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A fome de vínculo

  • há 8 horas
  • 4 min de leitura

Há uma ideia contemporânea de autonomia que, levada ao extremo, produz uma estranha fantasia: a de que amadurecer significa precisar cada vez menos dos outros. Como se a independência afetiva fosse medida pela capacidade de não sentir falta, não demandar tanta presença, não depender emocionalmente de ninguém. Mas talvez nossa constituição psíquica diga justamente o contrário. Somos seres de relação e continuamos sendo, mesmo quando precisamos dos nossos contornos e espaço.


Relações e vínculos não são coisas que simplesmente existem. São intensamente investidos e cultivados. Precisam de presença, repetição, interesse e cuidado. Um vínculo não se sustenta apenas porque duas pessoas um dia se amaram, desejaram ou escolheram permanecer juntas; é preciso que alguma coisa continue circulando entre elas. Existe uma espécie de fome relacional que precisa ser atendida.


Somos animais sociais, mas há algo ainda mais radical na experiência humana. O ser humano não pode ser apenas alimentado. Não basta dar comida a um bebê para que ele se desenvolva psiquicamente. É preciso segurá-lo, olhá-lo, tocá-lo, responder ao seu choro, reconhecer seus estados e oferecer presença. Desde muito cedo, alimento e afeto aparecem profundamente entrelaçados.


Uma leitura Kleiniana permite compreender a profundidade dessa experiência. O bebê não se relaciona inicialmente com o mundo de maneira abstrata. Ele experimenta satisfação, ausência, frustração, prazer e angústia por meio de suas primeiras relações. O outro que alimenta é também aquele que acolhe, aparece, desaparece, frustra e retorna. É nesse circuito de cuidado, presença e ausência que começa a ser construído nosso mundo interno.


Há uma diferença importante entre dizer que temos relações e reconhecer que somos constituídos em relação. Muito daquilo que entendemos como identidade nasceu do encontro com outras pessoas. Aprendemos algo sobre nós a partir do olhar que recebemos, das palavras que nos foram dirigidas, dos corpos que nos acolheram e das ausências que tivemos de suportar.


O outro deixa marcas, e talvez seja justamente por isso que relações importantes sejam tão transformadoras e, ao mesmo tempo, tão perigosas para nossas defesas. Quanto mais alguém importa, maior é sua capacidade de produzir prazer, mas também frustração, ciúme, medo, raiva e abandono. O vínculo nunca é uma experiência inteiramente pacífica porque implica aceitar a dependência que temos de alguém que não controlamos.


Aqui novamente Klein é uma companhia interessante. Uma relação suficientemente profunda exige suportar uma descoberta difícil: o outro que amamos é também aquele que nos frustra. Não existe objeto inteiramente bom, perfeitamente adequado às nossas necessidades. Amadurecer afetivamente envolve conseguir integrar essas experiências sem transformar cada frustração em destruição do vínculo ou afastamento.


A pessoa que me oferece prazer é também aquela que às vezes não me compreende. Quem me acolhe também pode me decepcionar. Amar alguém é justamente quando conseguimos reconhecer a alteridade do outro e acreditar no vínculo pela profundidade.


Talvez por isso o encontro sexual possa ocupar um lugar tão particular nas relações humanas. Sexo não precisa ser apenas descarga, desempenho ou confirmação narcísica de que ainda somos desejáveis. Quando existe intimidade, ele pode funcionar como uma extraordinária forma de conhecimento do outro, permitindo um encontro com dimensões que dificilmente aparecem da mesma maneira na linguagem cotidiana.


Há partes de alguém que não conhecemos pela conversa. Conhecemos uma pessoa intelectualmente, socialmente, profissionalmente; sabemos suas opiniões, hábitos, medos e histórias. Mas o encontro erótico pode revelar outro território, porque o corpo possui uma linguagem própria feita de hesitações, entregas, recusas, fantasias, ritmos, vergonhas, desejos e maneiras de pedir.


Nesse sentido, o encontro sexual pode ser uma experiência potente de ligação: ligar-se a partes do outro que ainda desconhecíamos e, muitas vezes, encontrar partes de nós mesmos que também permaneciam desconhecidas. É isso que torna a intimidade tão fascinante. Não encontramos apenas um corpo; encontramos uma alteridade que continua escapando ao nosso conhecimento completo.


Uma das perguntas mais importantes de uma relação seja menos “ainda nos amamos?” e mais: ainda somos capazes de investir afetivamente no outro? Porque amar não é apenas experimentar um sentimento; implica uma ação psíquica, uma disponibilidade para sair de si, reconhecer a alteridade e assumir algum risco diante daquilo que não podemos controlar.


Nem todos, porém, dispõem dos mesmos recursos internos para esse investimento. Há pessoas que permanecem muito mais na posição de objeto da própria história do que de sujeito de seus desejos. São narrativas organizadas em torno daquilo que lhes aconteceu: “eu fiquei assim”, “eu sou assim”, “fui traumatizado”, “não quero mais me relacionar, pois o meu mundo do trabalho e profissional é mais importante”.


O sofrimento que sustenta essas afirmações pode ser absolutamente verdadeiro, mas ele também pode adquirir uma função defensiva muito empobrecida.


Nesse lugar, a experiência passada deixa de ser apenas uma marca e passa a funcionar como destino. O sujeito se protege da possibilidade de ser novamente ferido, mas, ao fazer isso, protege-se também da possibilidade de desejar, escolher e construir alguma coisa diferente.


Nossa pulsão de ligação precisa permanecer viva. Precisamos sempre do outro, mas precisamos que ele continue sendo outro. E talvez seja essa, ao mesmo tempo, a beleza e a dificuldade das relações: não somos autossuficientes, mas também não podemos exigir que alguém nos complete. Vivemos nesse intervalo, tentando sustentar vínculos sem apagar as diferenças.


Temos fome de vínculo, de reconhecimento, de cuidado, de sexo, de conversa e de muita presença. Temos necessidade de encontrar e sermos encontrados. Apesar de todas as nossas sofisticadas tentativas de independência, permanece algo profundamente humano e muito antigo: precisamos sentir que existe alguém do outro lado investindo na relação conosco.


Porque, para nós, humanos, viver não é apenas permanecer biologicamente vivos. É também construir circuitos de afeto e cuidado capazes de manter viva nossa possibilidade de ligação com o outro. Talvez amar contenha justamente esse pedido tão simples e, ao mesmo tempo, tão exigente: “cuida bem de mim”.


Cuidar e permitir-se ser cuidado, misturar alguma coisa de nós com aquilo que o outro traz, sem que nenhum dos dois precise desaparecer nessa mistura. Afinal, por mais que possamos compartilhar a vida, existem experiências que ninguém poderá viver em nosso lugar. Como lembra Nando Reis, “ninguém vai dormir nossos sonhos”. O vínculo talvez esteja exatamente aí: não em sonhar pelo outro, mas em construir intimidade suficiente para que dois sujeitos possam dividir a vida e a cama sem deixar de ser autores dos próprios sonhos.

Diógenes Carvalho é ator, advogado, professor universitário e pesquisador. Autor de vários livros. Psicanalista em formação. Inquieto, curioso e questionador, acredita no mergulho transformador da análise e no amor. Por aqui fala sobre vida real, desafios da existência humana e o contemporâneo.

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