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A Coragem Amorosa dos Nossos Tempos

  • há 3 dias
  • 4 min de leitura

Outro dia, conversando com meu amigo Thalles, ator como eu, chegamos a uma constatação que parece se repetir em muitas histórias ao nosso redor: há muita gente fechada para balanço. Gente indisponível. Não necessariamente indisponível para sair, conversar, trocar mensagens ou dividir uma cama. Indisponível para o encontro.


Talvez uma das marcas do nosso tempo seja justamente essa estranha tentativa capitalista de administrar o amor como se ele fosse um investimento, uma meta de desempenho ou um bem de consumo. Como se fosse possível decidir racionalmente quando se apaixonar e, principalmente, até onde se apaixonar.


As pessoas parecem querer controlar a intensidade dos afetos da mesma forma que controlam planilhas e metas profissionais. Como se existisse um aplicativo interno capaz de regular a dose exata de desejo, entrega e vulnerabilidade permitida em cada relação.

Mas o amor nunca funcionou assim.


Vivemos em uma época em que a autonomia se tornou um valor quase absoluto. Ser independente, autossuficiente, emocionalmente blindado e permanentemente produtivo parece ter se transformado em uma exigência moral. Nesse contexto, apaixonar-se pode soar como uma ameaça. Afinal, amar implica admitir que o outro importa. E, quando o outro importa, algo em nós perde a falsa ilusão de autossuficiência.


A paixão interrompe a lógica da performance.

Ela nos distrai dos objetivos, altera prioridades, produz incertezas, fragiliza certezas e expõe vulnerabilidades. Talvez por isso tantas pessoas tentem negociar com o desejo antes mesmo de vivê-lo. Calculam riscos, projetam cenários, analisam possibilidades, estabelecem limites preventivos. Tudo para evitar a experiência de depender afetivamente de alguém. Mas existe um preço para tanta proteção.


Na clínica, na convivência cotidiana e nas histórias que escutamos dos amigos, percebemos que muitos desses mecanismos de defesa escondem experiências traumáticas que nunca foram elaboradas. Decepções amorosas, abandonos, rejeições, perdas e lutos acabam sendo empurrados para algum lugar silencioso da vida psíquica.


A pessoa segue em frente. Produz. Mas certas dores permanecem habitando o sujeito como hóspedes invisíveis.


A psicanálise chama atenção para algo importante: aquilo que não é elaborado não desaparece. Muitas vezes, retorna sob a forma de medo, cinismo ou indisponibilidade afetiva.


É como se uma parte da pessoa continuasse vivendo no passado, enquanto outra tenta convencer o mundo, e a si mesma, de que já superou todas as pedras colocadas em seu percurso amoroso.


Talvez por isso encontremos tanta gente emocionalmente defendida. Pessoas que desejam amar, mas têm medo do amor. Que desejam vínculo, mas temem a dependência. Que desejam intimidade, mas recuam quando ela começa a acontecer.


Há uma espécie de clivagem contemporânea entre aquilo que se sente e aquilo que se permite viver.

Ao mesmo tempo em que as redes sociais estão repletas de discursos sobre conexão e afeto, cresce o número de pessoas que estabelecem relações marcadas pela cautela extrema e pela tentativa constante de manter todas as portas de saída abertas.


Talvez porque amar continue sendo uma das últimas experiências humanas que não podem ser plenamente controladas. E isso é profundamente desconfortável para uma sociedade baseada no desempenho.


A lógica da performance nos ensina a maximizar resultados e minimizar riscos. O amor faz exatamente o contrário. Ele exige presença sem garantias. Exige entrega sem contratos. Exige confiança sem certezas.


Quando tentamos governar o amor com excesso de racionalidade, acabamos nos afastando da nossa própria condição humana. Perdemos contato com o desamparo que nos move e com a possibilidade de construir novas histórias, inventar futuros e atribuir sentido à vida. Sem falta não há desejo. E sem desejo não há encontro.


Talvez por isso uma das maiores dificuldades dos relacionamentos na atualidade seja a dificuldade de se deixar afetar. Amar exige coragem. Exige uma disposição rara para abandonar, ainda que temporariamente, as armaduras que construímos para sobreviver. Há algo profundamente vulnerável em dizer a alguém: "eu gosto de você", "eu sinto sua falta", "eu quero estar com você". Toda declaração amorosa carrega uma aposta e, inevitavelmente, uma expectativa de reciprocidade.


Mas, quando encontramos pessoas excessivamente protegidas, permanentemente defensivas ou emocionalmente indisponíveis, essa reciprocidade torna-se difícil. O medo ocupa o lugar da curiosidade. A autoproteção passa a ser mais importante do que a experiência.


E é justamente aí que reside uma das tragédias afetivas do nosso tempo. Pessoas feridas tornam-se tão preocupadas em evitar novas dores que deixam de perceber a beleza dos vínculos que surgem diante delas. Desenvolvem uma espécie de miopia emocional. Conseguem enxergar os riscos, os defeitos, as possíveis frustrações e os cenários de perda, mas já não conseguem reconhecer a potência transformadora de um encontro.


Essa miopia não protege apenas do sofrimento. Ela também impede a experiência do encantamento. E, pouco a pouco, destrói a possibilidade de construção de vínculos robustos, interessantes e verdadeiramente significativos.


Talvez amar, hoje, seja justamente recuperar a coragem de ser afetado. Não porque exista garantia de felicidade ou reciprocidade, mas porque a vida emocional só acontece quando permitimos que o outro nos alcance. Afinal, quem vive permanentemente protegido também vive permanentemente distante daquilo que faz a existência valer a pena.


Por isso, talvez a grande coragem dos nossos tempos não seja encontrar alguém quase perfeito para viver um amor leve. A verdadeira coragem seja simplesmente permanecer disponível.


Disponível para ser afetado.

Disponível para declarações amorosas.

Disponível para se surpreender e surpreender o outro.

Disponível para correr riscos.

Disponível para descobrir que a autonomia não desaparece quando amamos alguém; ela apenas deixa de ser a única coisa que importa.


Neste Dia dos Namorados, talvez valha a pena perguntar menos sobre quem merece nosso amor e mais sobre o que temos feito para nos manter disponíveis para ele.


Porque, no fim das contas, ninguém vive plenamente protegido. Mas também ninguém ama de verdade atrás de tantos muros.


Coragem, querido coração. O amor ainda pede passagem.

Diógenes Carvalho: Pós-doutor em Direito e em Psicologia, Doutor em Psicologia, Mestre em Direito, Diploma de Direito Europeu, Psicanalista em Formação, Professor Universitário, Advogado e Ator.

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