Como medir o sucesso de uma relação?
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Talvez essa seja a pergunta mais silenciosa e mais urgente dos primeiros encontros. Ela não aparece sempre em palavras, mas se insinua nos gestos, nos intervalos, nas expectativas e fantasias: isso vai dar certo? Há algo que me garanta? Como saber se vale a pena ficar?
Não há garantia. Não há medida objetiva. Não há cálculo possível que antecipe o destino de um encontro. O amor é sempre tão inquietante quanto necessário.
E, mesmo assim, insistimos. Alguns recuam rápido diante do menor descompasso. Outros tentam sustentar. Eu prefiro aqueles que tentam, que permanecem, que se implicam quando faz sentido. Mas permanecer não é simples. Permanecer exige entrar no campo da intimidade. E intimidade não é um estado de aproximação ou observação, é um processo.
A intimidade é o lugar onde começamos a nos envolver e, ao mesmo tempo, a nos desenvolver. Ou talvez seja o contrário. Porque, ao nos envolvermos com o outro, algo em nós se desenvolve. E, nesse movimento, também nos desorganizamos. O outro, na sua alteridade, nos desloca. Nos mostra aquilo que ainda não conhecíamos sobre nós mesmos. Há algo de profundamente perturbador e, ao mesmo tempo, criativo nesse encontro com o diferente.
É como se, em cada nova relação, uma possibilidade inédita de nós mesmos fosse convocada. Uma versão que ainda não existia. Uma forma de ser que só se torna possível naquele encontro específico. Talvez por isso toda relação carregue algo do extraordinário vir a ser.
A intimidade, nesse sentido, não se mede pela proximidade constante, nem pela fusão. Ela se sustenta na possibilidade de confiar, de se deixar aparecer, de não precisar se proteger o tempo todo. Eu me sinto íntimo de quem me permite ser quem eu sou.
E é curioso perceber que, muitas vezes, uma relação começa a ganhar consistência quando deixa de ser harmônica. Quando algo falha. Quando as diferenças aparecem. Quando o mal-entendido se instala. É nesse momento que a fantasia de encaixe perfeito se rompe e a relação, de fato, começa a existir.
Porque o outro não está ali para coincidir conosco, mas para nos mostrar aquilo que não coincide. E é nesse desencontro que algo se constrói. Não há intimidade sem frustração. Sem o susto de perceber que o outro é outro. Que ele não responde como eu esperava. Que ele escapa.
Vivemos um tempo em que há uma dificuldade enorme em sustentar esse tipo de experiência. Queremos relações leves, sem atrito, sem exigência, sem combinados e sem nomes. Como se fosse possível amar sem se implicar.
Mas amar implica perda. Implica renunciar a certas certezas e de certas defesas. Implica trabalho. Um trabalho árduo e constante de reconhecer os próprios mecanismos, as armadilhas que cada um constrói para si mesmo para não se implicar demais.
Talvez o que mais nos afaste das relações não seja a falta de desejo, mas a dificuldade de sustentar o que o desejo exige. Estamos pouco acostumados ao esforço. Preferimos a satisfação imediata ao investimento prolongado. E, assim, vamos nos protegendo daquilo que poderia nos transformar.
Quantas vezes renunciamos a algo que poderia ser bom por medo das novas atribuições que isso possa a exigir? Isso acontece o tempo todo. Em pequenas coisas e em grandes vínculos. Evitamos aquilo que nos desloca, aquilo que exige presença, aquilo que nos tira do lugar confortável.
E, no entanto, é exatamente aí que algo acontece. No risco de não ser entendido. Na vulnerabilidade. Nos tropeços que revelam mais do que qualquer acerto. Há relações que começam a existir justamente quando aceitam não funcionar perfeitamente.
Talvez o sucesso de uma relação não esteja na ausência de conflitos, nem na promessa de estabilidade. Talvez esteja na capacidade de sustentar o laço. De permanecer mesmo quando não há garantias. De atravessar o desconforto sem abandonar o campo.
Porque uma relação não é sobre dois indivíduos isolados. Não é sobre o dois, mas sobre um terceiro elemento: a própria relação. É o espaço que se cria entre eles. Um espaço vivo, instável, atravessado por desejo, falta e diferença. É a tampa da panela com o bule de café. A metade da laranja com a fatia de abacaxi. E é esse espaço que pede cuidado.
Sustentar vínculos exige escolha. Exige comprometimento. Viver dá trabalho. Amar, regar amizades, reunir a família então... como cansa! E como é bom. Sempre nos exigirá deveres pesados seguidos de recompensas leves como contrapartida.
É justamente aí que algo verdadeiro se inscreve nas relações. Porque, no fim, não se trata apenas de dar certo. Trata-se de se envolver a ponto de, inevitavelmente, se des(envolver).

Diógenes Carvalho: Pós-doutor em Direito e em Psicologia, Doutor em Psicologia, Mestre em Direito, Diploma de Direito Europeu, Psicanalista em Formação, Professor Universitário, Advogado e Ator.



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