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Artigo: É a coisa do jeito

  • há 2 dias
  • 2 min de leitura

Na cultura contemporânea, especialmente nas redes sociais, a beleza parece ter se deslocado de uma experiência subjetiva para uma superfície de exibição. O corpo, cada vez mais, torna-se imagem, um objeto que se apresenta, se organiza e se ajusta para o olhar do outro. Há uma passagem sutil, mas profunda, do sujeito para algo que se aproxima de um objeto de contemplação ou decoração, um corpo em forma, uma pele alinhada, um enquadramento bem pensado. Tudo parece responder a uma lógica de visibilidade.


Nesse cenário, ser, estar e parecer começam a se confundir. Estar bem com o corpo passa a ser quase uma exigência de felicidade, como se a imagem organizasse o sentimento, como se bastasse parecer bem para, de fato, estar bem. Mas essa equação não se sustenta por muito tempo, porque algo sempre escapa.


A beleza padrão funciona como repetição, quase como um checklist, proporções, formas, gestos e estilos que se reiteram até se tornarem previsíveis. E o que é previsível dificilmente captura de verdade. Pode impressionar, pode chamar atenção, mas não sustenta o desejo do outro.


É aqui que retorno a uma constatação simples, mas decisiva, o que chama atenção nas pessoas, em qualquer pessoa, é o jeito. Não é o arranjo perfeito, nem aquilo que já sabemos que deveria ser bonito. Há algo mais difícil de nomear e, justamente por isso, mais potente, um jeito de olhar, de acordar, de sorrir, de se mover no mundo. Algo que não se ensina e não se padroniza.


Há traços que parecem pertencer apenas a uma pessoa. E é isso que captura. Não passa pelo currículo, pelo discurso, pelo passado ou pelo futuro. Passa por uma espécie de marca singular, um modo próprio de dizer, de estar, de se relacionar. Algo que toca o outro por uma via que não é totalmente consciente.


Talvez por isso a beleza real não esteja no corpo que temos, mas no corpo que somos. Não há separação possível entre um e outro. O problema começa quando tratamos o corpo como algo externo, como um projeto a ser ajustado, corrigido ou apresentado. Nesse movimento, perde-se justamente aquilo que poderia nos diferenciar.


A beleza, no fundo, também é uma construção cultural. Roupas, estilos e códigos mudam com o tempo. Mas o que nos captura parece resistir a essas mudanças. Não é o padrão, nem o ideal. É o tal do jeito.


E talvez seja isso que mais surpreende, em meio a uma cultura que valoriza tanto a imagem, o que ainda nos marca profundamente não é aquilo que se vê de imediato, mas aquilo que escapa, o detalhe que não foi calculado, o gesto que não foi ensaiado, o jeito de ser que insiste em aparecer apesar de tudo.


É a coisa do jeito.

Diógenes Carvalho: Ator, Advogado, Professor Universitário e Psicanalista em formação.


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