Artigo de opinião: Você gosta de namorar? (Parte 2)
- VAM Magazine

- há 4 dias
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O primeiro texto foi escrito na correria. Literalmente. Um daqueles textos que nascem entre a cobrança do prazo do editor e um resto de afeto para ser organizado com cuidado. Confesso que não imaginei que ele provocaria tanta identificação. Vieram mensagens, directs, comentários longos, relatos pessoais, reações atravessadas. Algo ali tocou um ponto sensível, talvez menos sobre namorar e mais sobre o que fazemos quando a intimidade começa a pedir lugar.
Por isso, resolvi escrever uma parte dois. E também porque vivi uma experiência pessoal recente que me deixou pensativo. Um possível namoro, como diríamos há alguns anos. Ou, como escutei recentemente em algum podcast, um “quase algo”. Essa categoria estranha, elástica, que parece existir justamente para evitar qualquer nomeação mais precisa.
Sinceramente, não sei se meu autoengano anda imenso ou se estamos diante de uma cultura que evita sistematicamente qualquer fricção. Também não sei se as pessoas passaram a esperar um encaixe perfeito, imediato, quase industrial, expectativas que se alinham de bate e pronto, sem ruído, sem tropeço, sem resto.
O que sei é que as conversas parecem cada vez mais truncadas, quando não simplesmente evitadas. Sobretudo nas relações curtas, que ainda estão se iniciando. Há uma pressa estranha em não complicar, em não pesar, em não tocar no que pode gerar desconforto. Como se o menor atrito fosse sinal inequívoco de que não era isso.
Talvez estejamos diante de uma incapacidade coletiva de lidar com o desconforto natural que a intimidade do outro provoca. Porque o outro é sempre um outro. Não há intimidade sem frustração, sem desencontro, sem o susto de perceber que o desejo oscila. E ele oscila, especialmente no início. Mas diante da primeira oscilação, tão humana quanto inevitável, concluímos rápido demais que não vai rolar.
Se surgem ruídos, baixamos o volume. Ou somos calados. As conversas cessam, não porque não haveria o que dizer, mas porque dizer implica risco. O risco de frustrar, de ser frustrado, de não corresponder à fantasia que o outro construiu e, sobretudo, àquela que construímos sobre nós mesmos.
Costuma-se dizer que o problema é a falta de compromisso. Não estou certo disso. O que vejo com mais frequência é uma ausência radical de consideração. Uma dificuldade em sustentar o outro como sujeito, e não como objeto de expectativa. Uma espécie de covardia estruturante, não no sentido moral, mas psíquico. A covardia de sustentar a palavra, de atravessar o mal-estar olhando nos olhos, de dizer algo que não é agradável, mas é honesto e pode ser repensado, ajustado, reposicionado ou desidealizado.
Perdemos a capacidade de comunicar frustrações. E, com isso, perdemos também algo do próprio erotismo da relação. Porque Eros não vive de encaixes perfeitos. Ele vive do tropeço, das vulnerabilidades e do risco de não ser entendido e, mesmo assim, tudo bem.
Talvez não seja que ninguém mais goste de namorar. Talvez seja que namorar exija hoje algo que estamos desaprendendo. Tolerar o desconforto de existir para o outro sem a promessa de que tudo será leve o tempo todo e sem manuais, muito menos os astrológicos, que são comuns nesses inícios de relações.
Muitas vezes, fui rapidamente enquadrado em rótulos fáceis. O leonino intenso, exagerado, do holofote, autoritário ou controlador. Posso até ser algo disso. Mas também sei sustentar outra forma de presença, bem mais discreta no agir, com uma luz íntima e incandescente.
E isso, convenhamos, nAMORar dá um trabalho danado. E talvez nunca tenha sido mesmo para ser leve!

Diógenes Carvalho é do signo de leão com ascendente em sagitário. Lua em sagitário. Sol, Mercúrio, Vênus e Júpiter em leão. É colunista VAM Magazine, ator, advogado, professor universitário e estuda psicanálise.


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