Lucas Oranmian fala sobre longa premiado no Festival de Cinema de Veneza, NETFLIX e muito mais

Lucas Oranmian é baiano de Salvador radicado em SP, têm uma longa carreira no teatro, seu último espetáculo foi o premiado “Grande Sertão Veredas” de Bia Lessa.

Em outubro desse ano esteve no Festival de Cinema de Veneza na première mundial de “7 Prisioneiros”. O longa ganhou dois prêmios.

Seus próximos projetos são o filme “Grande Sertão” do Guel Arraes e Flavia Lacerda onde interpreta o personagem Suzarte, e em 2022, irá filmar seu primeiro roteiro para cinema, o curta-metragem Ayô, estrelado por ele e Caio Blat. O filme é sobre um homem negro, gay, de classe média e seus afetos.


Ainda para o próximo, a estreia dos longas “Travessia” da Bia Lessa, e “Intimidade Pública” de Luciana Canton.


Na TV fez as séries “O Negócio” (HBO), “Carcereiros” (Globo), “Pacto de Sangue” (Space), e uma participação na novela Amor de Mãe de Manuela Dias.


Lucas Oranmian interpreta Isaque, um dos 7 prisioneiros no premiado longa da NETFLIX, ao lado de Rodrigo Santoro e grande elenco, com direção de Alexandre Moratto, produzido por Fernando Meirelles e Ramin Bahrani. O ator interpreta também Isaque, um dos 7 prisioneiros no premiado longa da NETFLIX, ao lado de Rodrigo Santoro e grande elenco, com direção de Alexandre Moratto, produzido por Fernando Meirelles e Ramin Bahrani.


O longa “7 prisioneiros” está em circuito nacional na NETFLIX, e para saber mais sobre esse super lançamento, leia abaixo a entrevista com o ator:

VAM: Você é baiano de Salvador? Conte-nos um pouco como começou sua trajetória até você radicar-se em São Paulo.

Tenho a alegria de ser filho de uma paraense (Carmen) e de um mineiro (Zeca). Na verdade, eu nasci no Rio de Janeiro, mas por conta do trabalho do meu pai fui pra Salvador com um mês de vida. O Gilberto Gil inclusive, autografou a passagem aérea! Uma benção né? Então sou baiano, já que fui criado lá, tenho o sotaque de lá, minhas amizades de uma vida são de lá. Minha irmã, Camila, nasceu em Salvador. Brinco que é uma família bem brasileira, com todo esse axé inexplicável da Bahia. Volto para lá pelo menos uma vez por ano.

Sempre quis trabalhar arte, e ser um trabalhador da arte era uma certeza pra mim. Meus pais sempre me apoiaram. Na adolescência eu comecei a estudar teatro mais seriamente, e na época do vestibular, São Paulo surgiu como uma possibilidade interessante por todas as portas abertas que a cidade tem para as artes, e hoje eu amo morar aqui.


VAM: Teatro sempre esteve presente na sua vida. A sua formação começou pelo teatro?

Uma das imagens mais marcantes que eu tenho quando penso na minha infância é de uma peça do Sítio do Pica-pau Amarelo que meu pai me levou em Salvador. Acho que aquilo acendeu uma luz em mim, um desejo de estar ali, eu tinha uns 4 ou 5 anos. Tive a sorte de ser criado por dois entusiastas das artes. Ir ao teatro, ao cinema, a shows e a museus eram programas que fazíamos sempre. Eles me colocavam em cursos de teatro, de música e dança porque eu pedia. Desde pequeno sou um cara meio reservado, tímido talvez, então as pessoas sempre ficavam surpresas quando eu dizia já naquela época que eu seria ator. Eu era bem calado na escola, mas sempre acabava protagonizando as peças que fazíamos lá, e meus colegas ficavam meio chocados quando assistiam porque não esperavam que no palco eu fosse tão diferente. Sinto uma liberdade e um prazer imenso quando estou no palco. Quando pensei em me profissionalizar, meu pai disse que existia faculdade de Artes Cênicas, e sempre dizendo que eu tinha que estudar, estar preparado, então, quando chegou a época do vestibular vim pra São Paulo já focado em estudar na Escola de Comunicações e Artes da USP. Foi uma formação muito importante pra mim, aprendi não só sobre atuação, mas sobre todos os setores que compõem o teatro. Minha primeira peça profissional, “Maria Inês ou o que você mata pra sobreviver?”, foi uma peça da Cia Ato Reverso, que formei ao lado de amigas do curso e da qual fiz parte até 2017. Lá a gente atuava, escrevia a dramaturgia, fazia a produção. Assim que saí da Cia, fui para o Rio fazer o espetáculo Grande Sertão: Veredas, dirigido pela Bia Lessa. Sem dúvidas um divisor de águas pra mim no teatro.


