Arthur Mancini - Desenvolve série de vídeos para levar a saúde preventiva para pessoas com câncer

Em entrevista e carta aberta para a VAM Magazine, o influenciador fala sobre agir para levar a saúde preventiva e esperança de que há cura para essa doença que afeta em números de prevalência nos últimos 5 anos, mais 1.500.000 de pessoas vivendo com o Câncer no Brasil.

Por Antonnio Italiano

Fiquei em silêncio por um bom tempo... Um silêncio que muitos estranharam. Todavia, esta decisão de não divulgar minha doença durante o tratamento – e que foi muito questionada - tinha uma razão. O motivo foi exatamente esse: eu queria me proteger, resguardar minha saúde

emocional.


O diagnóstico foi um baque que eu não esperava e, sabia que compartilhando com meus seguidores, iria preocupar muitos e receber diversos questionamentos e cobranças por notícias que eu nem saberia como responder. Mesmo já acostumado com a rotina de influenciador digital, não teria capacidade emocional de lidar com tamanha cobrança, mesmo que fosse a partir de uma demonstração de carinho por parte de todos.


Foi todo um processo muito pessoal, só eu tinha como saber totalmente pelo que estava passando. Decidi esperar o momento em que me sentisse pronto para divulgar essa informação, o que aconteceu ao já estar na etapa final do tratamento. Pensei que desabafar apenas não seria o suficiente, não sanaria a necessidade que existe para a divulgação do assunto.

Essa necessidade que só pude perceber tendo passado pela doença sem ter nenhuma informação relevante anteriormente. Se no momento do diagnóstico eu tivesse o conhecimento que tenho hoje, eu sei que inicialmente teria me abalado menos e estaria mais preparado para o que viria a

seguir.


Foi extremamente difícil abrir mão de certas coisas por conta do tratamento tão complexo dessa doença que chega sorrateiramente e nos tira tanto, de repente e sem aviso! Meus momentos de lazer foram afetados, minha vida sexual foi muito dificultada e, até mesmo o meu trabalho nas redes foi algo que, como disse, precisei me distanciar por um tempo para minha própria recuperação.


Todo esse abalo emocional que tive por todos os fatores acumulados causou complicações até mesmo na minha forma de lidar com meus pensamentos e com as pessoas próximas a mim. Essa doença nos atravessa de uma forma extremamente perturbadora, causando dores e o pior, para mim, depois das dores já terem se tornado comuns, era um medo sem igual que sentia. Tentei escapar disso ao máximo, lidando de forma positiva com o que me ocorria, o que me ajudou. Mas como disse a minha terapeuta emocional, a Dra. Maria Clara C. Custódio: “Dificilmente uma pessoa com câncer não tem o medo à flor da pele. O medo faz parte da nossa natureza humana. A gente tem medo de um perigo iminente, daquilo que vem pela frente e de situações de coisas que a gente deixou de fazer. Fica com medo de como será a vida pela frente. Isto é absolutamente normal”.


A ideia de trazer a série de vídeos “Cuidar-se é fundamental” no meu canal no YouTube, foi por conta da minha necessidade em expor a experiência pela qual passei, compartilhar meus aprendizados e comunicar informações a todos que passam ou podem vir a passar por essa doença e, espero que chegue a muitos que consigam evitá-la graças a esses reforços sobre a importância da saúde preventiva e do diagnóstico precoce.


Eu sabia que seria necessário e queria um novo formato pra trazer ao público da melhor forma possível essas conversas informativas. Queria algo mais sóbrio, um tom mais sério e percebi que teriam de ser vídeos mais extensos para trazer tudo o que queria e seria necessário.

