LENNA BAHULE: UMA VOZ ENTRE MEMÓRIAS, CORPOS E FUTUROS
Há vozes que não chegam apenas aos ouvidos. Elas atravessam o corpo, despertam memórias e nos lembram de histórias que continuam vivas muito antes de serem registradas.

É nesse território que Lenna Bahule constrói sua música. Nascida em Maputo, Moçambique, e vivendo há 14 anos no Brasil, a artista transforma canto, corpo, ritmo, silêncio e movimento em uma linguagem que não reconhece fronteiras rígidas. Sua obra nasce da ancestralidade, mas não permanece no passado: olha para o presente e, sobretudo, para aquilo que estamos deixando como memória para o futuro.
Em junho de 2025, ao levar sua banda brasileira para Moçambique para apresentar o álbum Kumlango, Lenna realizou um sonho que carregava havia mais de uma década. Mais do que um retorno à terra onde nasceu, aquele encontro marcou uma mudança de perspectiva: a possibilidade de se reconhecer não apenas por uma nacionalidade, mas pelas memórias, experiências e conexões que atravessam sua existência.
Nesta conversa com a VAM Magazine, Lenna fala sobre tradição oral, identidade, ancestralidade, espiritualidade, o corpo como extensão da voz, as relações entre África e Brasil e os desafios para que artistas africanos ocupem espaços de protagonismo sem serem reduzidos às lógicas de consumo do mercado cultural.
Mas talvez o que atravesse toda a entrevista seja uma pergunta ainda maior: o que estamos fazendo com as memórias que recebemos — e quais delas estamos criando para quem virá depois?
Lenna não oferece respostas simples. Sua fala é inquieta, crítica e profundamente conectada à experiência de viver a arte como presença. Uma artista que prefere a memória viva ao monumento, o encontro ao registro isolado e a música como um campo permanente de transformação.
“Que som que te chama hoje?”, pergunta ela.
É a partir dessa escuta que começa esta conversa.
Se quiser, posso também fazer uma versão mais sofisticada e “abertura de capa”, com mais impacto literário e menos explicativa, para combinar ainda mais com o posicionamento da VAM.

Lenna. Você nasceu em Maputo e hoje constrói sua trajetória entre Moçambique e o Brasil. Em que momento percebeu que não carregava apenas uma nacionalidade, mas a responsabilidade de representar uma memória coletiva? Hum, difícil definir o momento exato em que essa consciência se tornou presente. Mas se eu pudesse marcar no tempo um momento que definitivamente carrega uma marca relevante nessa trajetória transatlântica, seria : o momento em que cantei a ultima música no dia do 2o show que fizemos em Maputo, do lançamento meu recente trabalho, Kumlango. Nós produzimos esses concertos na raça, com muito custo e força de vontade, 2 shows de apresentação desse disco com a minha banda brasileira numa sala icônica da cidade que estava abandonada. Enfim… tinha toda uma simbologia nesse feito e foi épico e memorável.
Recebi muito carinho do público. Por mais de 10 anos, foi um sonho, um dia poder levar os meus colegas, músicos brasileiros com quem caminho há cerca de 12 anos no fazer musical, do Brasil para Moçambique. E em Junho de 2025 finalmente conseguimos realizar esse sonho.
Com investimento próprio, que não é o ideal mas foi o possível para que nesse momento eu me permitisse a partir dali, aliviar o peso de não estar “devendo” um retorno à minha comunidade. Sinto que ter realizado esse show, me libertou para poder me ver como uma artista internacional que caminha pelo mundo se enraizando em memórias e não em nacionalidade, como você colocou. Foi importante ver a forma como o público , que era bastante diversificado e eclético, se identificou com esse som que transcende a moçambicanidade , onde eu me permiti ir além fronteiras, em busca de interseccionalidade cultural, Ali sim, eu me vi além da minha bandeira moçambicana. E ali finalmente, eu me permiti ocupar esse lugar.
Sua música frequentemente faz parte da tradição oral. Em uma época em que tudo parece precisar ser registrado, qual é o valor daquilo que continua sendo transmitido apenas pela voz, pelo corpo e pelo encontro? Acho que justamente a noção de memória como um patrimônio vivo que sempre vai se atualizando nos corpos de quem a guarda. Isso é dar continuidade a história. Quando reduzimos tudo à uma simples gravação, ou registro, ela fica marcada no tempo e no espaço. Ela é um dado. Quem vai dar vida a esse dado é quem está se propondo a romper a janela do tempo… dependendo de onde vem a busca de quem procura esses registros, os mesmos podem se dissolver em estéticas que contam ou matam a história. Vejo bastante importância no registro. É trilha, é traço, é caminho… Porém, a possibilidade de num processo de transmissão de saberes e vivências, conseguir manter preservada a essência de uma memória, nos coloca como protagonistas de uma narrativa e de firmamento de identidade. Essa noção é o que faz com que minha música tenha tantos elementos até educativos. Um convite para escutar a música com curiosidade.
