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Depois do medo vem o mundo

  • há 8 horas
  • 4 min de leitura

Sem o medo, dificilmente teríamos sobrevivido como espécie. É ele que nos impede de atravessar uma avenida distraidamente, de desafiar perigos desnecessários ou de agir movidos apenas pelo impulso. O medo nos protege daquilo que efetivamente ameaça nossa integridade física e psíquica. Nesse sentido, não é um defeito da condição humana, mas uma sofisticada inteligência do corpo e da mente, trabalhando silenciosamente para preservar a vida.

O problema começa quando aquilo que nasceu para nos proteger passa a nos governar. Em vez de impedir apenas o precipício, ele passa a impedir também a travessia. É aí que deixamos de viver não porque o mundo seja perigoso, mas porque passamos a enxergar perigo em tudo aquilo que pode nos transformar. Permanecemos em relações que já não nos cabem, evitamos conversas importantes, não falamos "eu te amo", escondemos sentimentos e construímos justificativas extremamente racionais para aquilo que, no fundo, é apenas receio de sair do lugar conhecido. A vida, então, vai sendo reduzida a uma sucessão de adiamentos cuidadosamente organizados.


Clarice Lispector escreveu uma frase que sempre retorna quando penso sobre esse afeto: "Depois do medo vem o mundo." Poucas sentenças conseguem traduzir com tanta delicadeza o que significa amadurecer. Porque existe um mundo inteiro esperando justamente depois daquilo que mais nos assusta. O medo costuma ocupar a porta de entrada das grandes mudanças. Não porque elas sejam necessariamente perigosas, mas porque toda transformação exige abandonar uma versão antiga de nós mesmos. Crescer implica perder certas certezas. Amar implica abrir mão do controle. E viver implica aceitar que nenhuma garantia será suficiente para eliminar completamente a possibilidade da dor.


Na psicanálise, o medo quase nunca aparece sozinho. Ele frequentemente funciona como o guardião de um desejo que ainda não ousamos reconhecer. Aquilo que evitamos tocar, dizer ou experimentar costuma revelar muito mais sobre nossos anseios do que sobre os perigos reais do mundo. Talvez seja justamente por isso que o medo se apresente com tanta força quando estamos próximos de algo que realmente importa. Não porque devamos recuar, mas porque estamos diante da possibilidade concreta de nos transformarmos.


Há alguns dias fui ao Cine Joia assistir ao show de Jotapê e Bruna Black. Entre tantas músicas bonitas, uma sempre permanece em mim. Beija-flor parece falar de um relacionamento, mas talvez esteja falando, antes de tudo, da nossa relação com a própria vulnerabilidade. Quando a letra diz: "E aqui dentro vai guardando o medo, mantendo em segredo o que deve mostrar", ela descreve com precisão quase clínica um movimento que perpassa muitas histórias de amor e muitos processos terapêuticos. Quantas vezes construímos defesas sofisticadas para proteger aquilo que, na verdade, precisava apenas encontrar acolhimento?


A psicanálise nos ensina que manter em segredo aquilo que deveria ser mostrado é uma forma de construir muros onde a vida precisava erguer pontes. Passamos a administrar cuidadosamente a imagem que oferecemos ao outro, revelando apenas aquilo que acreditamos ser digno de aprovação. Aos poucos, vamos escondendo fragilidades, inseguranças, ciúmes, medos e desejos, como se o amor pudesse florescer num terreno completamente controlado. Mas não existe intimidade onde só existe performance. Não existe encontro verdadeiro quando cada um se relaciona apenas com a versão editada do outro. A cura (e talvez o amor também) acontece justamente nesse momento em que nos permitimos ser vistos do avesso.


Por isso gosto tanto da continuidade da música, quando ela diz: "E pouco a pouco vai perdendo o medo de se ver do avesso, por saber amar." Há uma sabedoria profunda nessa imagem. Não se trata de eliminar o medo, mas de perceber que existe algo maior do que ele. O amor não nos torna destemidos. Ele apenas faz com que algumas travessias passem a valer a pena. O beija-flor não voa porque desconhece os riscos. Ele voa porque compreende que permanecer imóvel significaria renunciar à própria natureza. Da mesma forma, abandonar o casulo nunca é um gesto de imprudência; é um gesto de confiança na própria capacidade de atravessar o desconhecido.


Talvez seja esse o maior aprendizado da vida adulta. Descobrimos que maturidade não é endurecer, mas flexibilizar. Não é construir mais armaduras, mas saber quando elas já não são necessárias. Às vezes, o medo de nos perdermos no outro nos faz esconder justamente nossa essência. Tentamos controlar afetos, demonstrações de carinho e até o silêncio. Entretanto, a experiência clínica mostra que só nos tornamos inteiros quando aceitamos o afeto, sem a necessidade permanente de controlar o resultado. A vulnerabilidade deixa de ser uma ameaça e passa a ser a própria condição para que o encontro exista.


No fim das contas, perder o medo de se ver do avesso talvez seja um dos atos mais revolucionários da existência. O medo que protege é necessário. Já o medo que paralisa cobra um preço alto demais: o de uma vida empobrecida.


Que a gente possa aprender com o beija-flor. E ainda, descobrir que o encontro com o outro é, muitas vezes, o caminho mais bonito de volta para nós mesmos. E lembrar, sempre, Clarice tinha razão: depois do medo vem o mundo. E, às vezes, esse mundo começa exatamente quando encontramos alguém diante de quem já não precisamos esconder o nosso avesso.

Diógenes Carvalho é Pós-Doutor em Psicologia e Direito. Doutor em Psicologia. Mestre em Direito. Pós-graduado em Psicanálise Clínica. Diploma de Direito Europeu. Psicanalista em formação. Professor universitário. Advogado e ator. Inquieto, curioso e questionador, acredita no mergulho transformador da análise e no amor. Por aqui, fala sobre vida real, desafios da existência humana e o contemporâneo.

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