Entrevista com Rainer Cadete para a VAM Magazine, "Verdades Secretas 2", paternidade e muito mais

No ano em que celebra a sua maioridade na profissão, iniciada ainda em Brasília, sua cidade natal, não faltam motivos para Rainer Cadete, nossa capa e estrela VAM Magazine de agosto comemorar. Na obra que dará continuação ao sucesso “Verdades Secretas”, de Walcyr Carrasco, o ator retorna à TV com o carismático e divertido booker Visky. Para o personagem, que volta com ainda mais espaço na trama, Rainer exibe mudanças visíveis.

Além dos cabelos curtos e azuis, na preparação para o papel o ator emagreceu 11 kg com muita dieta, exercícios e aulas de stiletto e vogue. Paralelamente, estreia dois longas-metragens e estrela seu primeiro trabalho solo no teatro em “O Diário de um Louco”, famoso texto do autor russo Nikolai Gogol que cumpriu temporada online no mês de março sob a batuta do grande diretor Elias Andreatto.

É muito gratificante celebrar 18 anos de resistência nas artes, em várias plataformas. Foi tudo conquistado com muito esforço, dedicação, planejamento e luta, mesmo. Me sinto feliz sendo artista, sendo ator, apesar do tão árido que é ser artista neste país. Sigo resistindo. E, para mim, sucesso vem da palavra suceder. Então, enquanto estiver sucedendo meus trabalhos no teatro, na TV, no cinema, com a possibilidade de contar histórias e contribuir com meu propósito com o mundo, vou me sentir feliz”, ressalta o ator de 34 anos.

E o ano parece estar só começando para o artista, que se consagrou como um dos grandes talentos da nova geração na polêmica trama de Walcyr, autor com quem trabalhou ainda em “A Dona do Pedaço” (2019), “Êta Mundo Bom!” (2016) e “Amor à Vida” (2013). Em breve, poderá ser visto no longa-metragem “Virando a Mesa”, do diretor Caio Cobra, no qual Rainer interpreta o protagonista Jonas, policial novato que tem a missão de fechar um clube de poker que funciona em uma boate clandestina. A parceria com Caio Cobra rendeu bons frutos e Rainer ainda estreia, como ator e coprodutor, o longa “Intervenção”, com roteiro original de Rodrigo Pimentel.

Ao longo de sua trajetória profissional, os números são expressivos: são 13 trabalhos em programas de TV, entre novelas, seriados, realities e outros gêneros; 10 personagens no cinema, entre longas e curtas-metragens, e ainda 14 projetos no teatro. Em 2015, o personagem Visky lhe rendeu o 18º Prêmio Extra de Televisão na categoria Melhor Ator Coadjuvante, sua primeira premiação por um trabalho televisivo, e também o Troféu Melhores do Ano, do Domingão do Faustão, na mesma categoria.


A TRAJETÓRIA

Nascido em Brasília, o primeiro contato com o teatro foi em um curso sob o comando da professora Adriana Lodi, no Espaço Cultural Renato Russo. Em 2005, se mudou para o Rio de Janeiro e participou da Oficina de Atores da Globo e do curso de formação profissional de atores na Casa das Artes de Laranjeiras (CAL), entre 2008 e 2009, ano em que interpretou seu primeiro papel de destaque na TV: o protagonista Gabriel, na primeira fase de “Caras & Bocas”, também escrita por Walcyr Carrasco. No mesmo ano, participou da novela “Cama de Gato”, de Duca Rachid e Thelma Guedes, que lhe rendeu uma indicação ao Prêmio Contigo de Televisão na categoria ator revelação.

Entre os seus trabalhos no teatro, destacam-se “O Louco e a Camisa” (2018), de Nelson Valente, também dirigido por Elias Andreato; “Tudo Que Há Flora” (2017), com direção de Daniel Herz, da Cia Atores de Laura; “Nós – o intervalo em Cordélia e o Peregrino” (2014), de Vinícius de Moraes, com direção dos Irmãos Guimarães; “Quem ri por último ri melhor” (2014), de Arthur Xexéo, dirigido por Cininha de Paula; e “Dorotéia” (2013), de Nelson Rodrigues, com direção de Sérgio Menezes.