Muitas vezes o Ocidente olha para a África como um lugar homogêneo. Lenna: O que ainda é profundamente mal compreendido sobre Moçambique e sobre a riqueza cultural do continente africano? Hum, eu acho que tem uma camada que é de desconhecimento geral, embora isso já tenha mudado um tanto de 6 anos pra cá. Acho que os estreitamentos culturais entre os países estão contribuindo para criar mais proximidade dos brasileiros com a cultura.
Mas tem o fato de que Moçambique é um país, que ao meu ver, não se exporta culturalmente. E imagino que isso se dá pela falta de um compromisso sistematizado e institucionalizado de investimento na própria criação e preservação da cultura viva. Infelizmente, tem uma boa parte da visão dos fazedores e dos difusores de cultura que lidam com a mesma como se fosse apenas entretenimento. E precisamente, por existir um limite de alcance nesse tipo de visão, parece tornar-se difícil fazer chegar informações mais aprofundadas e identitárias do país ao Brasil, por exemplo.
Hoje, preciso dar crédito aos comunicadores, pesquisadores, artistas e influencers, brasileiros e africanos estabelecidos no Brasil , no continente africano e pelo mundo, que comunicam direto com o público brasileiro, por contribuírem para que uma série de narrativas vazias deixem de ser perpetuadas sobre os países africanos.
A voz como instrumento de existência
Você costuma transformar a voz em ritmo, respiração, silêncio e movimento. Em que momento a voz deixou de ser apenas um instrumento musical para se tornar uma forma de pensamento? Hum, eu não sinto a minha voz como pensamento. Eu sinto ela como vivência. O pensamento condiciona, a vivência, expande o presente, abre possibilidades para o encontro e a surpresa. Tem transformação e fluxo. É a vida em seu caminhar consciente. É assim que eu sinto o meu canto tendo minha voz como aliada.
Não consigo entender um momento exato em que meu canto passou a existir dessa forma, Nunca pensei sobre… Mas vivo ele se transformando todo o dia, assim como a minha vida.
E existe uma diferença entre cantar para emocionar e cantar para preservar uma cultura? Como essas duas dimensões convivem na sua obra? A minha cultura me emociona profundamente. E é essa emoção que eu levo para o meu canto. Impossível dissociar. Se algum dia a conexão entre essas percepções cai, eu simplesmente contemplo o silêncio e espero ela restabelecer. Não tem outro jeito. Não há separação entre emoção e o fazer cultural na minha experiência de música.
Assim são todas minhas músicas e interpretações de temas tradicionais e autorais, e que carregam símbolos sonoros culturais. A minha obra é precisamente o resultado desse envolvimento.
6Em suas apresentações, o corpo parece ocupar o mesmo protagonismo da voz. O que o corpo revela que as palavras nunca conseguem traduzir? Bom, o som é a expansão do movimento. Está aqui uma particularidade que eu mais gosto da música: o seu movimento multidimensional. Com esse entendimento, tudo é mensagem, tudo é experiência, tudo é obra.
Uma dança constante entre o visível e o invisível. A gente não vê o som, mas ele é tão concreto quanto o ar que respiramos. E ele está omnipresente.
Eu gosto de brincar sobre as hipóteses sinestésicas do som, e o não dito carrega tanta mensagem quanto o som expresso. O corpo é o guardião da voz e nele, ela está contida. Nele, está toda a mensagem dita, ainda que pelo som da voz, “nada” tenha sido expresso.
Esse invisível prepara o campo sinestésico onde a voz vai repousar e/ou se expandir. Esse corpo que canta, está vivo e se move em fluxo criativo carregando toda a mensagem que antecede e ao mesmo tempo complementa a voz que cantada.
Cada som tem seu movimento, seu espectro e sua geometria. Por isso o corpo se expressa de formas diferentes a partir do que precisa ser cantado.
Resumindo, o corpo revela tudo o que precisa ser expresso.
Suas composições dialogam com a ancestralidade sem transformá-la em um conceito distante ou folclórico. O que significa viver a ancestralidade no presente? Para mim, significa se compreender co-criador de memórias do futuro. Nós somos os ancestrais do futuro, e a pergunta mais importante a se fazer neste momento atual, é: que rastro eu estou deixando? Quais memórias estou criando? Para mim e para quem vem depois de mim.
Essa é uma pergunta que se feita todos os dias de forma presente, irá trazer muitas respostas necessárias sobre o passado para compreendermos a trilha para o futuro.
