arrepio que sobe pela espinha, ativa as mesmas regiões cerebrais ligadas ao prazer e à recompensa que se acendem ao comermos algo desejado ou ao sentirmos o toque de alguém amado. A beleza, portanto, não é um conceito abstrato: é um evento fisiológico.
Vale demorar-se um pouco mais em Coccia. Para ele, a pele não é fronteira é órgão de comunicação com o mundo, a prova viva de que não existe interior sem exterior, sujeito sem atmosfera. Coccia vai buscar nas plantas, que respiram o mesmo ar que expiram os animais, uma imagem radical de interdependência: viver é já estar misturado a tudo que nos cerca, sem contorno definitivo. Se levarmos isso a sério, a obra de arte deixa de ser um objeto "lá fora" que um sujeito "aqui dentro" contempla à distância. Ela é mistura, troca de substância, como o ar dividido entre pulmões diferentes.
Essa ideia tem uma consequência incômoda: se somos atravessados pela arte antes de decidirmos deixá-la entrar, então boa parte do que chamamos de "gosto pessoal" é menos escolha do que efeito. Gostamos de algo depois de termos sido, de algum modo, já modificados por ele. A crítica de arte, o comentário, a interpretação tudo isso chega tarde, como quem tenta nomear uma tempestade que já passou pelo corpo. Não é que a interpretação seja inútil; é que ela opera sobre um território já ocupado.
Há também algo fisiológico nisso que merece ser dito com mais precisão: o sistema nervoso autônomo aquele que regula batimento cardíaco, respiração, dilatação da pupila reage a estímulos estéticos numa velocidade que antecede em frações de segundo qualquer atividade cortical ligada à linguagem ou ao julgamento. Em termos simples: o corpo já mudou de estado antes que a mente tenha formado a frase "isso é bonito" ou "isso me incomoda". A avaliação consciente é, neurologicamente falando, uma legenda tardia para um filme que já começou.
Isso muda a pergunta que fazemos sobre a arte. Não "o que ela significa", mas "o que ela faz". Coccia escreveria que a vida é a capacidade de ser afetado e de afetar e a obra de arte é, talvez, o objeto humano mais eficiente em provocar esse contágio. Ela não pede licença para entrar; ela já entrou, pelo corpo, antes que a mente decidisse se ia deixar.
Escrever sobre arte, então, não pode ser apenas escrever sobre ideias. É preciso escrever sobre o que ela desperta na carne o calafrio, a lágrima involuntária, o silêncio que se instala antes da palavra.
Talvez por isso a arte resista a todas as tentativas de explicá-la por completo. Ela não é um enigma à espera de solução, mas uma experiência que se repete, corpo após corpo, geração após geração, sem nunca se esgotar em discurso. Não se trata de decifrá-la, mas de acompanhar os diferentes modos como ela nos atravessa: pelo silêncio antes da forma, pelo gesto que cria, pela palavra que se faz imagem, pelo rosto do outro que nos convoca. Sentir primeiro. Entender depois. Talvez nunca por completo e está certo que seja assim.

Fabiana Queiroga
Artista visual e pesquisadora baseada em São Paulo. Desenvolve uma prática que articula pintura, escultura, instalação e objeto, investigando as relações entre corpo, matéria e paisagem como campos de presença, permanência e transformação. Seu processo opera por procedimentos de coleta, repetição, desgaste e sobreposição, construindo obras que tensionam, delicadeza e ameaça, silêncio e excesso. Espinhos, raízes, resíduos e superfícies fragmentadas comparecem como extensões de uma pesquisa sobre território, pertencimento e memória compreendida não como arquivo fixo, mas como fenômeno instável inscrito na matéria e na experiência sensível. Formada em Artes Visuais pela UFG, com pós-graduação em Arte Contemporânea e pesquisa em filosofia, expôs no Brasil, Argentina, Portugal, Chile e Estados Unidos, com participações nas Bienais de Santiago e Lisboa



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