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Artigo de Opinião: A Escolha de Ficar - Intimidade, risco e continuidade

  • há 23 horas
  • 4 min de leitura

A intimidade não se constitui como um espaço de transparência total ou de conhecimento pleno do outro.

Não se trata de um lugar onde tudo é sabido, revelado ou dominado. Ao contrário, a intimidade é precisamente o espaço onde algo do desconhecido pode emergir. É menos um território de certezas e mais um campo de abertura.


Estar em intimidade com alguém não significa conhecer completamente o outro, mas poder sustentar, na presença dele, aquilo que ainda não se conhece de si. A relação íntima cria as condições para que partes inéditas do sujeito possam aparecer, ser experimentadas e, eventualmente, simbolizadas. Nesse sentido, a intimidade não é um ponto de chegada, mas um processo contínuo de vir a ser.


É nesse espaço que o sujeito pode se surpreender consigo mesmo. O outro, longe de ser apenas objeto de conhecimento, funciona como uma espécie de espelho deslocado, que não reflete o já sabido, mas convoca o novo, o ainda não formulado.


A intimidade, então, não é a fusão entre dois que tudo compartilham, mas a possibilidade de coexistência entre dois sujeitos que se autorizam a não saber tudo, nem sobre si, nem sobre o outro.


O encontro com o outro implica sempre o encontro com o desconhecido, com aquilo que escapa ao controle e que pode desorganizar certezas. Diante disso, muitos sujeitos preferem relações que não exigem esse tipo de implicação, evitando o risco de se afetar e de ser afetado.


Nesse cenário, surge uma questão central: como medimos o sucesso nas relações? A ansiedade dos primeiros encontros revela muito desse impasse. Ao conhecer alguém, não se trata apenas de interesse ou curiosidade, mas de uma série de perguntas silenciosas que atravessam o sujeito: como posso confiar nessa pessoa? O que ela fará com aquilo que eu sou? Como expor minhas vulnerabilidades?


Mais profundamente, o encontro com o outro convoca memórias e marcas de experiências anteriores. Surge o temor de reviver aquilo que faltou, aquilo que se desejou e não se pôde ter, ou os momentos em que se precisou de alguém e não havia ninguém disponível. O outro atual, ainda pouco conhecido, passa a ser atravessado por essas inscrições psíquicas, tornando o vínculo um campo onde passado e presente se entrelaçam.


A confiança, portanto, não se estabelece a partir de garantias, mas da possibilidade de sustentar esse risco. Não há como saber previamente se o outro não irá ferir, decepcionar ou se ausentar.


O que existe é a decisão, sempre parcial e provisória, de se implicar no vínculo. Por isso, a intimidade exige algo mais do que afinidade ou desejo. Exige a construção de um enlace. Um enlace que não é imediato, nem dado, mas que se tece na experiência compartilhada. É como se, para saber se é possível permanecer, fosse necessário, antes, aceitar se implicar nesse campo comum, e verificar, na prática, se ele sustenta o peso do encontro. Nada leve.


Podemos dizer, então, que somos íntimos não quando eliminamos as distâncias, mas quando conseguimos habitá-las sem angústia excessiva. A intimidade é o espaço onde podem surgir novas versões de nós mesmos, onde o sujeito pode se deslocar de posições rígidas e experimentar outras formas de existir. Há, nesse encontro, uma confiança fundamental, que não é a garantia de estabilidade, mas a possibilidade de ser.


Confiar, nesse contexto, é poder existir na presença do outro sem a necessidade constante de defesa ou de controle. É sustentar que algo pode surgir sem que isso represente ameaça imediata. É permitir-se existir sem a exigência de previsibilidade total.


A intimidade, portanto, exige cultivo. Não se trata de algo dado ou garantido pela proximidade, mas de um trabalho contínuo de sustentação do vínculo, de tolerância, de generosidade, de escuta, das gentilezas e da abertura ao inesperado. Cultivar a intimidade é cuidar de um campo em que o desconhecido não é eliminado, mas acolhido como condição da experiência de estar com alguém.


Há, no entanto, uma ideia que sempre me ocorre nesse campo e que me toca de forma particular. Em um tempo em que muitos querem viver algo, sentir algo, experimentar algo, parece haver uma dificuldade crescente em sustentar.


Deseja-se o encontro, mas não o processo que vem depois, aquele que exige permanência, elaboração e repetição. Nesse sentido, intimidade não é apenas encontrar alguém, mas decidir ficar diante do que não está resolvido, diante do que ainda não se compreende, diante do que incomoda.


Prefiro, portanto, uma outra posição. A de sempre tentar, sustentar e me dar a chance de acreditar na continuidade. Não porque haja garantias, mas justamente porque não há. Sustentar um vínculo é aceitar que ele não se esgota no primeiro entusiasmo nem se dissolve no primeiro desconforto. É dar tempo para que algo se construa, para que o enlace se fortaleça, para que o que ainda não tem forma possa, aos poucos, encontrar lugar.


Se a intimidade é esse espaço de vir a ser, ela só se realiza na continuidade. Não na repetição vazia, mas na insistência em seguir construindo, em não interromper ao primeiro sinal de incerteza. Em um cenário em que muitos querem ter e fazer, mas poucos conseguem sustentar, talvez a verdadeira experiência de intimidade esteja justamente nessa escolha de ficar.


E talvez seja justamente aí que o amor se coloque de forma mais radical. Não como um sentimento que acontece, mas como um ato. Um ato de sua vontade! Uma escolha. Um gesto contínuo de aposta na possibilidade de que, juntos, ainda possamos nos tornar algo que, sozinhos, não seríamos.


Diógenes Carvalho:

Pós-doutor em Direito do Consumidor pela UFGRS, em Direito Internacional pela USP e em Psicologia pela PUCGO, Doutor em Psicologia pela PUCGO, mestre em Direito pela UNIFRAN. Psicanalista em formação pelo SEDES Sapientiae, professor associado da UFG. Advogado e ator.

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