Artigo de opinião - Você gosta de namorar?
- VAM Magazine
- há 46 minutos
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Ontem, sentado à mesa do boteco Pirajá, na rua de Pinheiros, me deparei com uma pergunta simples, daquelas que parecem inofensivas, mas seguem ecoando depois do último gole: “Você gosta de namorar?”.
A pergunta veio de uma amiga, lançada sem muita cerimônia, como quem puxa assunto. Mas, naquele momento, fiquei genuinamente confuso.
Confuso porque já namorei por muitos anos. Estive em relações longas, intensas, nem sempre fáceis, algumas francamente pouco saudáveis. Ao mesmo tempo, também já segui adiante sozinho por alguns anos, de um jeito que reconheço como autêntico, fiel ao modo como sinto e vivo. Então, o que responder? Gostar de namorar parece algo óbvio… até deixar de ser.
Namorar é um verbo curioso. Ele carrega desejo, expectativa e fantasia, mas também medo, repetição e defesa. Quando alguém responde prontamente que gosta de namorar, talvez esteja falando do início, do brilho, da promessa, do reconhecimento no olhar do outro. Do momento em que algo parece finalmente fazer sentido. Mas a pergunta que fica é outra: gosta do encontro real ou da idealização que o antecede?
Há quem goste de estar em relação, mas não necessariamente de se relacionar. Gosta da posição de “estar com alguém”, do lugar simbólico que isso oferece, mas não do trabalho que a relação exige. Nesse caso, o namoro deixa de ser um espaço de troca e passa a funcionar como um palco onde se confirma algo já conhecido, um roteiro afetivo que se repete. A psicanálise chamaria isso de repetição. Não se busca o novo, mas o familiar, mesmo quando ele machuca.
O encontro amoroso, no entanto, tem uma característica inevitável: ele confronta. O outro não vem para nos completar. Vem para nos desorganizar um pouco. Vem mostrar limites, diferenças, falhas, nossas e dele. E é justamente aí que muitos recuam. Porque namorar exige sustentar frustrações, desencontros e a impossibilidade de fusão. Exige abrir mão da fantasia de completude. Não se trata apenas de química, mas de tolerar o fato de que o outro não é extensão do nosso desejo.
A pergunta “você gosta de namorar?” também escancara nossa relação com o tempo. Gostar de namorar implica tolerar o intervalo. O tempo entre uma mensagem e outra, entre um encontro e outro, entre o desejo e a resposta. Para alguns, esse intervalo é vivido como angústia insuportável. Para outros, como espaço de construção. Num mundo orientado pela urgência e pela resposta imediata, o intervalo vira ameaça. Mas é justamente nele que o desejo se sustenta. Onde não há falta, não há desejo.
Vivemos hoje um paradoxo. Estamos cada vez mais expostos e, ao mesmo tempo, cada vez mais protegidos. Sempre na melhor versão, cobertos por camadas de imagem, performance e visibilidade. A forma contemporânea de se relacionar passa, muitas vezes, pela exibição do ego. Mostrar-se, fazer-se ver, postar-se. Mas o que há de autenticamente desejante nisso? Como sustentar um vínculo se estamos mais preocupados em sermos vistos do que em nos implicarmos?
Talvez uma das grandes armadilhas do nosso tempo seja confundir desejo com validação. O outro deixa de ser um sujeito e passa a funcionar como espelho. E, quando ele falha nessa função, porque sempre falhará, o vínculo se rompe.
No fim, a provocação permanece aberta. Gostar de namorar é gostar do outro como ele é ou gostar do que o outro faz a gente sentir? A resposta talvez diga menos sobre o namoro em si e mais sobre como cada um lida com o desejo, com a falta e com o risco de se envolver. Porque namorar, no fundo, é aceitar que não há garantias. E, ainda assim, ficar.

Diógenes Carvalho é ator, advogado e professor universitário. Pós-doutor em Direito e Psicologia, doutor em Psicologia, mestre em Direito, pós-graduado em Psicanálise Clínica e tem diploma de Direito Europeu. Psicanalista em formação pelo Instituto Sedes Sapientiae em São Paulo.