Nas minhas criações eu brinco muito com a ideia de atemporalidade. O passado, o presente e o futuro andam sempre juntos nas utopias sonoras que eu crio. Me alimenta a ideia de pensar que existe, em alguma esfera, um tempo mais elástico, mas amplo, mais englobador que permite que múltiplas noções possam coexistir.
Lenna, você acredita que a arte pode funcionar como uma forma de cura coletiva? Há alguma experiência que tenha transformado sua percepção sobre esse poder da música? Sim. acredito veementemente. Vivo isso no meu dia a dia. Sou curada pela arte no meu dia a dia. E meu trabalho me devolve bastante da cura que eu intenciono para quem me ouve… Através de como eu me transformo executando ele, e também de como as pessoas que entram em contato com o meu trabalho relatam se sentir. No show, em casa, nas aulas, nas ruas… etc.
Não consigo lembrar de uma experiência específica, pois realmente essa é uma realidade que compõe boa parte da minha vida. Sou grata por viver desse lado da lente do mundo. :)
Se pudesse conversar hoje com uma ancestral da sua família, qual pergunta faria e qual acredita que seria a resposta mais importante para sua trajetória? Eu gosto de misticismo e magia, e minha bisavó paterna foi a curandeira da vila de Pembe, no distrito de Inharrime, província de Inhambane. Tenho tantas perguntas… hahaha… Sou uma mulher inquieta.
Mas talvez uma pergunta que eu faria seria:
Como encontrar liberdade no teu corpo, num mundo cheio de dinâmicas de opressão masculina em cima dos corpos das mulheres?
Uma potencial resposta que tenho quase a certeza que ela diria seria:
exploda com todos eles. eles não valem nada e não merecem a nossa luta. hahahahaha
De acordo com relatos familiares, minha bisavó era rebelde.
Depois de viver tantos anos no Brasil, quais semelhanças e diferenças mais te emocionam entre as culturas afro-brasileiras e as tradições moçambicanas, Lenna? Acho que a forma com as pessoas lidam com o sagrado e o profano no Brasil. Obviamente que as similitudes todas se encontram mais nas práticas, hábitos e fazeres de pessoas negras que é nelas onde está a minha identificação afrodiaspórica descendente. Então algumas semelhanças e diferenças estão nas práticas ligadas à espiritualidade.
Claro que hoje, 14 anos depois, esse leque de semelhanças e diferenças se transformou, muito pelo movimento negro e similares de buscar formas de se aproximar cada vez mais do continente numa busca por conhecer a identidade e a origem. Então, com isso vão surgindo novos elementos culturais que enriquecem essas trocas.
Ai, vai desde os tambores, as comidas, as formas de rezar, etc… embora é importante salientar que boa parte das similitudes entre Moçambique e Brasil são as que compartilhamos como herança colonial. Pois durante a escravidão, veio uma leva muito pouca de moçambicanos para o Brasil e isso aconteceu um pouco mais tardiamente na linha do tempo do trafego de escravos.
Mas há muitas convergências que acabou levando para o meu processo criativo.
Ainda existe uma grande distância entre a produção artística africana e o espaço que ela ocupa no mercado cultural internacional. O que precisa mudar para que artistas africanos sejam vistos como protagonistas e não apenas convidados de uma narrativa global? Essa é uma pergunta que tem várias respostas e que não respostas simples e fáceis de articular. Mas vou tentar pincelar alguns olhares. :)
O imperialismo é o projeto mais bem sucedido da atualidade. Porque desde que ele foi criado, que o mundo inteiro opera sobre ele. Ele é basicamente financiado pelo saqueamento e apropriação de culturas e pela imperialização das raças e culturas.
É conveniente para este sistema que exista uma espécie de hierarquia cultural por tudo o que sustenta e fundamenta a lógica do sistema em si.
Então, ao meu ver, ainda que pareça que as produções artísticas africanas estejam sim ganhando um espaço internacional, elas circulam dentro de uma lógica de consumo que favorece a essa dinâmica de hierarquia cultural. Os artistas africanos bem sucedidos, são os que estão bem inseridos no sistema, atendem aos discursos e narrativas desse sistema e usam as estéticas de consumo desse sistema.
A meu ver, não sei o quanto que isso pode ser entendido como protagonismo ou como manipulação mercadológica. Quem é que está na linha de frente da narrativa da história da música africana??
Sem contar que boa parte da história da música africana é de luta e de resiliência contra o imperialismo.
Hoje, parece que ele venceu pois menos artistas estão fazendo frente a ele artisticamente. Porém a geração de 80/90 é pioneira na abertura de caminhos para artistas como eu, hoje possam sequer cogitar “ascender” artisticamente.