Diferente dos conteúdos que já produzi no meu Instagram, que quando mais extensos, eram em forma de live. Senti que deveria explorar novos meios de comunicação e o YouTube pareceu uma boa plataforma para esse tipo de vídeo. Assim, gostei de vislumbrar esta ferramenta para explorar essa minha etapa de renovação como produtor de conteúdo e comunicador. Vem ler a minha entrevista com Antonnio Italiano, diretor VAM Magazine:

VAM: Arthur, conversamos algumas vezes via ligação e mensagens, aprendi contigo que precisamos ser fortes sozinhos, sim, sozinhos, mesmo com apoio familiar e de profissionais, nós estamos sozinhos. Como foi descobrir o câncer?  E o que pensou quando o curou? Descobrir o câncer foi devastador. Aquele dia, entrei no consultório apreensivo, já tinham levantado essa possibilidade mas eu estava crente de que não seria algo tão grave. Meu namorado estava me acompanhando, coisa que ele fez durante todo o tratamento, sempre que pôde. Nós escutamos o que a minha proctologista tinha a dizer, mas tive uma tremenda dificuldade em processar. Mas foi muita sorte poder contar com o Igor ali comigo para também ouvir.

Quando minha ficha caiu, eu já estava fora do consultório, na calçada. Simplesmente comecei a chorar muito pensando no pior. Infelizmente é nossa primeira reação ao ter um diagnóstico tão assustador. Tendo passado por tudo isso, eu já me sinto renovado, curado. Mas continuo com algumas restrições e cuidados. Agora consigo aproveitar mais os meus momentos de lazer, principalmente por não ter mais um grande peso nos ombros.

Ainda assim, aguardo ansioso pelo dia 05 de abril, quando vou realizar mais alguns exames e ver os próximos passos.

Não podemos nos sentir derrotados nunca, é necessário manter a esperança e os cuidados!

VAM: Esse convite da VAM Magazine surgiu para que possamos informar a cura e alertar as prevenções. Como paciente, qual a informação que acredita ser essencial para que as pessoas se conscientizem sobre a doença?  Primeiro eu preciso parabenizar a iniciativa da revista e a sua, Antonnio, em se dispor a abrir este espaço para essa entrevista. Digo que, de verdade, é muito gratificante ver a relevância que deram para essa pauta da saúde.

Todas as informações são essenciais para a conscientização e, até por isso, vi a necessidade de trazer profissionais de diversas especialidades para falar sobre algumas das especificidades do tratamento de forma mais completa.

Inclusive, gostaria de trazer profissionais de todas as áreas que abrangem o tratamento do câncer e que estiveram na minha caminhada, mas infelizmente ainda não pude.

Aprendi nesse processo que não existe um ponto mais importante que outro: todos os alertas acerca da doença e as formas de prevenção devem estar unidas em uma única preocupação com a saúde preventiva. E não apenas em relação ao câncer, pois antes do diagnóstico existem muitas possibilidades.

A prevenção é um universo amplo e que precisamos continuar abordando.


VAM: De que forma os médicos foram essenciais no seu tratamento?  A equipe médica e também as enfermeiras eram as pessoas que estavam do meu lado durante a maior parte do tratamento, e foram elas as principais responsáveis por minha recuperação. Além claro da minha família e de algumas pessoas próximas!

Sou grato a todos que estiveram do meu lado neste período.

VAM: Você poderia me contar um pouco sobre esse processo?  Sabe me dizer se foi um fator genético que desencadeou?

O processo de descoberta, como falei, foi muito complexo e difícil. Quando descobri, eu me questionei muito sobre a causa, o por quê de estar passando por aquilo, o que eu podia ter feito para merecer a doença.

O que me tirou desses questionamentos vazios, no início, foi ter o Igor ao meu lado. A parceria dele, em alguns momentos tendo mais esperança que eu mesmo, não deixando que eu desistisse e me entregasse aos pensamentos destrutivos, foi o que me ajudou a não me martirizar pensando na causa da doença, que era algo que já haviam me aconselhado muito. Assim eu busquei seguir o que a Dra. Maria Clara C. Custódio disse: “Quanto mais você aprender daquilo que esse câncer veio lhe ensinar, quanto mais você aprender as mensagens que ele te trouxe, menos medo você vai ter. Porque você vai estar se cuidando, tomando as medicações adequadas, vai mudar seu estilo de vida e sua dinâmica emocional. E isso tudo faz o medo diminuir, pois você vai entrar no caminho de aceitação da sua vida.”


