Monogamia, desejo e o terceiro que nunca desaparece
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No último sábado, estive em uma roda de conversa em um espaço muito interessante chamado com verso, com a participação da psicanalista Marielle Kellermann, que conduziu uma reflexão instigante sobre a monogamia, o amor, o desejo e as novas formas de relacionamento. Entre tantas provocações, uma ideia ficou ressoando em mim: em toda relação amorosa, existe sempre um terceiro.

Falou-se do terceiro que ameaça, mas também daquele que reacende. Do terceiro como fantasia, como lembrança, como ex, como possibilidade, como aquilo que circula no imaginário e que, de alguma forma, participa da vida do casal. Falou-se também da importância de preservar o mistério dentro de uma relação, porque talvez o amor não sobreviva apenas da transparência absoluta, mas também de alguma zona de enigma, de desejo e de alteridade.
O momento mais interessante, para mim, foi quando Marielle disse que a relação de dois é um par, mas a relação de casal é sempre de três. Há sempre alguém ou algo que precisa ser deslocado para que duas pessoas possam, de fato, construir uma vida em comum. Amar alguém é escolher. E escolher significa, em alguma medida, retirar outros do centro da cena.
Se estamos com alguém, essa pessoa não está com o ex-namorado. Não está alimentando indefinidamente vínculos anteriores. Não está fazendo a manutenção pública e afetiva de uma história antiga pelas redes sociais. Existe, portanto, uma ética da escolha amorosa. Não se trata de apagar o passado do outro, mas de reconhecer que uma relação presente exige algum tipo de pacto, de presença e de renúncia.
Talvez vivamos uma fantasia um pouco delirante de que, quando alguém está conosco, essa pessoa deixará de desejar qualquer outra. Isso não é verdade. O desejo não obedece a contratos. Ele circula, aparece, desaparece, retorna. Mas o fato de o desejo existir não significa que ele precise ser atuado. Entre desejar e agir existe uma distância ética fundamental.
A conversa também passou pela ideia de que a monogamia é uma construção cultural, atravessada pela religião, pelo capital, pela organização da herança, da reprodução e da transmissão patrimonial. Em outras culturas, há formas de poligamia e arranjos familiares distintos que funcionam dentro de outras lógicas simbólicas. Ainda assim, isso não significa que a monogamia seja apenas uma prisão. Ela também pode ser lida como uma estratégia social de organização dos vínculos, uma tentativa de estabilizar o amor e o cuidado.
Mas o ponto mais forte da conversa foi a constatação, trazida por vários psicanalistas presentes, de que a clínica escuta diariamente o fracasso de muitas relações abertas. Não necessariamente porque sejam moralmente erradas, mas porque, na prática, produzem sofrimento, rivalidade, comparação, abandono, insegurança e exaustão.
As configurações mais livres estão em crise. Em muitos casos, há uma performance de evolução afetiva, como se a pessoa desapegada, flexível e aberta fosse necessariamente mais madura do que aquela que deseja exclusividade. Mas será mesmo possível transcender completamente o ciúme, a inveja, a insegurança, o medo da perda e a necessidade de reconhecimento? Talvez não.
Talvez estejamos jogando para debaixo do tapete afetos muito importantes, que fazem parte da nossa estrutura psíquica. Na teoria, certas formas de liberdade parecem interessantes e libertadoras. Mas, visceralmente, nem sempre funcionam. O corpo sofre. O ego sofre. A fantasia sofre. O amor, quando encarnado, é sempre mais complexo do que qualquer discurso progressista sobre ele.
Freud tem uma frase muito conhecida, frequentemente lembrada de forma resumida: “Só temos duas opções na vida: amar ou adoecer”. O que essa ideia parece nos dizer é que há um excesso de nós mesmos do qual só conseguimos nos livrar pela via do outro. Amar é sair de si. É encontrar um limite para o próprio narcisismo. É aceitar que o outro existe, deseja, pede, frustra e nos modifica.
Daí talvez venha uma parte dos nossos impasses contemporâneos: certa inaptidão para a generosidade, a falta de referências libidinais em torno do prazer de dar, de oferecer amor, de participar da felicidade alheia. Queremos ser amados, vistos e desejados, mas nem sempre sabemos sustentar a experiência de amar alguém para além da satisfação imediata que essa pessoa nos oferece. E há ainda o tal ciúme.
Freud, em seu texto sobre os mecanismos neuróticos do ciúme, começa afirmando que o ciúme é um sentimento normal e esperado. Acho isso extremamente valioso hoje, porque vivemos um tempo muito atravessado pela psicopatologização dos afetos. Tudo rapidamente vira toxicidade, controle ou transtorno.
É claro que existem relações controladoras, violentas e adoecidas. Mas nem todo ciúme é controle. Nem toda insegurança é patologia. Nem todo desconforto amoroso é sinal de toxicidade. Amar de forma completamente limpa, higiênica, sem conflitos, sem ambivalências e sem perturbações talvez seja uma fantasia tão delirante quanto imaginar que o outro nunca desejará ninguém. Ciúme todo mundo sente, em alguma medida. Ufa!
Nas relações longevas e bem-sucedidas, o que parece existir não é a ausência de conflito, mas a capacidade de ajuste. Amor e desejo não são estruturas prontas. São montagens que se fazem e se refazem ao longo do tempo. Um casal precisa negociar presença, erotismo, amizade, rotina, mistério, confiança e entrega. Nada disso se resolve de uma vez.
O amor contemporâneo está sofrendo justamente porque quer eliminar toda tensão. Queremos relações livres de ciúme, livres de dependência, livres de cobrança, livres de pactos e livres de frustração. Mas uma relação absolutamente livre de conflito é também uma relação livre de profundidade.
Confesso que saí daquela conversa com uma convicção ainda mais forte. Quanto mais reflito sobre os relacionamentos contemporâneos, mais percebo que desejo exclusividade. Isso pode soar antiquado para alguns ou excessivamente romântico para outros, mas acredito na relação monogâmica não como uma obrigação moral, e sim como uma possibilidade de profundidade. Quando escolhemos estar com uma única pessoa, não estamos apenas restringindo opções. Estamos decidindo investir afeto, energia psíquica e presença em uma direção específica.
Existe algo muito bonito na continuidade e por isso, cada vez mais, penso que é muito gostoso priorizar o vínculo. Priorizar a construção de uma história comum. Em uma cultura tão orientada para a novidade, para a substituição rápida e para a ideia de que sempre existe algo melhor esperando logo adiante, talvez permanecer tenha se tornado um gesto quase revolucionário.
Se o que você quer é dividir a vida, a cama, os projetos, as alegrias, os fracassos e os domingos com uma única pessoa, sonhe alto e sem medo. Com certeza existem muitas pessoas por aí sonhando exatamente o mesmo. Pessoas que também desejam se envolver e se des(envolver) junto com alguém.
Porque o amor não é apenas encontrar quem nos acompanha na caminhada. É encontrar quem deseja construir uma boa estrada ao nosso lado.
Diógenes Carvalho é ator, advogado, professor universitário e pesquisador. Autor de vários livros e psicanalista em formação. Inquieto, curioso e questionador, acredita no mergulho transformador da análise e no amor. Por aqui, fala sobre vida real, desafios da existência humana e o contemporâneo.



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