VAM: E o audiovisual? Como aconteceu?

Fui uma criança muito noveleira e que assistia muitos filmes, já com um olhar pro trabalho dos atores mesmo, queria estar ali, ensaiava cenas sozinho. Fiquei arrasado quando descobri que perdi o teste em Salvador pra fazer parte da primeira versão Chiquititas (risos). Em Salvador não tinham muitas produções audiovisuais sendo feitas, então quando cheguei em São Paulo, corri atrás. Paralelamente aos estudos na USP, fiz vários cursos de interpretação para cinema, atuava em curtas de alunos dos cursos de cinema, passei um tempo estudando na New York Film Academy, e na volta fui atrás de produtores de elenco. Inclusive uma das primeiras produtoras com quem eu falei há uns dez anos foi a maravilhosa Patricia Faria, que fez agora a produção de elenco de “7 prisioneiros”. Nessa época também conheci o Daniel Wierman, que me chamou pra fazer a série “O negócio”, na HBO, meu primeiro trabalho na televisão.


VAM: Em “7 Prisioneiros” você contracena com Rodrigo Santoro. Como foi essa experiência?

Quando fiz o teste confesso que fiquei nervoso por saber que o Rodrigo faria, sou um grande admirador do trabalho dele, acho muito legal a forma como ele conduz a sua carreira. Contracenar com ele foi uma maravilha, aprendi muito, e a troca que rolou com ele desde os ensaios até as filmagens foi fundamental para a criação do meu personagem, o Isaque. Nossos personagens têm alguns embates durante o filme, são cenas pesadas que exigem muita concentração, mas fluiu muito bem. Eu e Rodrigo estivemos juntos agora em setembro representando o filme na première que aconteceu Festival de Cinema de Veneza, e foi uma delícia celebrar com ele, a Mel e parte da equipe esse trabalho que já está dando tanto orgulho para nós.


VAM: No longa você é um dos 7 prisioneiros. Como foi construir esse personagem? Você fez algum laboratório?

Sou apaixonado por esse personagem. O Isaque tem uma determinação que eu acho admirável no ser humano, ele não admite ser enganado e briga pelo que quer. Ao contrário de mim, que sou mais pragmático, ele se deixa levar bastante pela emoção, pelo calor do momento, e por isso acabava agindo sem pensar muito. O filme fala de tráfico humano e escravização contemporânea, problemas abomináveis que deveriam ser mais abordados e combatidos. Antes de filmar, eu busquei o maior número de informações que eu podia sobre o tema, pra poder ser o mais fiel possível na abordagem. É um absurdo saber que ainda hoje existem mais de 40 milhões de pessoas no mundo que são vítimas da escravização (dados da ONU, 2019). Espero que após assistir ao filme as pessoas se conscientizem mais sobre isso. Um modo de começar, é procurar saber de onde vêm os produtos que nós consumimos, roupas, sapatos, eletrônicos, se são empresas que já foram denunciadas por questão relacionadas a escravização.Um dos atores que faz um prisioneiro no filme, o Ameth, é um boliviano que foi escravizado assim que chegou em São Paulo. O depoimento dele me deixou devastado, vi a história do Isaque ali na minha frente, a responsabilidade que eu tinha ao contar aquela história.

VAM: As plataformas de streaming estão ganhando cada vez mais espaço com o audiovisual, tanto que o seu último filme que está em cartaz nos cinemas do Brasil, acabou de estrear (11 de novembro) na NETFLIX. Qual a sua opinião sobre isso?

Acho uma maravilha a força que os streamings tem hoje aqui no Brasil e no mundo, aumentam as possibilidades de trabalho para todos nós que fazemos audiovisual, ainda mais nesse momento em que o cinema brasileiro está sendo tão atacado pelo atual governo. É uma alegria imensa saber que o nosso filme agora está disponível para os públicos de cerca de 190 países! Já pensou? É lindo. E desde que a Netflix começou a produzir conteúdo no Brasil eu sinto que houve um aumento no leque das narrativas, com mais oportunidades para nós atores negros.


VAM: Você já trabalhou com grande diretores como Bia Lessa, Guel Arraes e Alexandre Moratto. São experiências muito diferentes?

Olha, sempre são experiências bem diferentes, e eu acho isso maravilhoso. Tenho uma alma meio nômade, então vou me encaixando. Apesar de cada um deles ter um jeito, o que me fez ter entusiasmo em trabalhar com eles nos seus projetos, é a paixão que cada um tem pelos filmes que estão fazendo, sinto como se pra eles aquilo fosse a coisa mais importante que estão fazendo no momento, e acaba virando a coisa mais importante pra mim também, me jogo. Quando fiz “7 Prisioneiros” com o Alexandre, tínhamos uma busca por uma atuação o mais realista possível, quase documental, e nesse momento estou filmando o novo filme do Guel Arraes e da Flavia Lacerda, que é quase o oposto disso. Amo ir nesses extremos!


