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A esperança como forma de controle do outro

  • há 1 dia
  • 5 min de leitura

Existe uma violência afetiva que raramente se manifesta de maneira explícita. Ela não aparece necessariamente na rejeição direta, no abandono declarado ou na ausência absoluta.

Às vezes, instala-se justamente no contrário: na permanência ambígua de uma promessa ou no suspense do que nunca se declara.


Vivemos em uma época marcada pela dificuldade dos encerramentos. Conversas permanecem abertas. Relações não começam nem terminam completamente. Decisões são adiadas.


Compromissos são mantidos em estado de indefinição, sem que se assuma um posicionamento ético consigo e com o outro. Nesse contexto, a esperança torna-se uma forma privilegiada e perversa de vínculo.


Na psicanálise, o desejo nasce da falta. Desejamos porque algo nos escapa. Existe uma incompletude estrutural que acompanha a condição humana e que nos impulsiona a buscar, criar, amar e construir. O desejo não elimina a falta; ele se sustenta nela.


A esperança, porém, não é a mesma coisa que o desejo. A esperança pode ser uma força vital. Pode sustentar projetos, travessias difíceis e transformações importantes. O problema não está na esperança em si, mas na forma como ela pode ser capturada pela fantasia e transformada em substituta da realidade.


Enquanto o desejo suporta a falta e continua caminhando apesar dela, a esperança aprisionada na promessa eterna paralisa. Ela mantém o sujeito voltado para um futuro que nunca chega. O desejo cria movimento. A esperança transformada em espera infinita produz imobilidade e controle, muitas vezes disfarçados pelo discurso benevolente de “respeitar o tempo do outro”, enquanto negligencia o nosso.


Há relações que deixam de existir concretamente, mas continuam vivas como possibilidade. Não se sustentam pela presença, pelo cuidado ou pela reciprocidade real, mas pela manutenção constante de um amanhã.


Um afeto prometido; um vínculo mantido em banho-maria, onde a água não ferve nem seca, servindo apenas para reter o outro sob temperatura branda, capturando a atenção e a tensão do seu desejo. Um reconhecimento adiado. Um encontro sempre prestes a acontecer, mas que nunca se realiza plenamente.


A promessa não cumprida cria uma suspensão psíquica. O sujeito permanece esperando. Espera um gesto, uma resposta, uma sinalização na tela, uma mudança, uma validação, uma presença. E, enquanto espera, continua investindo energia vital e emocional naquela relação.


É como permanecer diante de uma porta entreaberta. Ela nunca se abre completamente, mas também nunca se fecha. O sujeito não entra, mas também não vai embora, porque enxerga na ilusão da fresta a promessa de atravessar para o outro lado.


Talvez uma das formas mais sofisticadas de controle emocional seja exatamente essa: não negar totalmente o amor, mas também nunca o oferecer de fato.


O fechamento dói. Mas a suspensão desgasta, pois impede o luto.


Talvez por isso certas relações sejam tão difíceis de abandonar. Não porque oferecem amor em abundância, mas porque oferecem esperança em doses suficientes para impedir a partida. “Amanhã eu faço.” “Agora não consigo.” “Eu ainda quero.” “Calma.” “Depois a gente resolve.”


O sujeito permanece ligado não ao que recebe concretamente, mas ao que imagina que poderá receber no futuro. Aos poucos, o amor deixa de ser experiência viva e transforma-se em expectativa de um amanhã que se recusa a chegar.

Mas existe ainda uma questão mais delicada. Nem sempre permanecemos presos apenas porque esperamos algo. Em alguns casos, existe também um investimento inconsciente na própria espera.


A psicanálise chama atenção para o fato de que o sofrimento humano nem sempre é apenas algo do qual desejamos nos libertar. Há situações em que o sujeito encontra, sem saber, uma forma de satisfação na própria repetição da dor.

Isso significa que, em determinadas relações, não é apenas a promessa que aprisiona. A própria espera pode tornar-se uma posição subjetiva.


Enquanto espera, o sujeito preserva a fantasia de que algo extraordinário ainda acontecerá.


Enquanto espera, não precisa enfrentar completamente a perda. Enquanto espera, a realidade permanece suspensa. Romper esse ciclo exige maturidade e inteireza, além do reconhecimento doloroso de que a troca exige reciprocidade para existir.


Por isso, abandonar certas promessas pode ser tão difícil. Não se trata apenas de abrir mão do outro. Trata-se também de renunciar à fantasia construída em torno dele.


Lacan afirmava que o desejo do sujeito é o desejo do Outro. Queremos ser desejados, reconhecidos, significados. Quando alguém administra a esperança sem verdadeira implicação afetiva, cria-se uma dinâmica silenciosamente cruel: a pessoa permanece emocionalmente ligada a uma possibilidade que nunca se concretiza, enquanto o outro se alimenta de um circuito puramente narcísico.


Mas seria simplista imaginar que existe apenas um manipulador de um lado e uma vítima do outro. Nem sempre quem alimenta a promessa o faz de maneira consciente. Muitas vezes, aquele que mantém o outro em suspensão também está preso às próprias ambivalências, inseguranças, medos e impossibilidades, nutrindo-se sintomaticamente da carência alheia. Há sujeitos que não conseguem partir, mas também não conseguem permanecer. Não conseguem oferecer presença, mas tampouco suportam a perda definitiva do vínculo.


Assim, a promessa pode funcionar como defesa para ambos. Um permanece porque espera. O outro promete porque não consegue decidir.

Essa complexidade nos afasta de qualquer leitura moralizante das relações humanas. Afinal, os vínculos são frequentemente atravessados por conflitos inconscientes que escapam à vontade consciente de cada um.


Talvez por isso muitas relações não adoeçam pela violência explícita da ausência, mas pela delicadeza ambígua de uma promessa eterna. Existe algo profundamente exaustivo em viver sustentado por futuros adiados. Afinal, a vida só acontece no agora.


A esperança, que deveria impulsionar a vida, passa então a funcionar como mecanismo de retenção. O futuro deixa de ser horizonte e transforma-se em cárcere.


Amadurecer afetivamente talvez implique justamente aprender a distinguir promessa de presença, possibilidade de realidade, expectativa de experiência. Implica reconhecer que nem toda esperança conduz ao encontro e que, em alguns momentos, continuar desejando exige precisamente abandonar a espera.


Porque, quando a verdade desaparece, a esperança perde sua potência transformadora. E quando a realidade é substituída indefinidamente pela promessa, aquilo que parecia sustentar a vida pode acabar impedindo que ela siga adiante.


Diógenes Carvalho é ator, advogado, professor universitário e pesquisador. Autor de vários livros e psicanalista em formação. Inquieto, curioso e questionador, acredita no mergulho transformador da análise e no amor. Por aqui, fala sobre vida real, desafios da existência humana e o contemporâneo.


Thalles Tramon é um curioso, cujas dúvidas o levaram para muitos lugares. Apaixonado pela vida, conhece a natureza na palma das suas mãos, as mesmas que agarram a pedra numa escalada e que tem a delicadeza necessária para escrever poesia a caneta. Forte e vulnerável, ex tenente e também professor de yoga; fotógrafo e atleta; pai, irmão e amigo. Dentre todas as definições que lhe cabe, a que mais resume a imensidão desse artista é a de ser humano.

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