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Quem decide quem tem carisma?

  • 10 de ago.
  • 3 min de leitura

Listas que classificam artistas como “sem carisma” dizem mais sobre os artistas ou sobre o olhar de quem os observa?

Existe uma tentação muito particular no jornalismo de entretenimento: transformar uma percepção em sentença.


Quem é o mais elegante. Quem é o mais influente. Quem está em alta. Quem envelheceu bem. Quem perdeu espaço. Quem deveria estar na televisão. E, agora, quem teria ou não carisma.


Uma lista recente publicada pela revista Veja reacende esse tipo de discussão ao colocar em evidência uma característica difícil de medir, mas fácil de reconhecer quando sentimos que ela existe: o carisma.


O problema começa justamente aí.

Porque carisma não é um número. Não existe uma escala capaz de determinar, com precisão, quanto uma pessoa é carismática. Não há uma régua para medir presença, magnetismo ou a capacidade de despertar identificação. Há, no máximo, percepção.

E percepção muda.


Um artista considerado magnético por uma geração pode parecer distante para outra. Uma pessoa que não provoca simpatia imediata pode conquistar o público justamente por sua personalidade mais contida. Há quem transforme o silêncio em presença. Há quem precise falar muito para ocupar um ambiente. Há quem seja celebrado pela espontaneidade e quem construa uma persona mais reservada.


Tudo isso também pode ser carisma.

Talvez o problema esteja em tratar uma característica tão subjetiva como se fosse um fato.


Quando uma publicação coloca artistas em uma lista de pessoas “sem carisma”, a discussão deixa de ser apenas sobre aqueles nomes. Ela passa a revelar também o olhar de quem está fazendo a seleção e, principalmente, o momento cultural em que essa seleção acontece.


O público mudou. A maneira de consumir celebridades mudou. As redes sociais transformaram a relação entre artista e espectador. Hoje, carisma pode nascer de uma entrevista, de um vídeo de poucos segundos, de uma reação espontânea ou até da capacidade de alguém não se comportar como esperamos.

Durante décadas, a televisão ajudou a definir quem tinha presença. O cinema criou seus próprios símbolos. A música construiu ídolos. A publicidade transformou rostos em personalidades. Agora, as redes sociais participam diariamente dessa construção.

É curioso, portanto, que ainda tentemos definir carisma como se ele fosse uma característica permanente.

Não é.


Carisma também é contexto.

Um ator pode não funcionar em determinado papel e ser extraordinário em outro. Um cantor pode não ter a personalidade expansiva esperada de uma estrela pop e, ainda assim, estabelecer uma conexão profunda com seu público. Uma celebridade pode parecer antipática em uma entrevista e extremamente interessante em outra.

Isso não significa que toda crítica seja injusta.

Artistas estão sujeitos à avaliação pública. O jornalismo cultural existe também para analisar, elogiar, questionar e, quando necessário, apontar problemas. O debate não deveria ser sobre a possibilidade de criticar alguém.


A questão é outra: quando uma opinião é apresentada como uma espécie de verdade definitiva, o que estamos fazendo?

Talvez listas de “sem carisma” digam menos sobre os artistas escolhidos do que imaginamos. Elas podem dizer muito sobre aquilo que esperamos de uma celebridade.


Queremos que ela seja simpática? Divertida? Espontânea? Bonita? Extrovertida? Disponível? Boa de entrevista? Engraçada nas redes? Queremos que ela pareça próxima, mas continue distante o suficiente para preservar o encanto?

A expectativa é enorme.

E contraditória.


O curioso é que alguns dos maiores nomes da cultura nunca foram necessariamente pessoas fáceis de gostar. Alguns eram discretos. Outros tinham personalidades difíceis. Alguns não faziam questão de agradar. Outros construíram justamente uma imagem baseada na distância.

Ainda assim, permaneceram.


Porque talvez carisma não seja simplesmente fazer alguém gostar de você.

Talvez seja fazer alguém prestar atenção.

E essa diferença muda bastante a conversa.

No fim, a pergunta que fica para nós, da VAM, não é quais artistas têm ou não carisma.


É outra: quem decidiu que carisma precisa parecer sempre do mesmo jeito? Talvez o verdadeiro debate não esteja na lista.

Esteja no nosso olhar.

E, em uma época em que todos parecem disputar atenção o tempo inteiro, talvez seja justamente isso que torne o assunto tão interessante.

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