Entre ciência, comunicação e coragem: Guilherme Tavares e a construção de uma nova linguagem para a saúde mental
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Psicólogo, sexólogo e pesquisador em Neurociências, Guilherme Tavares transformou conhecimento, presença e autenticidade em pilares de uma trajetória que desafia os caminhos tradicionais da Psicologia contemporânea.

Existe uma parte da carreira em saúde mental sobre a qual pouco se fala: o vazio do começo.
A formação termina, o diploma chega, mas a agenda ainda está longe de cheia. Entre expectativas altas, insegurança silenciosa e a realidade do trabalho autônomo, muitos profissionais descobrem rapidamente que conhecimento técnico, sozinho, nem sempre basta.
Guilherme Tavares conhece bem esse percurso.
Natural de uma pequena cidade do interior do Rio Grande do Sul, com pouco mais de 11 mil habitantes, ele construiu uma trajetória pouco linear e, talvez justamente por isso, profundamente contemporânea. Formado em Psicologia, com pós graduação em Sexologia e atualmente pós graduando em Neurociências pelo Mackenzie, encontrou na intersecção entre ciência, comportamento e comunicação um caminho próprio dentro da clínica.
Curiosamente, foi antes mesmo do consultório que algumas das habilidades mais importantes da sua atuação começaram a ser desenvolvidas. O trabalho como modelo, responsável por trazê lo para São Paulo, não representou apenas uma mudança geográfica. Sem planejamento consciente, tornou se uma espécie de treinamento intensivo sobre exposição, comunicação e relação com o julgamento externo, aprendizados que mais tarde atravessariam sua prática clínica.
Mas a construção da carreira não aconteceu em velocidade instantânea. Como muitos recém formados, Guilherme enfrentou a realidade desafiadora da Psicologia autônoma: poucas oportunidades, remunerações iniciais limitadas e o trabalho quase artesanal de conquistar espaço profissional, paciente por paciente. Foi nesse cenário que duas convicções começaram a ganhar força: estudar profundamente e aprender a se comunicar com verdade.
Ao aprofundar se em Sexologia, motivado pela percepção de que a sexualidade ainda permanece cercada por repressões, desinformação e desconfortos sociais, encontrou um campo capaz de integrar aquilo que mais o mobilizava: saúde mental, comportamento humano, neurociência e liberdade subjetiva.
Hoje, seu trabalho propõe uma leitura menos fragmentada da experiência humana. Prazer, cérebro, emoção e autoconhecimento não aparecem como assuntos separados, mas como dimensões inseparáveis da saúde psicológica. Paralelamente, as redes sociais se tornaram uma extensão inesperada desse processo. Sem fórmulas elaboradas, seu crescimento digital começou de maneira simples: caixas de perguntas.
O formato espontâneo abriu espaço para que seguidores trouxessem dúvidas difíceis, traumas silenciosos e questões ligadas à sexualidade, temas que muitas vezes não encontram ambiente seguro no cotidiano. A troca cresceu. Vieram mais seguidores, convites para podcasts, palestras em universidades e participações na televisão.
Experiências distintas, mas atravessadas por um elemento comum: a necessidade de sustentar conhecimento com clareza, preparo e presença. Hoje, com público consolidado, agenda cheia e atuação ampliada entre clínica, educação e comunicação, Guilherme não romantiza o início, mas reconhece com precisão o que sustentou sua construção: consistência, estudo, gestão da ansiedade e tempo.
Em entrevista à VAM MAGAZINE, Guilherme Tavares fala sobre empreendedorismo na Psicologia, sexualidade, construção de autoridade, comunicação digital e os desafios reais de transformar conhecimento em impacto.

Em que momento você percebeu que comunicar bem não era apenas uma habilidade complementar, mas uma ferramenta central da sua profissão? Quando percebi que psicologia não é só o que eu sei, é o que o outro entende. Eu posso ter a melhor formação, mas se não comunicar de forma clara, prática e acessível, nada chega às pessoas. A virada de chave foi perceber que comunicar bem não é bônus, é parte do atendimento, da prevenção, da psicoeducação e até do acolhimento. É uma ferramenta clínica.
Sua atuação conecta sexualidade, neurociência e saúde mental. O que essa integração revela sobre a forma como ainda entendemos — ou limitamos — o bem-estar humano? Revela que a gente ainda fala de ser humano em caixinhas separadas. Como se sexualidade fosse só cama, neurociência fosse só cérebro e saúde mental fosse só emoção. Quando você integra tudo, entende que prazer, comportamento, hormônios, crenças e relacionamentos formam um sistema único. O bem-estar não é fragmentado — a gente que fragmenta para tentar simplificar o que é complexo.

