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Por uma mente de bandeirante: a ética de Oxóssi

  • há 2 dias
  • 2 min de leitura

Há algo na mente que insiste em repetir o caminho mais fácil.

Como uma trilha batida na mata, as sinapses mais usadas se tornam vias expressas: rápidas, pavimentadas, confortáveis e seguras. Pensamos, sentimos e agimos por repetição.


É o conforto cognitivo. A decisão que não exige esforço. Aquela sustentada por frases prontas: “eu mereço”, “é o que dou conta”, “Deus quis assim”. Discursos que aliviam a responsabilidade e mantêm tudo como está.


Mas há um custo silencioso nisso.


Porque essas trilhas automáticas nem sempre nos levam a bons lugares. Comemos demais, procrastinamos, deixamos de investir ou investimos no que não se sustenta, nos perdemos em distrações. Não por falta de informação, mas por excesso de repetição.


A mente não busca o melhor. Busca o familiar.


Abrir uma nova trilha exige outra ética. E talvez seja aqui que Oxóssi se torne uma imagem potente.


Oxóssi é o caçador que entra na mata fechada. Ele não percorre caminhos já dados, ele os cria. Sua lógica é a do desconhecido. Ele observa, escuta e se encoraja. Seu gesto é econômico, mas nunca automático. Há intenção no movimento.


Diferente da via expressa da mente, rápida, previsível e condicionada, Oxóssi opera no território da incerteza. E o desconhecido exige presença. Não há piloto automático na mata. Há risco, há incerteza, há a necessidade de sustentar o vazio entre um passo e outro.


Uma mente de bandeirante, desbravadora, nesse sentido, não é aquela que apenas avança, mas aquela que suporta não saber. Que abre caminho sem garantias, sem pavimentação, sem atalhos. Que resiste à tentação de voltar para o que já é confortável.


Isso implica atravessar a angústia.


Porque sair do padrão antigo, das respostas prontas e das escolhas repetidas, desorganiza. Tira do controle. Expõe inseguranças, desmonta certezas, produz desconforto.


Reconhecer nossas limitações cognitivas, emocionais e sociais não é um fracasso. É o ponto de inflexão. É quando deixamos de operar apenas pela repetição e abrimos espaço para algo novo.


E o novo nunca vem pela via expressa.


Ele vem pela trilha que ainda não existe e que precisa ser aberta com atenção e, sobretudo, coragem.


Uma mente de bandeirante não elimina o medo. Não elimina a dúvida. Mas escolhe, ainda assim, prosseguir.


E talvez seja isso: não se trata de saber exatamente onde se vai chegar, mas de recusar a vida automática. De, como Oxóssi, sustentar o gesto de criar passagem onde antes havia apenas mata.


Porque é aí que algo diferente pode, enfim, acontecer.

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