Este é um diálogo complexo e longo e que vale muitos olhares sobre ele.
Você transita entre festivais, universidades, oficinas e grandes palcos. Em qual desses espaços acredita que acontecem as conversas mais transformadoras? Eu acho que em todos eles. Eu sou uma artista que valoriza muito as trocas verdadeiras e profundas, sempre que me coloco à serviço da vida.
Receber o feedback do público depois de um show é muito enriquecedor. Gosto ver o rosto das pessoas depois do show. Sinto que a transformação é coletiva.
O mesmo para os encontros mais interativos, aprecio muito a viagem que construímos juntos durante o estudo e o aprofundamento das práticas musicais. São momentos igualmente transformadores de forma recíproca. Assim como o feedback que recebo sobre a minha música. Difícil favoritar algum deles, hahaha.
Lenna, em um mundo cada vez mais acelerado, dominado por algoritmos e inteligência artificial, qual é o papel da tradição oral e das manifestações culturais que dependem da presença humana? Puxa, eu teria tanta coisa para dizer sobre isso. Outro papo para longas horas…
Para mim, tradições devem ser preservadas e refletidas diariamente. As tradições são a forma de construção de cultura. E a cultura é uma das facetas mais importantes da construção da identidade de um indivíduo .
Tem uma coisa muito importante que a tradição oferece na construção de uma sociedade, que é a noção de herança, construção de legado e senso de pertencimento.
As redes sociais, como toda utilidade, têm o seu lado bom e o seu lado mau. Por um lado, existe uma clara consciência do impacto que elas podem ter para dar voz e visibilidade às causas e pessoas que se movimentam e se articulam em busca de propostas para a construção de uma sociedade mais justa e possível para todas as individualidades.
Porém, o downturn que estamos lidando hoje, coletivamente, é que ela também oferece muitos microfones à muita gente que não contribui para a construção dessa sociedade.
A liberdade de expressão, que é um direito de todos, é uma também uma conquista que coloca em risco, sem o devido monitoramento, as narrativas de lutas importantes que já foram traçadas e que abriram caminhos para sequer termos o direito da própria liberdade como um todo.
Esta é uma consequência direta que parece se apresentar nessa dinâmica.
Se vê o esquecimento da história, se perde a honra e o respeito sobre o passo de quem vem caminhando antes.
Atenção, que eu não vejo a tradição como algo intocável , inquestionável e passível de transformação. Pelo contrário, a tradição é a memória viva que atravessa o tempo e vai se moldando com os elementos de acordo com a necessidade de adaptabilidade aos atravessamentos dos caminhos da sociedade.
Porém as tradições possuem fundamentos que antecedem a lógica do tempo quando assim são compreendidas e vividas.
Pra finalizar essa reflexão, algoritmos e inteligência artificial são inutilidades extensivas do cérebro humano que se tornaram uma das armas mais perigosas do nosso tempo.
Que a tradição, a memória e a oralidade sejam a nossa maior arma de guerra nessa batalha pelo tempo e pelo direito de existir em plenitude.
Se toda a sua discografia desaparecesse amanhã e restasse apenas uma ideia sobre quem é Lenna Bahule, qual gostaria que permanecesse viva nas próximas gerações? A habilidade de confiar que a música está sempre viva e pulsante dentro de nós e em todo o momento e lugar. E que se mantenha sempre viva a seguinte pergunta: Que som que te chama hoje?
E quando a história da música africana contemporânea olhar para o seu percurso daqui a cinquenta anos, como você espera que Lenna Bahule seja lembrada? Acho que, a forma em que mais me sentiria vista e reconhecida, é a lembrança de que fui uma artista incansável e inquieta. Uma artista radical tanto quanto me foi possível, na minha condição de mulher negra, mãe solo, imigrante, nômade africana que se tornou afrodiaspórica, buscando sempre o bem e o bom para todos, todas e todes, em toda e qualquer circunstância. Gostaria de ser lembrada como uma artista que construiu pontes entre culturas, povos e corações através da música e do som.
A VAM Magazine acredita que a moda, a arte e a cultura são formas de documentar o espírito do nosso tempo. Se essa capa fosse encontrada por alguém daqui a cem anos, qual mensagem você gostaria que essa pessoa recebesse sobre Moçambique, sobre a África e sobre a humanidade através da sua voz? Zuva rhino tiudza, mangwanani
“O nascer do sol nos diz, que amanheceu…”
O meu lugar favorito no mundo é a região leste do continente africano. É de lá onde, todo o dia, o planeta terra se encontra primeiro com o sol… e a cada giro, uma nova história ganha começo e frescor. Assim é a memória do mundo
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