As redes sociais se tornaram um espaço importante da sua trajetória. Como transformar a comunicação digital em educação sem perder profundidade? Respeitando a inteligência do público. O segredo não é simplificar demais, é traduzir. Eu tento pegar temas densos e tornar práticos, diretos e úteis. A pessoa tem que ler um conteúdo e pensar: isso me ajuda hoje.A profundidade está na intenção e na responsabilidade. Eu posso falar leve, com humor, com proximidade mas sem perder técnica.
Depois de viver a ansiedade do começo e alcançar uma agenda consolidada, qual verdade sobre crescimento profissional você gostaria que mais profissionais soubessem? Que crescer dói menos do que ficar parado. No início eu tive medo de errar, de me expor, de não ser “bom o bastante" Quando entendi que a carreira é construída na prática — e não no imaginário de perfeição tudo mudou. Crescimento vem da repetição, do estudo contínuo e da coragem de aparecer. Não é sorte: é constância.
Você fala frequentemente sobre autenticidade. Em um mundo cada vez mais voltado para performance e validação externa, qual é o impacto psicológico de viver tentando corresponder às expectativas dos outros? A autenticidade é um dos pilares da saúde mental. Vivemos em uma sociedade marcada pela performance, pela comparação constante e pela busca incessante de aprovação externa. O custo psicológico de tentar corresponder às expectativas dos outros pode ser significativo, gerando ansiedade, baixa autoestima, sensação de inadequação e, em muitos casos, um profundo afastamento da própria identidade. Quando alguém passa grande parte da vida tentando ser aquilo que os outros esperam, acaba se desconectando dos próprios valores, desejos e necessidades. No consultório, encontro frequentemente pessoas emocionalmente exaustas por sustentarem versões de si mesmas que não refletem quem realmente são. Ser autêntico não significa agradar a todos, mas ter coragem de viver de forma coerente com a própria essência.
A sexualidade ainda é um dos temas mais cercados por tabus no Brasil. Quais são os equívocos mais comuns que você encontra tanto em consultório quanto nas redes sociais? A sexualidade continua cercada por mitos, preconceitos e desinformação. Um dos equívocos mais recorrentes é a ideia de que existe uma maneira “correta” ou “normal” de viver a sexualidade, e que qualquer experiência fora desse padrão representa um problema. Também observo muitas crenças distorcidas sobre desejo sexual, desempenho, orientação sexual e relacionamentos. Nas redes sociais, a simplificação excessiva de temas complexos frequentemente cria expectativas irreais e alimenta inseguranças. A sexualidade humana é diversa, subjetiva e influenciada por fatores biológicos, psicológicos, sociais e culturais. Por isso, promover informação de qualidade é essencial para reduzir preconceitos, ampliar o conhecimento e favorecer o bem-estar.

A Inteligência Artificial, a hiperconectividade e as novas formas de relacionamento estão transformando o comportamento humano. Como você enxerga o impacto dessas mudanças na saúde mental das próximas gerações? A Inteligência Artificial, a hiperconectividade e as novas dinâmicas de relacionamento estão remodelando a forma como nos comunicamos, construímos vínculos e percebemos a nós mesmos. Embora essas transformações tragam benefícios importantes, como maior acesso à informação e novas possibilidades de conexão, também apresentam desafios relevantes para a saúde mental. As próximas gerações provavelmente enfrentarão níveis ainda mais elevados de estímulo constante, comparação social e dificuldade em estabelecer limites entre o mundo digital e a vida offline. Além disso, a velocidade dessas mudanças pode impactar diretamente a construção da identidade, a qualidade dos relacionamentos e a capacidade de lidar com frustrações. Acredito que o grande desafio será desenvolver competências emocionais que permitam utilizar a tecnologia de maneira saudável, preservando aspectos fundamentais da experiência humana, como presença, intimidade e conexão genuína.
Quando olha para os próximos anos da sua carreira, quais projetos, pesquisas ou causas você considera mais importantes para ampliar o acesso à informação de qualidade sobre saúde mental e sexualidade? Nos próximos anos, minha principal prioridade é ampliar o acesso a conteúdos baseados em evidências científicas sobre saúde mental e sexualidade. Pretendo continuar investindo na produção de informação acessível, responsável e fundamentada, tanto por meio das redes sociais quanto em iniciativas educacionais e projetos de divulgação científica. Também tenho interesse em desenvolver ações que aproximem a psicologia e a sexologia da população, contribuindo para a redução de estigmas e facilitando o acesso ao conhecimento. Acredito que informação de qualidade tem um papel transformador não apenas na prevenção do sofrimento psicológico, mas também na construção de relações mais saudáveis, conscientes e respeitosas.
