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Artigo de Opinião: BBB26 e aquilo que escapa em cena

  • há 3 dias
  • 3 min de leitura

O BBB26 começou, como sempre, sob o signo da estratégia. Cada participante entra prometendo controle, inteligência emocional e leitura de jogo. Há quem estude edições anteriores, quem ensaie discursos (não é mesmo, Maxiane?) e quem construa um personagem antes mesmo de atravessar a porta da casa. O plano parece claro: administrar a própria imagem e conduzir a narrativa da forma mais racional possível. No entanto, por mais cálculo que exista, algo inevitavelmente escapa.


É justamente nesse ponto que o programa deixa de ser apenas entretenimento e se transforma em um verdadeiro experimento humano, porque ali se evidencia algo fundamental: o sujeito não coincide consigo mesmo. Na psicanálise, o inconsciente não é um depósito de memórias esquecidas, mas aquilo que se manifesta no deslize, no lapso, no ato falho, no esquecimento conveniente ou no sonho aparentemente banal. Freud já havia mostrado que esses “erros” não são acidentes, mas carregam uma verdade disfarçada. Lacan foi além ao afirmar que a verdade está no erro, precisamente no ponto em que o discurso falha e algo escapa ao domínio do eu.


O vexame, a palavra trocada, a frase que “não era bem isso” revelam que não somos senhores absolutos do que dizemos. Existe em nós uma instância que fala antes de nós mesmos, e é nesse intervalo entre o que se pretende dizer e o que efetivamente se diz que o sujeito aparece. Analisar é ir atrás desse chamado estranho-familiar, esse instante em que algo soa alheio e desconcertante, mas que, em um segundo momento, se reconhece como profundamente próprio.


Assistir ao BBB26 é observar o coletivo em movimento, acompanhando como narrativas morais se constroem em tempo real, como identificações se consolidam, como o público investe afetos e como o poder circula dentro e fora da casa. Mas é também testemunhar como o inconsciente organiza laços, pois as alianças não se formam apenas por estratégia racional. Elas se estabelecem por afinidades inconscientes, por repetições de padrões e por aquilo que se impõe como familiar, ainda que esse familiar conduza ao conflito.


É nesse cenário que figuras como Ana Paula Renault, Jonas, Milena, Maxiane e Cowboy deixam de ser apenas jogadores e passam a encarnar posições subjetivas. Ana Paula, com a contundência da palavra, revela como o discurso pode funcionar tanto como instrumento de poder quanto como lugar de exposição do desejo. Jonas, com toda a sua coerência estratégica e gentileza, evidencia que o cálculo e o treino fazem dele sempre na posição de liderança. Milena, ao administrar afetos, mostra que a tentativa de equilíbrio frequentemente encobre tensões internas. Maxiane, ao se explicar reiteradamente, deixa entrever que a justificativa excessiva pode ser uma forma de defesa. Cowboy, ao sustentar uma identidade quase mítica, encarna a força do personagem, mas também a fragilidade que surge quando a imagem começa a rachar.


Quando alguém foge de uma pergunta direta, dentro ou fora da casa, a interpretação imediata costuma ser a de manipulação consciente. No entanto, muitas vezes trata-se de um mecanismo de defesa automático. O inconsciente protege o ego de uma angústia que não se quer reconhecer. A esquiva não é apenas cálculo, é muito mais proteção psíquica. O sujeito evita a resposta porque responder implicaria tocar algo que ameaça sua imagem ou reatualiza uma repetição antiga.


Enquanto a ciência tende a tratar o erro como ruído a ser eliminado, a psicanálise o toma como via privilegiada de acesso à verdade do sujeito. O que escapa não é descartável, é revelador. O excesso não é simples temperamento, é formação de compromisso. A repetição não é coincidência, é estrutura.


Talvez seja por isso que o BBB26 nos captura de forma tão intensa. Não apenas pelo conflito ou pela disputa, mas porque ali vemos encenada uma verdade incômoda: ninguém controla completamente a própria narrativa. Por mais estratégia que exista, há sempre algo que se revela além do planejado, e no fim o sujeito acaba sendo aquilo que é, não aquilo que tentou parecer.

Diógenes Carvalho é ator, advogado e professor universitário. Pós-doutor em Direito e Psicologia. Doutor em Psicologia. Mestre em Direito. Psicanalista em formação pelo Sedes Sapientiae em São Paulo.

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