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Uai, Credo... O Trauma Também Flerta

  • há 2 horas
  • 5 min de leitura

Ontem, recebi uma mensagem do editor da Vam Magazine cobrando minha coluna. Entre uma coisa e outra, fiquei pensando sobre o que escrever.

Até que, navegando pelas redes sociais, escutei uma fala da Juliette, ex-BBB, sobre "uma geração de traumatizados". Aquilo ficou ecoando. Talvez porque exista mesmo algo muito contemporâneo nessa indisponibilidade afetiva que atravessa as relações atuais. E foi daí que surgiu essa vontade de escrever sobre amor, trauma, psicanálise e sobre essa dificuldade moderna de se encontrar no outro ou de sustentar um encontro.


A gente vive uma época curiosa. Nunca se falou tanto sobre autocuidado, autoconhecimento, autoestima, performance emocional e saúde mental. Mas, paradoxalmente, nunca pareceu tão difícil amar.


Existe uma indisponibilidade que já é contemporânea, que coloca sobre as pessoas responsabilidades impossíveis e fora do nosso alcance. Precisamos ser bonitos, interessantes, bem-sucedidos, magros, produtivos, flexíveis, independentes, emocionalmente resolvidos e, de preferência, ainda correr maratonas antes das sete da manhã.


Vivemos o individualismo e o enaltecimento constante do individual. E isso inevitavelmente aparece nas relações. O nosso modo de vida já não parece muito propício para encontros amorosos tão profundos. Tudo passa a funcionar numa lógica de desempenho, autonomia e autocontrole. A maioria das pessoas entra nas relações como quem administra uma experiência de consumo. E o amor definitivamente não cabe nessa lógica objetal (Leia, na nossa coluna, o texto “O Amor Não É Bem de Consumo”).


Tudo isso vai produzindo sujeitos extremamente exigidos por ideais narcísicos e egóicos. O problema é que ninguém ama a partir dos seus ideais. A gente ama com o inconsciente. Ama com as faltas, com as falhas, com os desejos mais contraditórios. O amor nunca foi um encontro entre perfeições. Ele sempre foi um encontro entre incompletudes.


Talvez por isso a ideia de "cara metade" seja tão sedutora e tão cruel ao mesmo tempo. Porque ela vende a fantasia de que existe alguém pronto para preencher todas as nossas faltas, quando, na verdade, o amor é justamente aquilo que nos desorganiza. O amor não completa no sentido de encaixe perfeito; ele completa porque nos desacomoda, nos tira do lugar, nos confronta com aquilo que há de mais vulnerável em nós.


E vulnerabilidade virou quase um problema moral da contemporaneidade. As pessoas têm medo de se entregar. Medo de sofrer. Medo de serem enganadas e traídas. Medo de serem rejeitadas. Medo de perder tempo. Medo de investir emocionalmente.


Principalmente depois dos 35, parece existir uma geração inteira tentando amar sem correr tantos riscos, o que, convenhamos, é impossível. Porque amar pressupõe risco.


Existe hoje uma espécie de armadura emocional muito sofisticada. As pessoas entram nas relações tentando controlar: intensidade, profundidade, autonomia, espaço e desejo. Querem conexão sem invasão, profundidade sem dependência, intimidade sem perda de autonomia. Querem uma relação completamente administrável. E relações humanas simplesmente não funcionam assim.


Relações não são metas e objetivos. Não são projetos de produtividade. Não são indicadores de performance emocional. São apenas relações. Vínculos humanos atravessados por desejo, medo, presença, ausência, tentativa e repetição.


Outro dia ouvi algo que me capturou. A pessoa disse ter medo de não conseguir me entregar aquilo que eu mereço. Medo de não conseguir se envolver como eu gostaria. E isso me fez pensar no quanto estamos todos tentando amar a partir da lógica da insuficiência. Como se o amor precisasse vir pronto, organizado e garantido antes mesmo de começar.