Retomando o personagem Visky em “Verdades Secretas 2”, com reestreia marcada agora para agosto, o ator comemora seus 18 anos de carreira com trabalhos no teatro, televisão e cinema


ENTREVISTA

VAM: Rainer, para você como a arte pode ajudar a colocar luz em alguns temas importantes para a sociedade? Destacando que parte de seus trabalhos de sucesso tem foco em assuntos representativos.

Ao longo desses últimos séculos a arte tem lançado um canhão de luz em lugares até então escuros. Ela se apresenta levantando debates, retratando, representando e ressignificando a sociedade de alguma forma, e ainda podendo criticar o que é preciso. A vida em si não é suficiente, precisamos desse algo a mais que é a arte para decifrar o grande mistério da vida. Acho super importante poder debater temas através dos meus personagens, sobretudo os mais excluídos da sociedade, os que estão fora desse padrão vigente no patriarcado. Ao jogar luz nos personagens eu sinto uma necessidade de mergulhar fundo nesses universos de pessoas que são, sim, muitas vezes reais, existem espectadores que se identificam com esses personagens. E através deles eu vou descobrindo novos caminhos em mim, novos universos, outros pontos de vista. Eu acredito que as Artes Cênicas, em especial, são bem interessantes por isso, porque nos permite sermos outros viajantes, vivermos outras vidas em uma só - e até viver uma vida inteira em 70 capítulos (risos)! Isso é mágico!


VAM: Em Brasília, na sua cidade natal, você tem um espaço dedicado a formação de atores. Como tudo aconteceu na pandemia? Como esse projeto iniciou?

Eu acredito muito nesse lugar de sala de ensaio porque ela é minha origem. Eu venho daí, dessas oficinas, montagens teatrais, do Espaço Cultural Renato Russo, com a Adriana Lodi, um ambiente público onde o governo, naquela época, investia num estudo continuado de qualidade de artes cênicas, canto, artes plásticas... Eu nasci artisticamente ali. Morava na periferia de Brasília e viajava até a 508 Sul, no centro, para poder estudar. E isso fez com que eu quisesse devolver à minha cidade as coisas que eu aprendi ao longo desses anos de carreira e estudo. Então, sempre que eu posso, vou a Brasília e faço uma imersão com um grupo de pessoas para estudar técnicas de interpretação, textos, realizar trocas. Isso que você menciona aconteceu em 2017, quando tivemos duas turmas grandes, com 60 pessoas em cada uma, realizando pesquisas em audiovisual. Desde então, pela falta de tempo e correria com o trabalho, eu só consegui fazer um workshop online com a peça “O louco e a camisa”, que era parte integrante do projeto. Acho muito interessante e nutritivo para ambas as partes ter essa troca. Eu saio muito nutrido, instigado, provocado, com vontade de ler e estudar mais. Estou com saudade de realizar essas imersões e espero voltar a fazê-las assim que a pandemia passar.


VAM: Cine Holliudy, de Halder Gomes, foi um grande banho de brasilidade, no ano de 2013 você deu vida a Shaolin, em 2019 Lampião. O que inspira a sua brasilidade? Quem inspira você?

Ah, que legal, esse foi meu primeiro longa-metragem. Passei quase três meses em Fortaleza (CE) num mergulho profundo que me proporcionou uma experiência muito interessante, onde pude aprender o regionalismo da linguagem. O filme é falado em “cearencês” e “legendado para o português”, de tão a sério que era levado o uso das falas locais. Eu aprendi lá mesmo a fazer uso desse dialeto. O filme fala de cinema, é uma homenagem a este universo audiovisual e toda sua equipe. Eu sou de Brasília, que é uma cidade relativamente nova, com 61 anos. Então, dificilmente os pais das pessoas da minha idade são brasilienses. Eu cresci com amigos todos brasilienses, mas, assim como eu, filhos de pessoas que se mudaram para lá vindas de todos os lugares do Brasil, por acreditarem no projeto e em busca de uma vida melhor. Isso tudo sempre me deixou muito atento a todos os sotaques. Minha mãe é mineira de Araxá e meu pai é de Recife (PE), que são duas culturas super fortes e com características distintas. São sotaques, estruturas de fala, acentos, comportamentos e pensamentos peculiares. Então acho que essa minha brasilidade vem daí, dessa mistura. Minha mãe sempre foi muito a minha inspiração, minha musa inspiradora, mesmo. E eu gosto muito da cultura brasileira, da nossa música, tenho vários cantores e cantoras que gosto muito e me inspiram profundamente.

