O caso do cachorro Orelha e o mal-estar que nos habita
- VAM Magazine

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O caso do cachorro Orelha, violentado até a morte por adolescentes, não pode ser lido apenas como um episódio isolado de crueldade ou como um desvio moral pontual daqueles adolescentes. Ele nos convoca a encarar algo muito mais incômodo: a agressividade como parte constitutiva da condição humana.

Em O mal-estar na civilização, Freud é direto. O ser humano não é naturalmente bom, cooperativo ou pacífico. Ao contrário, carrega em sua estrutura psíquica uma inclinação agressiva fundamental. Somos agressivos porque isso está inscrito em nossa constituição pulsional. A agressividade não é um acidente da cultura. Ela é anterior a ela. A civilização nasce justamente como tentativa de conter, desviar e domesticar essa força.
A psicanálise compreende a agressão como uma pulsão inata, frequentemente vinculada à pulsão de morte, à destrutividade, mas que não se reduz à violência pura. Trata-se de uma energia vital, ambígua e paradoxal. É a mesma força que permite ao sujeito se diferenciar e se afirmar no mundo. É ela que nos faz levantar da cama, disputar um lugar, desejar e criar. Sem agressividade, não há vida psíquica. Há inércia.
O problema, portanto, não é a existência da agressão, mas o destino que ela encontra. No caso do cachorro Orelha, o que se revela é algo mais grave do que um simples ato agressivo. Há indícios claros de uma estrutura perversa em funcionamento. A perversão, na leitura psicanalítica, não se define apenas pelo ato cruel, mas pela relação com o outro e com a lei. O perverso não reconhece limites. Ele não se submete à lei simbólica. Ele a recusa e, ao mesmo tempo, a impõe ao outro de forma absoluta e violenta.
O sofrimento do animal indefeso não aparece como algo a ser evitado, mas como fonte de prazer. É o gozo extraído da dor do outro que denuncia a perversão. Não há empatia, não há reconhecimento da falta e não há culpa. O outro sempre é um objeto de uso. Nesse ponto, o animal funciona como o alvo ideal. Vulnerável, sem linguagem, sem defesa e sem possibilidade de apelo simbólico.
Essa cena também revela uma falha anterior, muitas vezes silenciada. A falha na função de limite exercida pelos pais. A psicanálise nos ensina que o limite não nasce espontaneamente no sujeito. Ele é transmitido. É na experiência com a autoridade simbólica, com o não, com a frustração e com a responsabilização pelos próprios atos que a criança aprende que o desejo encontra fronteiras.
Quando os pais não exercem essa função, seja por negligência, permissividade excessiva ou recusa em frustrar, o que se instala não é liberdade, mas desamparo psíquico. O sujeito cresce sem referência de limite, sem internalização da lei e sem capacidade de reconhecer a alteridade. Nesses casos, a agressividade não encontra mediação simbólica e tende a se expressar em atos brutos.
A ausência de responsabilização é um ponto central. Não se trata apenas de punir, mas de ensinar que os atos têm consequências e que o sujeito é responsável pelo que faz. Quando os pais não conseguem sustentar essa posição, quando relativizam a gravidade do ato ou terceirizam a responsabilidade para a sociedade, para a escola ou para o Estado, reforçam a recusa do limite e a lógica perversa do gozo sem freio.
A civilização exige que a agressividade seja simbolizada, sublimada e redirecionada. Freud é claro ao afirmar que viver em sociedade implica renúncia pulsional. A cultura nos oferece caminhos para transformar essa energia agressiva em algo socialmente aceitável, como trabalho, criação, esporte, arte, pensamento e palavra. Quando esse trabalho falha, quando não há mediação simbólica suficiente, a agressão retorna em sua forma mais crua. A violência.
O que o caso revela, então, é também a incapacidade desses adolescentes de sublimar uma base pulsional que é comum a todos nós. Não se trata de negar a agressividade, o que seria ingênuo e perigoso, mas de reconhecer que ela exige elaboração. Sem isso, a pulsão não encontra destino simbólico e se converte em ato destrutivo.
Freud nos lembra que o mal-estar é inevitável. A cultura nunca vence completamente a pulsão. Sempre haverá restos, falhas e transbordamentos. Mas quando a sociedade falha sistematicamente em oferecer referências simbólicas, limites claros e possibilidades de sublimação, o preço aparece em atos como esse. Atos que nos chocam justamente porque escancaram aquilo que preferimos recalcar. A maldade possível em cada um de nós.
O caso do cachorro Orelha não fala apenas sobre aqueles adolescentes. Ele fala sobre os pais, sobre a falha na transmissão do limite, sobre a recusa da responsabilização e sobre uma cultura que confunde ausência de frustração com cuidado. Fala, sobretudo, sobre a urgência de recolocar a lei simbólica em cena. Não como autoritarismo, mas como condição mínima para que a agressividade, que é estrutural, não se transforme em violência sem limite.

Diógenes Carvalho: Pós- doutor em Direito e Psicologia, Doutor em Psicologia, Psicanalista em formação, professor universitário, advogado e ator



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