VAM: Estamos vivendo um momento delicado na cultura do Brasil. Isso atingiu você de alguma forma?

Guimarães Rosa fala: “o que a vida quer da gente é coragem”, e pra mim ser artista em qualquer lugar do mundo é um ato corajoso. No Brasil então, exige mais coragem ainda. Toda semana eu preciso reafirmar pra mim mesmo o porque eu devo continuar a trabalhar com isso. Tem sido uma tristeza profunda ver a maneira como a cultura vem sendo ainda mais desvalorizada pelo atual governo. Sinto que é um projeto de emburrecimento da população acabar com o senso crítico. O conhecimento leva ao questionamento, e cultura é educação né? O que me dá esperança é pensar que o meu Brasil é Brasil de Caetano, Gil, Conceição Evaristo, Sueli Carneiro, Mariele Franco, e que essa onda horrível vai passar. Assim como vários amigos, tenho projetos que ainda não foram lançados ou saíram do papel por conta desse desmonte.



VAM: E a pandemia? Você parou?

Terminamos de filmar “7 Prisioneiros” uma semana antes da pandemia estourar no Brasil. Todo o trabalho de pós-produção já foi feito dentro dos protocolos. Eu estava muito animado porque íamos apresentar o espetáculo “Grande Sertão: Veredas”, em Inhotim, mas aí, parou tudo. Acho que como a maioria das pessoas eu fiquei um tempo meio paralisado, sem entender o que estava acontecendo, minha criatividade deu uma estacionada. No final do ano passado fui convidado pelo diretor Jonas Araújo para fazer seu primeiro curta-metragem, “Boca Seca”, e fiquei emocionado de voltar a um set mesmo que rapidamente.

VAM: Cada ator tem seus ídolos no cinema. Quais são os seus?

Sou um apaixonado pelo cinema brasileiro. Matheus Nachtergaele e Lázaro Ramos são dois atores que eu amo assistir e sempre aprendo algo. Quem não assistiu Matheus em “Amarelo Manga”, e Lázaro em “Madame Satã” não sabe o que está perdendo. E são dois diretores incríveis também.


VAM: E no teatro?

Acompanho com entusiasmo o trabalho de várias companhias de teatro negro que estão ressignificando e reformulando o lugar que foi destinado a nós nas artes cênicas. Adoro “Os Crespos de São Paulo” e o Bando de teatro Olodum de Salvador.


VAM: Com quem você gostaria de contracenar que ainda não tenha feito?

Vi que o Wagner Moura vai filmar com o Kleber Mendonça Filho no ano que vem, quero trabalhar com os dois! Admiro muito os filmes do Kleber, e “Marighella” é sensacional.


VAM: Você fala sobre política?

Em 2021 acho fundamental que a gente fale sobre política, estude mais e procure saber o que a galera que a gente votou está fazendo, cobrar, e ir às ruas. Pra mim não existe arte dissociada de política, toda arte que fazemos está diretamente ligada ao que acreditamos que pode ser uma possibilidade de revolução na nossa sociedade.


VAM: E sobre racismo?

Acho que só recentemente as pessoas brancas constataram que de fato o Brasil é um país racista e algumas agora estão indo atrás de entender melhor algo que para nós sempre foi tão óbvio. Torço para que sigamos numa mudança progressiva, tem muito ainda a ser transformado nesse quesito para que nós, negros, possamos nos sentir seguros de estar em todos os espaços. Mas não vamos nos calar mais, nosso povo é sinônimo de potência.


VAM: Na sua visão, o que deveria mudar no país, já que teremos eleições em 2022?

A falta de diálogo nos trouxe a esse momento assustador. Que em 2022 estejamos mais abertos, com empatia e paciência para o debate. Que venha um novo governo, composto por pessoas inteligentes, com foco no avanço, e não no retrocesso.


VAM: Fale sobre seu projeto, o filme “AYÔ”.

Como ator negro, sempre senti falta de uma oferta maior de personagens complexos, interessantes, e longe de estereótipos no audiovisual. E hoje tenho certeza de que isso só vai mudar quando tivermos mais representatividade nas equipes criativas. Meu próximo projeto é rodar meu primeiro roteiro para o cinema, o curta “AYÔ”, que fala da vida afetiva do personagem-título, um homem negro, gay e de classe média, uma narrativa que não vemos hoje no cinema brasileiro. Vou fazer o Ayô, e o Caio Blat, meu amigo amado e grande ator, vai fazer meu par. Estou muito animado!


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