Fabiana Queiroga entre matéria, paisagem e transformação
Artista visual brasileira participa da 3ª Bienal de Joalharia Contemporânea de Lisboa e realiza residência na Verso Galeria

Entre setembro e outubro, Lisboa será território de apresentação e pesquisa para Fabiana Queiroga. A artista visual brasileira integra a 3ª Bienal de Joalharia Contemporânea de Lisboa e, na sequência, realiza a residência “Fraturas e Acúleos em Lisboa”, na Verso Galeria, em Campo de Ourique.
Sua pesquisa parte de elementos da natureza, especialmente espinhos, acúleos, estruturas vegetais e fragmentos, para investigar relações entre corpo, paisagem, resistência e transformação.
Com o tema “Coexistências”, a Bienal acontece entre 19 e 27 de setembro e reúne artistas de diferentes países em torno das relações entre ser humano, matéria e ecologia. Depois da exposição, Fabiana permanece em Lisboa até 25 de outubro, desenvolvendo um novo trabalho que reúne escultura, aquarela, fotografia e instalação. Os resultados serão apresentados ao público entre 26 e 31 de outubro, na Verso Galeria.
Em conversa com Fabiana Queiroga

Sua pesquisa parte frequentemente de elementos da natureza, como espinhos, estruturas vegetais e fragmentos. O que eles revelam sobre sua relação com o corpo e a ideia de resistência? A natureza nunca aparece no meu trabalho apenas como representação. Ela é uma maneira de pensar o corpo, o território, o tempo e as formas de existir.
Os acúleos carregam uma ambiguidade que me interessa muito. São estruturas de proteção, mas também estabelecem limites e distâncias. Existe neles uma tensão entre aproximação e afastamento, fragilidade e resistência, desejo e defesa.
Quando trago essas estruturas para o trabalho, elas começam a se aproximar do corpo. Penso a paisagem quase como uma extensão da pele, algo que guarda marcas, sofre transformações e cria mecanismos de proteção.
O que significa participar da Bienal e, logo depois, entrar em um período dedicado à pesquisa em Lisboa? Acho muito potente viver essas duas situações quase simultaneamente. A Bienal é um momento de apresentação, enquanto a residência é o espaço da dúvida, da experiência e daquilo que ainda não tem uma forma definida.
Gosto particularmente dessa passagem entre mostrar e voltar a não saber.
Não quero que a residência seja apenas uma continuidade do que já faço. Quero permitir que a cidade, os encontros, os materiais e a experiência cotidiana interfiram na pesquisa.
“Fraturas e Acúleos em Lisboa” sugere ruptura e resistência. Como uma nova paisagem pode deslocar sua pesquisa? Fraturas e acúleos são duas imagens que atravessam minha pesquisa há algum tempo. A fratura fala de uma ruptura, mas também da possibilidade de reorganização. O acúleo é uma estrutura de defesa.
Chegar a outro território inevitavelmente desloca essas ideias. Interessa-me perceber outras espécies, superfícies, pedras, vegetações e arquiteturas.
Também existe uma espécie de território invisível entre Brasil e Portugal, formado por séculos de deslocamentos, exploração, trocas e transformações culturais. A colonização produziu marcas profundas nos corpos, na paisagem, na língua e na maneira como construímos nossas identidades.
Não quero chegar a Lisboa com respostas prontas sobre essa relação. Quero me colocar diante dela.
Você transita entre escultura, aquarela, fotografia e instalação. O que determina a escolha de uma linguagem? Eu não parto da necessidade de produzir uma escultura, uma pintura ou uma fotografia. Normalmente parto de uma questão, de uma imagem, de uma matéria ou de uma sensação que insiste. A linguagem aparece depois.
Cada material tem uma forma própria de pensar. O metal traz tensão, peso e resistência. A aquarela trabalha com transparência, água e imprevisibilidade. A fotografia me permite capturar aquilo que talvez desapareça. A instalação cria uma relação mais direta entre obra, corpo e espaço.
Para essa residência, mais do que produzir um conjunto fechado de obras, quero criar condições para que algo ainda desconhecido apareça.
Talvez o que eu mais queira descobrir seja justamente aquilo que hoje não consigo antecipar: o que permanece da minha pesquisa quando a paisagem muda e o que precisa se transformar para que ela continue viva.




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