A felicidade exige autoria
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Há uma frase de Marion Minerbo, em Notas sobre a aptidão à felicidade, da editora Blucher, que produz certo desconforto justamente porque desmonta uma ideia bastante romântica sobre o tema: “Todos querem ser felizes, mas nem todos têm o equipamento psíquico necessário para isso.”
A afirmação parece dura, mas a autora não está decretando quem pode ou não ser feliz. Ao contrário, ela nos convida a reconhecer os elementos do funcionamento psíquico que favorecem a felicidade e que parecem tão simples para alguns e tão complicados, ou mesmo inacessíveis, para outros.
Por isso, outra ideia do livro ficou especialmente comigo: a diferença entre escolher alguma coisa enquanto sujeito e fazer uma escolha assujeitado ao próprio sintoma.
À primeira vista, a diferença pode parecer pequena. Afinal, nos dois casos, somos nós que decidimos. Somos nós que ficamos ou vamos embora, que começamos ou terminamos, que insistimos ou desistimos, que escolhemos alguém, um trabalho, uma cidade, um caminho. Mas a psicanálise introduz uma pergunta desconfortável: quem, exatamente, está escolhendo quando eu escolho?
Há escolhas nas quais conseguimos comparecer como sujeitos. Reconhecemos nossos desejos, suportamos alguma ambivalência, aceitamos que toda escolha implica uma renúncia e, ainda assim, decidimos. Não porque temos certeza, mas porque conseguimos nos responsabilizar pelo caminho escolhido.
Em outras, temos a impressão de estar escolhendo quando, na verdade, estamos apenas obedecendo a alguma coisa que se repete dentro de nós. Mudam as circunstâncias, mas o roteiro parece estranhamente familiar. Escolhemos novamente aquilo que nos machuca, afastamos aquilo que desejamos, procuramos o indisponível e desconfiamos do que é tranquilo. A decisão parece nova; o sintoma é antigo.
Amadurecer tem menos a ver com aprender a fazer sempre as escolhas certas e mais com perceber de onde estamos escolhendo.
Isso vale para o amor, mas também para quase tudo. Há quem escolha um trabalho pelo desejo e quem o escolha apenas para continuar respondendo a uma expectativa que já nem sabe de quem é. Há quem permaneça numa relação porque deseja estar ali e quem permaneça porque não suporta a fantasia da perda. Há quem vá embora porque chegou ao próprio limite e quem vá embora sempre que a intimidade começa a exigir presença.
Liberdade, nesse sentido, não é fazer tudo aquilo que queremos. É conseguir distinguir, pelo menos algumas vezes, o que queremos daquilo que o nosso sintoma quer por nós. É justamente aí que a felicidade deixe de parecer um lugar ao qual finalmente chegaremos. Ela pode estar muito mais relacionada à possibilidade de nos tornarmos progressivamente autores da própria vida.
No fim, a conclusão é quase banal de tão simples: a vida nada mais é do que a sucessão das escolhas que fazemos todos os dias. Algumas enormes, outras aparentemente insignificantes. Escolher ficar. Escolher partir. Escolher responder. Escolher silenciar. Escolher tentar outra vez. Escolher não repetir.
Não controlamos tudo o que nos acontece. Mas há uma diferença imensa entre passar pela vida repetindo um roteiro sem perceber e começar, pouco a pouco, a reconhecer a própria assinatura nas escolhas que fazemos.
A aptidão à felicidade pode começar exatamente aí.

Diógenes Carvalho é Pós-Doutor em Psicologia e Direito. Doutor em Psicologia. Mestre em Direito. Pós-graduado em Psicanálise Clínica. Possui Diploma de Direito Europeu. Psicanalista em formação pelo Instituto Sedes Sapientiae. Professor Universitário. Advogado e Ator. Inquieto, curioso e questionador, acredita no mergulho transformador da análise e no amor. Por aqui, fala sobre vida real, desafios da existência humana e o contemporâneo.



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