VAM: Walcyr Carrasco: Caras & Bocas, Amor á Vida, Verdades Secretas, Êta Mundo Bom, e agora Verdades Secretas II. O que você mais admira e o que aprendeu com o gênio novelista Walcyr Carrasco?

O Walcyr Carrasco é o meu grande pai na teledramaturgia, né?! Eu tinha vindo de Brasília pro Rio de Janeiro para ter mais perspectivas como ator, fui convidado para fazer a Oficina de Atores da Globo e logo emendei na novela “Caras & Bocas”, onde debutei na TV e fiz o personagem protagonista na fase jovem. Foi uma experiência muito interessante, onde pude ser dirigido e ainda contracenar com o saudoso Jorginho Fernando. O capítulo em que eu aparecia foi reprisado ao longo da novela inteira, então este foi um trabalho que me rendeu muitos frutos. De lá pra cá, o Walcyr sempre que pode e se sente inspirado me convida para fazer personagens muito especiais, que são verdadeiros presentes do universo. Personagens profundos, densos, interessantes. Ele é um grande gênio, e poder trabalhar com ele é um enorme privilégio, uma alegria dividir com ele tantos sucessos. É uma confiança mútua no trabalho um do outro, ele é um grande conhecedor da alma humana, um grande intelectual, escreveu dezenas de livros, é um profissional muito inspirador. Espero poder fazer muitos personagens dele ao longo da minha carreira, porque eu aprendo muito, sempre saio melhor do que entrei.


VAM: Com 11 trabalhos na televisão, 10 no teatro, 5 no cinema, e também Diretor do episódio “Amassa” da websére “Mute”. Como você percebe o incentivo da arte, educação e cultura do nosso país? Qual a sua opinião sobre o que acontece no Brasil com o atual cenário?

Não vejo nenhum incentivo por parte do Governo, neste momento, às artes e cultura no país. Percebo, sim, um projeto de desmonte onde a arte, a educação e a cultura são sucateadas e desprezadas, porque elas são ferramentas de emancipação muito importantes, e parece que, para o governo, não é interessante que as pessoas pensem e tenham uma educação crítica, emancipada e abrangente. Então, quando se tira isso, boa parte das pessoas fica anestesiada, não tendo muito critério e parâmetros para compreender o que está acontecendo. Pra mim, é revoltante ver o que estamos vivendo no Brasil como um todo, inclusive na saúde em meio à maior pandemia que nossa geração presenciou, tendo que lidar com tantas mortes que poderiam ter sido evitadas e gerando tanto sofrimento pra toda população. Espero e acredito que possamos mudar isso nas próximas eleições, com um voto consciente. É o que eu sinceramente espero.


VAM: Quais as lembranças mais forte da sua Brasília? Comente um pouquinho sobre a sua relação pessoal com as suas origens e família:

As minhas lembranças mais fortes passam por alguns lugares. Eu morei muito tempo na Samambaia Norte, região periférica no entorno de Brasília. Ali eu sonhei muito em ser ator, estudei a vida inteira em colégio público, convidava as pessoas para irem lá pra casa ler textos e fazer teatro. E era uma varanda cheia de samambaias, que minha mãe me obrigava a aguar – e isso me fez ter uma grande paixão pelas plantas. Muita coisa começou naquela varandinha. Lembro com muito carinho do Espaço Cultural Renato Russo, que me proporcionou descobertas como artista, homem e cidadão, todo meu pensamento e desenvolvimento crítico se iniciou ali. Por isso que defendo e acredito muito nesses cursos continuados, pelo tanto que eles mudam a vida das pessoas. A minha vida é antes e depois do teatro, realmente é uma espécie de salvação, uma possibilidade de ser mais eu. Eu passava quase duas horas no ônibus nesse trajeto pra poder estudar, lembro muito disso. E as lembranças de Brasília me trazem muito esse frescor, esse perfume de sonho. E minha família é unida, pequena, mas com um coração gigante – crescemos juntos eu, minha mãe Ronalda e minha irmã Sandra, que casou com meu cunhado André e teve dois filhos, meus sobrinhos Luigi e Bruno. E eu tenho o meu filho Pietro. Me dou super bem com todos, sempre que podemos estamos juntos, ou eu vou pra lá, ou eles vêm pra cá. É uma relação com muita harmonia, e sempre que a barra pesa é pra família que a gente corre. Eu sou muito grato e amo a minha! Brasília pra mim é isso, um lugar que eu amo e pelo qual eu tenho muita gratidão por ter me proporcionado tantas coisas incríveis.