Então não sei se foi um fator genético ou qualquer outro que me deixou doente. Mas, além do diagnóstico precoce e preciso que me possibilitou acesso à terapia mais eficaz, o fato que pode contar com meu companheiro, minha família e amigos ao meu lado, pessoas que se importavam de verdade, tornou mais fácil focar no tratamento, e manter pensamentos positivos.


VAM: Em quem você se inspirou para melhorar enquanto estava com dor? 

O meu tratamento, mesmo com o suporte dos mais próximos, foi uma jornada muito individual. Mas uma pessoa que tive contato, eu acredito que por destino, foi a cantora e pastora Ludmila Ferber.

No décimo quinto dia do meu tratamento de radioterapia, em que cheguei animado e comunicativo no hospital (o que não acontecia com frequência, tenho que confessar), ela estava no hospital também, e com dificuldades para comer. Eu que estava passando por algumas dificuldades do tipo, tentei ajudar com uma dica de pedir a refeição sem temperos.


Foi de todo o coração, nem imaginava quem era ela e que já enfrentava a doença por muito mais tempo que eu, mas ali tive um contato com ela e conversei um pouco com sua cunhada, Claudia Ferber, que também é médica.

Esse momento me marcou, passei a acompanhar a jornada dela e a admirar por tanta força, o que me enchia ainda mais de esperança. Infelizmente, combatendo o câncer, ela veio a descansar em 26 de janeiro de 2022. A notícia me abalou muito, mas me deu um impulso a mais para compartilhar meu relato e trazer visibilidade ao assunto usando meu espaço como comunicador em minhas redes.


VAM: Como influenciador e empresário há mais de 10 anos, como foi deixar as redes sociais e voltar após o tratamento?  Preciso ser sincero, ao receber um diagnóstico tão complicado, meu foco como produtor de conteúdo se perdeu. Afinal minha preocupação maior se tornou minha saúde, a minha vida.

Mas foi difícil deixar de fazer algo que amo, algo que era rotineiro e principalmente, por me sentir ainda mais sozinho ao me afastar dos meus seguidores com os quais me sentia tão próximo.


VAM: Como contou para os seus amigos já que era algo desconhecido de todos? Pode parecer até egoísmo, mas eu decidi que dividiria com o menor número possível de pessoas, o que é bem estranho para um gerador de conteúdo. Mas não foi algo que escondi apenas de meus seguidores, amigos também não sabiam até que postei meu desabafo no Instagram.

As únicas pessoas que sabiam eram as que estavam ao meu lado no dia a dia, pouquíssimos amigos mesmo. Mas foi necessário.

Eu estava vivendo uma nova realidade que era muito desagradável, e por isso precisei me desligar de tudo e lidar apenas comigo e minha saúde. Os questionamentos, preocupações e cobranças por notícias que viriam de todos os lados, eu já estava me fazendo.


VAM: Como imaginou que seria a repercussão e o interesse da mídia? Já que poucas pessoas influentes possuem a liberdade de expor a sua saúde. Pensei primeiro em expor ao meu público esse fato que guardei por todo esse tempo e, trazer luz pra prevenção do câncer, pois realmente não é algo que as pessoas se atentem no dia a dia.

Eu queria ter exposto algumas semanas antes, mas fui aconselhado a aguardar estar menos fragilizado fisicamente e mais estável emocionalmente. Para não ficar muito cansado ao lidar com a gravação dos vídeos e poder lidar melhor com as mensagens de preocupação, de apoio e os relatos que eu já imaginava que receberia e evitei, não expondo minha situação durante o tratamento.

Sabia da importância e grandeza do assunto, mas ao publicar meu relato, me surpreendi positivamente com a quantidade de repórteres que tiveram a iniciativa de conversar comigo, se aprofundar na minha história, compreender e auxiliar nessa divulgação sobre saúde preventiva.