O convite que ninguém imaginava aceitar
- há 3 dias
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Há muito tempo eu não desabava em gargalhadas como aconteceu na sessão de O Convite, semana passada, no Cine Sala. Mas não é aquele riso automático das comédias que dependem de piadas prontas.
É um riso nervoso, inteligente, quase constrangido. Daquele que nos faz rir dos outros até percebermos, alguns segundos depois, que estamos rindo de nós mesmos.
A premissa é deliciosamente banal: um casal convida os vizinhos do andar de cima para um jantar. Um desses protocolos de boa vizinhança que existem mais por educação do que por verdadeira vontade de criar intimidade. O tipo de encontro que todos imaginam saber exatamente como terminará.
Mas basta a porta se fechar para que o jantar deixe de ser um jantar.
Os atores estão impecáveis. Penélope e Edward parecem se divertir intensamente vivendo o casal de vizinhos excêntricos. Há uma leveza tão grande entre eles que, em vários momentos, temos a impressão de assistir a improvisos. Do outro lado, Olivia e Seth entregam um casal absolutamente reconhecível: ela, uma mulher rígida, controladora, tomada pelos próprios recalques; ele, um homem deprimido, irônico e resignado, daqueles que fazem do sarcasmo uma forma sofisticada de sobrevivência.
É justamente esse contraste que move o filme.
A personagem de Penélope, uma terapeuta e sexóloga, conduz o jantar quase como quem conduz uma sessão clínica. Sem divã, sem diagnóstico e sem a menor cerimônia. Entre uma taça de vinho e um baseado, as perguntas certas aparecem, os silêncios pesam, as máscaras começam a cair. Pouco a pouco, percebemos que ninguém ali está interessado apenas em conhecer os vizinhos.
Todos, consciente ou inconscientemente, acabam sendo convidados a encontrar partes de si mesmos que prefeririam manter escondidas.
O roteiro é uma sucessão de diálogos rápidos, alfinetadas, piadas, espelhos e janelas. Cada frase abre uma possibilidade de aproximação e, ao mesmo tempo, produz um novo afastamento. Curiosamente, quase ninguém come durante o jantar, o que é completamente irrelevante. O verdadeiro banquete é emocional.
O filme diverte justamente porque reconhecemos aqueles personagens. Ali estão os ressentimentos silenciosos dos casamentos longos, as pequenas violências cotidianas, os jogos de poder, os papéis de gênero cuidadosamente ensaiados durante décadas e a enorme dificuldade que temos de conversar honestamente sobre desejo.
O Convite faz algo raro: transforma a sexualidade em tema de reflexão sem recorrer ao erotismo. Fetiches, não monogamia, orgias e sexo livre aparecem apenas como dispositivos dramáticos para colocar em xeque certezas antigas. Nada é exibido para provocar voyeurismo. Tudo existe para provocar pensamento.
O Convite nunca é apenas uma comédia. É também um filme sobre vergonha, liberdade, intimidade e coragem. Coragem para admitir que nossos relacionamentos são feitos muito mais de fantasias do que de verdades. Coragem sobretudo para amar e escolher todos os dias a mesma pessoa.
Sem revelar o desfecho, posso dizer apenas isto: o final é de uma delicadeza surpreendente. Depois de tantas gargalhadas, o filme escolhe terminar com sensibilidade, lembrando que nenhuma relação sobrevive apenas de desejo ou de boas intenções. Toda intimidade exige trabalho. Exige escuta. Exige disponibilidade para mudar junto.
Saí do cinema ainda sorrindo, mas também pensando.
Talvez porque O Convite nos lembre de algo simples e profundamente verdadeiro: cultivar relações que realmente valham a pena continua sendo uma das tarefas mais difíceis e mais bonitas da vida.

Sobre o autor
Diógenes Carvalho é Pós-Doutor em Psicologia e Direito, Doutor em Psicologia, Mestre em Direito, Pós-graduado em Psicanálise Clínica. Possui Diploma de Direito Europeu e é psicanalista em formação pelo Instituto Sedes Sapientiae. Professor universitário, advogado e ator. Um pesquisador inquieto, que acredita no poder transformador da análise, do autoconhecimento e do amor. Na VAM Magazine, escreve sobre a vida contemporânea, os desafios da existência humana e os caminhos possíveis para o autoconhecimento.



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