VAM: O que faz no Day off? Prática algum esporte, hobby? Como é a sua rotina?

Eu atualmente praticamente não tenho day off, trabalho intensamente, de 2ª feira a sábado, gravando uma média de 11 horas por dia, e mais duas horas de locomoção pra ir e pra voltar dos Estúdios Globo. Então, me sobram umas oito horas por dia para fazer tudo – fazer comida, comer, dormir, beber água, tomar banho, cuidar do meu filhote Pietro, ler, treinar e estudar as cenas do dia seguinte (risos). E ainda tem a parte da preparação do personagem, essa rotina de colocar e retirar a maquiagem do Visky, que é um personagem que usa muita maquiagem. Isso me faz ter que limpar e cuidar muito da pele, se não nascem espinhas. Eu pinto o cabelo um dia sim, um dia não, porque o azul desbota. De 15 em 15 dias eu vou ao salão pra descolorir a raiz, e é um processo bem agressivo, preciso cuidar bem. E essa série de cuidados com os cabelos segue: preciso evitar mergulhos no mar ou piscina, passar muitos produtos pro cabelo se manter hidratado, enfim, é um rolê (risos)! Ao contrário de mim, o Visky não tem pelos, então preciso passar a maquininha no corpo um dia sim, um dia sim. (Risos) Tive a péssima ideia de uma vez tirar com cera, o que resultou em foliculite em alguns pontos... Tenho uma rotina de alimentação bem regrada, assim como exercícios – nesta fase, malho quatro vezes por semana. E aí tenho o domingo, onde eu tento acordar um pouco mais tarde - mas depois dos 30 anos eu não consigo mais levantar tão tarde (risos). E aí já levanto agitado, porque eu sou uma mente inquieta, então é de praxe estudar todas as cenas da semana com a minha fonoaudióloga Rose Gonçalves e meu preparador corporal Will Freitas – isso leva em média umas quatro horas do meu domingo. É um pouco trabalhoso, mas eu amo fazer o Visky! E nas horas vagas que surgem em pequenos intervalos ao longo da semana eu cuido do meu novo desafio, que é álbum que eu estou desenvolvendo com o multiartista Renato Luciano, que se chama “Leves e Reflexivas”, majoritariamente com músicas autorais nossas. E aí faço aulas de canto, violão, coloco voz no estúdio, preparo um clipe, e ainda tem a produção do clipe. Eu estou bem animado com esse novo desafio que é cantar e desbravar a música! Enfim, o day off acaba sendo o dia em que eu malho mais, cozinho pro meu filho, fico mais próximo a ele, cuido, dou presentes, fazemos atividades juntos, corremos, fazemos trilha, assistimos filmes, séries, leio livros e faço uma meditação guiada de 10 minutos, o que me faz muito bem e me faz ficar mais concentrado.


VAM: A internet facilita o acesso aos artistas e conteúdos. O que gosta no mundo digital e o que não gosta? Rainer envia nudes? Como é ser bonito e talentoso, recebe muitos nudes? Como lida com isso?

O que eu mais gosto é a proximidade favorecida pela troca em rede. Poder falar com pessoas que eu jamais imaginaria, como atores de uma série que eu esteja assistindo e faça contato pra elogiar o trabalho. Do mesmo modo, receber esse retorno de quem gosta do meu trabalho é muito legal. Inclusive, me permite receber mensagens de lugares mais remotos, dentro ou fora do Brasil, mensagens de fãs que moram na Rússia, Estados Unidos, Portugal... Essa é a parte boa do mundo digital. Mas não podemos esquecer o mau uso que muita gente faz e, assim, cria um lado ruim, como tantos casos de ódio destilado e vitimando pessoas, como o caso recente do filho da cantora Walkyria Santos, dentre tantos outros que vemos diariamente. É algo muito violento, triste demais! Essa parte não deveria existir! Sobre nudes, eu faço sim – até posto nas redes! Você nunca viu no meu Instagram (risos)?! E já recebi nudes, sim, e procuro lidar de forma natural. Acho que temos que ter uma relação boa com o nosso corpo, sem objetifica-lo tanto. Na verdade é só um corpo e não existe nada mais natural que isso.


VAM: Alguma letra da comunidade LGBTQIA+ representa você?