Mas talvez ninguém esteja realmente pronto. Talvez exista apenas coragem. Coragem para desejar construir algo sem a ilusão de controle absoluto. Coragem para sustentar paradoxos emocionais sem transformá-los em motivo de fuga. Porque é perfeitamente possível ter profundidade e autonomia. Conexão e espaço. Individualidade e parceria. Uma coisa nunca elimina a outra.


Outro dia, conversando com meu amigo Lelê, ele falou algo muito simples e muito bonito: que talvez a gente precise prestar atenção. Estar atento a quem o universo apresenta para nós. Entendi isso como uma forma de sair dessa ideia de "força, foco e fé" aplicada às relações e abandonar nossas exigências superegóicas que transformam as regras de cada um em verdades universais.


E talvez seja exatamente isso que esteja faltando. Menos rigidez. Menos gente bitolada no trauma. Porque existe uma diferença enorme entre aprender com o sofrimento e transformar o trauma em identidade permanente.


Tem gente tão ocupada tentando não repetir antigas dores que deixa de perceber as oportunidades emocionais que a vida apresenta silenciosamente. Só que nossa cultura é profundamente contra o amor. Ela enaltece a paixão, especialmente a paixão do primeiro mês, dos primeiros encontros, do entusiasmo inicial.


A cultura gosta do "uai, credo, que delícia", como diria qualquer bom goiano diante do encantamento imediato. Mas o amor mesmo é mais complicado. Ele mostra os buracos de cada um. Os boletos chegam. A rotina pesa. A realidade é árida. E nada nunca estará completamente pronto.

Talvez por isso as referências de amor estejam cada vez mais frágeis. Hoje convivemos muito mais com narrativas de fracasso afetivo do que com experiências consistentes de parceria. E isso produz sujeitos sem referências emocionais saudáveis.


Eu, felizmente, tenho referências lindas dentro de casa. Meus pais estão juntos há 63 anos. Uma vida inteira de parceria, alegria, entusiasmo e cuidado mútuo. E existe uma frase da minha mãe que acho das coisas mais bonitas do mundo. Sempre perguntam qual o segredo da alegria e da jovialidade dela aos 83 anos. E ela responde: "Isso é marido bom. Alegria compartilhada."


Que coisa bonita! Talvez o amor tenha muito mais a ver com compartilhar alegria do que com performar perfeição. E olha que Dona Eni é das mais ciumentas!


Na psicanálise, trauma não tem necessariamente relação com a gravidade objetiva de um acontecimento, mas com aquilo em que o sujeito fica fixado. É a repetição da cena, o medo de reviver determinada dor, a tentativa permanente de evitar uma nova ferida. O problema é que isso drena a energia vital. Ficamos tão ocupados tentando não sofrer de novo que deixamos de prestar atenção nas possibilidades do mundo externo. E isso vale para tudo: amor, amizade, trabalho, cotidiano, vida.


Tem gente profundamente traumatizada que encontra alguém disposto a permanecer. E tem gente maravilhosa que simplesmente não consegue mais se abrir para o encontro amoroso. Mas talvez seja preciso dar espaço para a sorte. Sim, a sorte. A sorte de um amor tranquilo, como cantava Cazuza. A sorte de encontrar alguém disposto a atravessar o inferno e o céu de todo dia. Porque, no fim das contas, ninguém é perfeito para ninguém. Ufa! E ainda bem.


Talvez amar seja justamente abandonar a ideia de perfeição para sustentar a beleza imperfeita dos encontros possíveis. Não deixar que as dores do passado fechem portas extraordinárias que a vida, às vezes silenciosamente, insiste em nos abrir. A disponibilidade amorosa talvez tenha menos relação com estar "pronto" e muito mais com a coragem de permanecer encantado com o novo. 

E isso, sinceramente, já é bonito demais.


Diógenes Carvalho é ator, advogado, professor universitário e pesquisador. Autor de vários livros e psicanalista em formação. Inquieto, curioso e questionador, acredita no mergulho transformador da análise e no amor. Por aqui, fala sobre vida real, desafios da existência humana e o contemporâneo. 



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